“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

13/05/2020

Docinho, mais um amor que partiu

Depois da despedida, bateu 13 horas e foi lamentável voltar para casa com aquele sentimento todo embrulhando tudo...
A vida gritando a morte no meu peito me deixou surda, mudou de cor aquele ar sem cheiros, uma ventania amarelenta fez o sol esmaecer, a poeira turvou meus olhos. Milhares de folhas secas atravessaram a rua vindas da praça. Agitadas passavam por cima da cabeça,  por baixo dos pés, em redemoinhos ritimados e me deixaram tonta... São as folhas mortas do outono dançando sua valsa de despedida.
Um retrato de saudade e solidão ficou pendurado na parede da memória. Mais um amor partiu para bem longe, aqui dentro do meu coração. 💔
Docinho janeiro 2010 🐣 13/5/2020✝️

20/04/2020

Medo que o céu caia



O céu já caía desde o princípio
Quando o homem nem o seria
Mas agora dourado pela fuligem
Dos tempos
Em que o homem dominou o fogo
Desde lá
Nada mais há 
que ele não se apodere
Até da estrela mais longínqua
Que brilha através de seus olhos e
Que sequer nasceu ainda...
Ada

22/03/2020

Chico Buarque: A Canção do Velho



O Velho

Chico Buarque
Composição: Chico Buarque
Álbum “Os primeiros anos”

O velho sem conselhos
De joelhos
De partida
Carrega com certeza
Todo o peso
Dessa vida
Então eu lhe pergunto pelo amor
A vida inteira, diz que se guardou
Do carnaval, da brincadeira
Que ele não brincou
Me diga agora
O que é que eu digo ao povo
O que é que tem de novo
Pra deixar?
Nada 

Só a caminhada
Longa, pra nenhum lugar


O velho de partida
Deixa a vida
Sem saudades
Sem dívida, sem saldo
Sem rival
Ou amizade
Então eu lhe pergunto pelo amor
Ele me diz que sempre se escondeu
Não se comprometeu
Nem nunca se entregou
E diga agora
O que é que eu digo ao povo
O que é que tem de novo
Pra deixar?

Nada
E eu vejo a triste estrada
Onde um dia eu vou parar


O velho vai-se agora
Vai-se embora
Sem bagagem
Não sabe pra que veio
Foi passeio
Foi passagem
Então eu lhe pergunto pelo amor
Ele me é franco
Mostra um verso manco
De um caderno em branco
Que já se fechou
Me diga agora
O que é que eu digo ao povo
O que é que tem de novo
Pra deixar?
Não 

Foi tudo escrito em vão
E eu lhe peço perdão
Mas não vou lastimar...


março de 2020 * 88 anos de vida *

12/03/2020

Cecília Meireles: A arte de ser feliz

Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia
ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto.

Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio, ia atirando
com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma
espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para
as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos
magros e meu coração ficava completamente feliz.

Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes
encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.

Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Ás vezes, umgalo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.

Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de
cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem
diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a
olhar, para poder vê-las assim.

#poemas #ceciliameireles

08/03/2020

8 de março de 2020

Por quê tantas avenidas Getúlio Vargas?
Por quê tantas Robert Kennedy?
E se todas as ruas fossem Marielle Franco?
E fizessem esquina com avenidas Claudia Ferreira?
Por quê tanto homens homenageados?
Num país de tantas heroínas?
Por quê silenciá-las?
Por quê querer enterrá-las sob pás de anonimato?
São nossas mães, nossas avós
nossas filhas e irmãs.
Por quê a cada 4 minutos uma mulher é agredida no Brasil?
Por quê a cada 10 minutos uma mulher é estuprada?
Por quê a cada 2 horas uma mulher é assassinada?
Precisamos continuar nos perguntando
precisamos continuar nos perguntando
precisamos
E se todos os dias fossem 8 de março?

(Paulo D' Áurea)
#8m