“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

14/03/2012

Agouro tem dois lados, você pode escolher

Falando em agouro, a gente às vezes se depara com uma onda de azar, e logo pensa no “mau” agouro. Dia destes, passou um pé de vento que estava mais para ciclone, daqueles em espiral que levanta tudo. Em pleno dia - lá pelas 13 horas - na rua onde moro carregou montões de telhas que pareciam fazer uma street dance no ar.

'Tava trabalhando e recebi o telefonema da mãe: “filha, a vizinha viu o pé de vento e veio me avisar que caiu uma telha E-NOR-ME no seu telhado e parece que quebrou bastante!"

Bom, quando se está no trabalho, atarefada, há quilômetros de casa e nada pode ser feito, resta-nos pensar no que eu fiz para merecer?

Olhando o estrago in loco, um vizinho ou outro vem fazer seu comentário: “que azar! é bom você orar”; “nossa, caiu bem no seu telhado? é bom você se benzer”. Sabe como é, as crenças são demasiadamente variadas e, portanto, as interpretações também.

Avaliei comigo mesma, até para me consolar, que sou bem sortuda! O ciclone passou, levou dezenas de telhas da vizinhança, mas as minhas ficaram. E a telha E-NOR-ME que rodopiou e embicou no meu telhado, se fosse mais um metro dali cairia sobre meu carro que fica no descoberto. E a telha, portanto, não caiu no carro, ou no quintal ou sobre minhas plantas e meus animais, nem tampouco na cabeça de algum transeunte. 

Enfim, me considerei sortuda, porque nessa noite que foi estrelada, sequer choveu! O céu esperou o conserto do telhado e foi desabar sua água quando o telhado estava consertado. Que benzer ou orar que nada! Falando em agouro, ele sempre tem dois lados, basta escolher!



Pé de vento…

(Olegário Mariano)

Ágil, violento,
De copa em copa,
Salta, galopa,
Relincha o vento.

Corcel alado,
Solta as crinas,
Desce às campinas
Desenfreado…

Transpõe barrancas,
Vales, penhascos,
Nas nuvens brancas
Imprime os cascos.

Da terra fura
Fundo as entranhas,
Na noite escura
Galga as montanhas,

Tolda os remansos,
Muda em cachoeiras
As cabeceiras
Dos rios mansos…

Arranca os galhos,
Pelos caminhos,
Deixa em frangalhos
Frondes e ninhos.

De salto em salto.
Revoluteia…
Lambe o planalto,
Dança na areia…

Na amaldiçoada
Força que o agita,
De cambulhada
Se precipita…

Pende o arvoredo
Num murmúrio:
“Meu Deus!  Que medo!
Que horror!  Que frio!”

Diz um arbusto:
“Por que me levas?
Tremo de susto
Dentro das trevas.”

Uma andorinha,
De asa quebrada:
“Morro sozinha,
Solta na estrada!”

Pobre tropeiro
Se desengana:
“Rolou do outeiro
Minha choupana!”

Vozes de magoas
Despedaçadas
Choram nas águas
E nas ramadas…

Uivam nas furnas
Feras aflitas,
Sob infinitas
Sombras noturnas…

E o vento nessa
Marcha selvagem,
Corta, atravessa,
Rasga a paisagem.

E segue o rumo
Do movimento,
Subindo a prumo
No firmamento,

Até que rola,
No último açoite,
Como uma bola
Dentro da noite…

Olegário Mariano Carneiro da Cunha, (PE-1889/RJ-1958)

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