“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

26/03/2009

Luzes e Letras

Três da tarde. Sentada ao lado da janela ruidosa, aberta para o ar da rua, vislumbro e me abstraio com os raios de luz refletidos em meu caderno na metade da página em branco. As falas da reunião vão ficando mais abafadas e as letras escritas à lapis, na outra metade, se misturam à essa luminosidade e me distanciam dali. A brisa que entra suave, me suavisa também, e como que brincando, sacode as persianas, cutuca-as e abre espaços para a luz criar seus desenhos no papel. São fachos iluminados escrevendo seu poema na outra metade do meu caderno. Eles são desenhados em geometrias e movimentos, ocupando o lugar das vogais e consoantes, que agora são contidas na ponta do lápis. Os fachos vêm esboçados dos reflexos da vidraça do outro prédio em frente, que por sua vez vêm das entre-nuvens, que por sua vez vêm da memória que tenho do sol. Ele andou sumido e, aqui, no meio desses prédios densamente estanques, ele nunca é visto, a não ser assim, em reflexos de sí. São fachos de luz e de pensamentos que se imprimem na folha do meu caderno e excitam as paixões, posto que são essas as letras que mais aquecem meu coração, em meio à tarde. Nesta tarde. (Ada 26/3/2009)

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