“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

11/03/2012

Vladimir Maiakóvski: Um dia quem sabe

Um dia, quem sabe
(Vladimir Maiakóvski)

Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zoo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
- Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que doravante
a família seja o pai,
pelo menos o Universo;
a mãe,
pelo menos a Terra.

Vladimir Maiakóvski, (Geórgia, 1893 -1930)  o poeta da revolução russa suicidou-se com um tiro em 14 de abril de 1930, em Moscou, depois de lhe terem negado um visto para viajar ao exterior, apaixonado pela esposa de seu editor e trucidado pelos críticos literários. Contudo, nesse curto tempo de vida, ele nos concedeu uma obra mágica e, em si, excepcional! Tinha apenas 37 anos.

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