“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

04/08/16

Milhares de minutos



Na Vila de São Vicente, onde aportaram os portugueses em 1502, a pequena e singela igreja Matriz, caiada de branco mostra em no seu pórtico a grafia 1757, mas seu esqueleto está alí erigido desde 1554 sobre sua própria ruina. Suas paredes, mesmo as que caíram, acumulam hálitos de milhares de suplicantes de graças e bênçãos e outros em menor quantidade de agradecimentos por alegrias alcançadas. O assoalho, mesmo os que nem existiam antes deste, tem as marcas de outros milhares de joelhos e pés, sulcado e envergado de tantas promessas. A saga de Jesus em pinturas emolduradas e penduradas na parede traz em ordem cronológica as marcas ocultas de milhares de olhares que alí se fixaram em sentimentos de compaixão e fé. Nesses 460 anos de missas, carmas, mantras, rezas, sermões, o odor doce de pinho rosa do madeirame e o acre do mofo levitam na penumbra que esconde santos milagreiros sob comando de São Vicente Martir o padroeiro, e piscantes velas elétricas – que a modernidade trouxe. No chão da nave se pisa em quatro lápides de ilustres cristãos ali enterrados nos tempos de descobertas do Brasil, e entre elas pode-se ler talhado num mármore, “aqui jaz um imnocente que nasceo em março de 1767 e falaceo em janeiro de 1768” – um bebê com 10 meses se sobrenome Vianna. Em apenas trinta minutos deste agosto de 2016, meu olhar, meu hálito, meus pés se juntaram a milhares de outrens que alí estiveram nesses exatos 462 anos... Acho emocionante! Deveria ser historiadora, ou quem sabe arqueóloga,

leituras:
https://pt.wikipedia.org/wiki/São_Vicente_(São_Paulo)
https://paulovictor.wordpress.com/2007/01/08/historia-de-sao-vicente/
http://www.youblisher.com/p/1486992-Jornal-Vicentino-2656/
http://www.citybrazil.com.br/sp/saovicente/atracoes-turisticas/atrativos-culturais/2
http://diariodemotocicleta.com.br/blog_da_expedicao_diario_de_motocicleta.asp?PK_BLOG=468&QL_MENU=Litoral

Carlos Drummond de Andrade - Elegia 1938

Carlos Drummond de Andrade  - Elegia 1938

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guardas chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.


( Carlos Drummond de Andrade )

25/04/16

Kit Porta Copos em crochê



Porta Copos -- Kit com 10 bolachinhas em crochê feita com a linha Barroco Mescla. A Caixinha para guardar os crochezinhos, foi feita em cartonagem e revestida todinha com chita. Uma rosa - que pode ser retirada para lavar -- fica coladinha no velcro decotrando a caixa -- Um luxo! Cara de Frida Kahlo -- #coisasdeada


09/03/16

Quantas Olgas estão adormecidas em nossas milhões de Marias?



8 de março de 2016

Enquanto escrevo, mulheres iguais a ti acordaram mais cedo. Talvez com aquela ansiedade que antecede as batalhas nem tenham tido tempo ou paciência para passar manteiga no pão ou batom nos lábios.


Andam apressadas, correm, “coração disparado”, pois hoje é o 8 de março. Para que este 8 de março novamente houvesse quanto trabalho foi preciso! Gerações e gerações mantiveram a jornada pela emancipação das mulheres. O mundo mudou bastante, muitos foram os avanços, mas ele permanece velho e arcaico. Persistem as iniquidades do capitalismo, e as mulheres – apesar das conquistas – seguem vítimas de atrocidades e preconceitos.

Desde que assinei a ficha de integrante do contingente de construção do mundo novo, passei a conhecer essas mulheres iguais a ti que – de um elevado de um teatro, ou de cima de uma cadeira ou de um caminhão, ou às vezes mais altas tão somente pelo salto alto das sandálias – argumentam com paciência, ou a impaciência de quem é alvo da surdez da sociedade (e muitas vezes dos(as) próprios(as) companheiros(as) e camaradas); nos sacodem com voz doce ou estridente; enfim, nos apresentam a verdade de que não haverá mundo novo se as mulheres continuarem vítimas de violências, preconceitos e discriminações.

Essas mulheres iguais a ti nos dizem que, sim, libertar o proletariado e a humanidade da opressão de classe com certeza é uma grande e bela obra. Mas essas guerreiras e princesas do porvir, essas mulheres iguais a ti, nos dizem que, todavia, nada será realmente belo se as mulheres continuarem sendo tratadas como na época das cavernas.

Em Goiânia, conheci um “abrigo de mulheres”, muros altos, soldados à porta, refugiadas com a prole à volta, privadas da liberdade, foragidas da violência de seus maridos, espancadas, queimadas, ali exiladas, pois se retornassem ao lar seriam vítimas de uma violência ainda maior.

Há uma gravura de um artista plástico judeu, Gershon Knispel, que retrata Olga Benário Prestes nos campos de concentração da Alemanha. Está altiva, mas pálida e triste... Dá vontade de pular para dentro da gravura para libertá-la, para que amamente Anita, para que alimente a luta.

Olga, bela, brava, culta, nos olhos o verde manso e doce das folhas de cana. O nazismo a considerava uma ameaçava. Ela atravessou o Atlântico a mando do amor e da luta de classes, mas a Gestapo tinha garras longas. Nem a largura do oceano foi o bastante para protegê-la. Foi entregue grávida à ditadura de Hitler para perecer num campo de concentração nazista. Esse talvez seja o crime que mais bem simbolize a violência política do Estado Novo.

Quantas Olgas estão adormecidas em nossas milhões de Marias? Um mundo novo, de fato, só poderá ser edificado se as mãos sensíveis e mágicas dessas milhões de Marias despertadas participarem de sua conquista e construção.

Adalberto Monteiro