“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

20/01/15

Letra de música de um amigo

Música: Seu nome
Composição: Demerval Colaço

Te vi, te amei, não sei
De repente o tempo te levou
Saudade tomou conta do lugar
Chorei, vivi, andei,
Muitos rostos minha mão tocou
Mas nenhum com aquele teu olhar

Bebi na fonte do tempo,
O amor, o sabor
De um futuro que nem sei se quero
O tempo tentou me mostrar
Que razão e emoção
Não caminham sobre o mesmo leito

Assim sobrevivi
Como as rosas desse meu jardim
Esperando o dia que chegou
Choveu e o sol surgiu
Brilhou forte nesse meu refrão
Entoando um canto de amor

E a vida me surpreendeu
Como o mar, como o céu
No azul de sua imensidão
Seu nome eu vi desenhar
Como numa folha de papel,
Como na areia que cobriu o chão.

Perdida no bosque


Perdida no bosque (a sombra de uma árvore)
(Samuel da Costa)

Para Luana D’Oliveira

És a beleza etérea!
A invadir os meus saturnos
E enfadonhos dias!

Libertar o meu mundo de sonhos
Matar-me de desejo.

És um sonho dourado...
Em meio a minha vida vazia
Despropositada!

És para mim
A encarnação da beleza cósmica infinda

E eu perdido no nada
A sonhar contigo
E mais ninguém!

Eu sempre perdido nos meus...
Tediosos dias
Que são sempre iguais!
Perdido entre Eros e Thanatos!
E tu na perenal distância...

A libertar os meus sonhos

Matar-me de desejo.

31/12/14

Ano novo, armagedon!


Sob o guarda-chuva xadrez vermelho-marrom, sigo pelas calçadas escaldantes, rachadas, mormacentas, cheirando a asfalto. Um pixe derretido sobe pelas narinas e esse calor indecifrável queima minhas pernas, sobe pelas minhas coxas debaixo do vestido, e me umedece de suor que arde entre as pernas.

O guarda-chuva serve para reter o sol irritante, afinal são 32 graus e a sensação térmica da cidade, toda cimentada, esfumaçada de gasolina, sobe a 40 graus...

Lá vou eu em busca de abastecer a geladeira, pensar na ceia de ano novo, como fosse uma obrigação de todo ser humano. Parece armagedon. Vou buscar o significado dessa palavra que me pareceu adequada ao dia 31 de dezembro, o último do ano - este de 2014...

Armagedon:

“Guerra de Deus com os governos políticos no fim do mundo. Trata-se de uma guerra justa, quando, após a extinção dos governos humanos, o governo de Deus assumira a terra. No livro bíblico de Apocalipse, capitulo 16 versículo 14, diz que "expressões inspiradas vão aos reis de toda a terra, a fim de ajuntá-los para a guerra do grande dia de Deus, o Todo-poderoso".

Nossa! Que é isso? Que medo! Sei lá, a imaginação humana ultrapassa minha compreensão... Alguém escreveu essa insalubridade e sou obrigada a ler e pensar nessa baboseira...

O que sei de fato, é que a fila do supermercado ultrapassa qualquer compreensão possível. Assim que cheguei às compras percebi que o mundo vai acabar hoje! Se não comprar comida e bebida, agora, já, morrerei em seguida, logo mais à meia noite! Não terei forças para ultrapassar a barreira!

A fronteira entre o dia 31 e o dia primeiro, parece um “portal” onde a ultrapassagem é algo obrigatório, que acontece apenas uma vez, ou você ultrapassa, ou sucumbe!

As energias estão todas concentradas numa contagem regressiva, virá um ano novo, uma outra coisa, algo melhor, algo inatingível-atingível, algo sonhado-pesadelo, algo pulando ondas no mar, enfrentando filas nas estradas, querendo uma farmácia aberta para a dor de cabeça latejante, o posto de gasolina, a padaria, a televisão, a familia, seja o que for comerciável, vendível, comprável, pagável, funcionando! Please! Help! Anidisambare! Um orgasmo!?

Ficamos
 rezando para o dia 31 ultrapassar a barreira do tempo, ouvir que todos riem, ver que ficam com cara de bunda, e que no dia primeiro, empanturrados de carne e cachaça, de plin-plin da rede globo, de Roberto Carlos cantando mais do mesmo, da cor branca, da cor amarela, porque representa grana, fogos pipocando, e tantos sonhos e ideais, impostos e desejáveis, o ano novo (o mesmo ano do ano passado) chega incólume de novo, e sempre.

Na fila dos idosos no supermercado, dos 10 doloridos e encurvados à minha frente, consigo ouvir uma senhora dizer que colocamos a “bandida” no governo e por mais 4 anos não saberemos o que vai rolar... Ela se refere à Dilma Rousseff. Só “deus” sabe o que me controlo - como ele não existe, não sabe de nada -  nestas ocasiões para não responder à tamanha ignorância dos fatos.

Mas daí, vou entrar nestes problemas mundanos execráveis, então prefiro acreditar no meu mundo um pouco mais próximo à dignidade, à felicidade, à consciência que todos têm direito mas não têm.

Vamos nós também tomar uma bebida para amortecer a queda deste dia fatal, final, morredouro ...

E para não fugir à regra, sigo nesse ritual quase macabro, quase pornográfico, de consumo, (chegou a geladeira nova com IPI reduzido) 
restando desejar um feliz ano novo, porque felicidade é uma promessa anônima...

(Ada, 31/12/2014)

18/12/14

Bertold Brecht: Louvor do esquecimento

Maki Hino - Munecas de papel -  https://cuadernoderetazos.wordpress.com/tag/maki-hino/

Louvor do Esquecimento
(Bertold Brecht)



Bom é o esquecimento. 
Senão como é que 
O filho deixaria a mãe que o amamentou? 
Que lhe deu a força dos membros e 
O retém para os experimentar? 

Ou, como havia o discípulo de abandonar o mestre
Que lhe deu o saber?
Quando o saber está dado
O discípulo tem de se pôr a caminho.

Na velha casa
Entram os novos moradores.
Se os que a construíram ainda lá estivessem
A casa seria pequena demais.

O fogão aquece.
O oleiro que o fez, já ninguém o conhece.
O lavrador,
Não reconhece a broa de pão.

Como se levantaria, sem o esquecimento
Da noite que apaga os rastros, o homem de manhã?
Como é que o que foi espancado seis vezes
Se ergueria do chão à sétima
Para lavrar o pedregal,
para voar ao céu perigoso?

A fraqueza da memória dá
Fortaleza aos homens.

Bertold Brecht
Tradução de Paulo Quintela

O ano está ficando velho



O ano está ficando velho. E eu também. Loguinho ele se vai, levando as boas e as más lembranças para não ofuscar aquele que nasce, com novo brilho e novas esperanças. Ele se vai e a qualquer hora me leva também. Mesmo sendo o mesmo brilho e as mesmas esperanças de sempre, elas se fortalecem ao longo dos anos. Sempre, ou até o fim dos tempos, do pequeno infinito que é a minha vida finita. (Ada, 18/12/14)