“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

31/12/2014

Ano novo, armagedon!


Armagedon

Sob o guarda-chuva xadrez vermelho-marrom,
sigo pelas calçadas escaldantes,
rachadas,
mormacentas,
cheirando a asfalto.

Um pixe derretido sobe pelas narinas
e esse calor indecifrável queima minhas pernas,
sobe pelas minhas coxas
debaixo do vestido,
e me umedece de suor que arde entre as pernas.

O guarda-chuva serve para reter o sol irritante,
são 32 graus
e a sensação térmica da cidade,
toda cimentada, esfumaçada de gasolina,
sobe a 40 graus...

Lá vou eu em busca de abastecer a geladeira,
pensar na ceia de ano novo,
como fosse uma obrigação de todo ser humano.
Parece armagedon.
Vou buscar o significado dessa palavra
que me pareceu adequada ao dia 31
o último do ano deste 2014... 

(Ada 31/12/2014)

Armagedon:

“Guerra de Deus com os governos políticos no fim do mundo. Trata-se de uma guerra justa, quando, após a extinção dos governos humanos, o governo de Deus assumira a terra. No livro bíblico de Apocalipse, capitulo 16 versículo 14, diz que "expressões inspiradas vão aos reis de toda a terra, a fim de ajuntá-los para a guerra do grande dia de Deus, o Todo-poderoso".

Nossa! Que é isso? Que medo! Sei lá, a imaginação humana ultrapassa minha compreensão... Alguém escreveu essa insalubridade e sou obrigada a ler e pensar nessa baboseira...

O que sei de fato, é que a fila do supermercado ultrapassa qualquer compreensão possível. Assim que cheguei às compras percebi que o mundo vai acabar hoje! Se não comprar comida e bebida, agora, já, morrerei em seguida, logo mais à meia noite! Não terei forças para ultrapassar a barreira!

A fronteira entre o dia 31 e o dia primeiro, parece um “portal” onde a ultrapassagem é algo obrigatório, que acontece apenas uma vez, ou você ultrapassa, ou sucumbe!

As energias estão todas concentradas numa contagem regressiva, virá um ano novo, uma outra coisa, algo melhor, algo inatingível-atingível, algo sonhado-pesadelo, algo pulando ondas no mar, enfrentando filas nas estradas, querendo uma farmácia aberta para a dor de cabeça latejante, o posto de gasolina, a padaria, a televisão, a familia, seja o que for comerciável, vendível, comprável, pagável, funcionando! Please! Help! Anidisambare! Um orgasmo!?

Ficamos
 rezando para o dia 31 ultrapassar a barreira do tempo, ouvir que todos riem, ver que ficam com cara de bunda, e que no dia primeiro, empanturrados de carne e cachaça, de plin-plin da rede globo, de Roberto Carlos cantando mais do mesmo, da cor branca, da cor amarela, porque representa grana, fogos pipocando, e tantos sonhos e ideais, impostos e desejáveis, o ano novo (o mesmo ano do ano passado) chega incólume de novo, e sempre.

Na fila dos idosos no supermercado, dos 10 doloridos e encurvados à minha frente, consigo ouvir uma senhora dizer que colocamos a “bandida” no governo e por mais 4 anos não saberemos o que vai rolar... Ela se refere à Dilma Rousseff. Só “deus” sabe o que me controlo - como ele não existe, não sabe de nada -  nestas ocasiões para não responder à tamanha ignorância dos fatos.

Mas daí, vou entrar nestes problemas mundanos execráveis, então prefiro acreditar no meu mundo um pouco mais próximo à dignidade, à felicidade, à consciência que todos têm direito mas não têm.

Vamos nós também tomar uma bebida para amortecer a queda deste dia fatal, final, morredouro ...

E para não fugir à regra, sigo nesse ritual quase macabro, quase pornográfico, de consumo, (chegou a geladeira nova com IPI reduzido) 
restando desejar um feliz ano novo, porque felicidade é uma promessa anônima...

(Ada, 31/12/2014)

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