“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

19/05/15

“Minhas tardes com Margueritte”

Foi um encontro discreto do afeto com o amor.
Ela não tinha outro teto.
Tinha nome de flor.
Vivia cercada de palavras,
adjetivos, substantivos, verbos e advérbios.
Alguns chegam sem jeito.
Ela chegou com doçura, quebrou minha armadura
e se alojou em meu peito.
Nas histórias de amor,
Não há apenas o amor.
Nunca dissemos “eu te amo”
No entanto, nos amamos.
Não é uma história comum.
Ela leu para mim num banco de jardim...
Era frágil como uma pomba
Sentada àquela sombra
Cercada de palavra, de nomes comuns como eu.
Me deu muitos livros
Que me tornaram mais vivo.
Não morra agora!
Espere um pouco!
Não é hora, doce senhora!
Me dê um pouco mais ainda
Um pouco mais de sua vida!
Espere!
Nas histórias de amor
Não há apenas o amor.
Nunca dissemos “eu te amo”
No entando, nos amamos...

(Do filme “Minhas tardes com Margueritte” com Gerard Depardieu)




Ariano Suassuna

“Em arte, a gente não quer astúcias intelectuais, mas vida pulsando, embora sem saber como pulsa e por que pulsa.” 

(Rachel de Queiróz, na introdução do livro “A pedra do reino”, de Ariano Suassuna)


10/05/15

O que é Mãe

Um campo de lavanda.
Imagino o perfume que ali exala,
As abelhas e afetos que adoçam o ar,
As raízes que fincam amor à terra,
E a cor lilás profunda na retina
que faz inveja ao mar...
Acho que isso traduz o que é Mãe.

(Ada, 10/5/15)



07/05/15

Inverno

O frio está chegando.
Ele vem quieto e ameaçador.
O entardecer deste dia de outono
prenuncia esse frio
Com o silêncio de pássaros e besouros,
Com a ausência de cigarras e grilos,
Com a vaga lembrança dos latidos e sirenes.
O silêncio ensurdecedor das coisas todas,
É quebrado apenas pela correnteza gelada
Que vem lá do fim da rua,
Que vem lá dos fios e dos postes,
Que vem lá das nuvens cinzas e sóbrias.
O silêncio de folhas mortas de cor amarela,
É quebrado pela voz de alguém
Dando noticia na tevê que o frio está chegando...

(Ada, 7/5/15)











Fotos de Ada, Guarulhos-SP, neste outono de 2015

06/05/15

Classe média, papagaio de todo telejornal...

O nome da canção é “Classe Média”. Foi composta em 2005 por um artista natural de São José dos Campos, interior de São Paulo, chamado Max Gonzaga. Apesar de ser em 2005, ela permanece atualíssima em 2015. Nesses dez anos, nunca ouvi essa música no rádio, na TV, no programa do Faustão, no Altas Horas, No Caldeirão do Hulk, na Eliana, no Gugu... e você?

Sou classe média.
Papagaio de todo telejornal
Eu acredito
Na imparcialidade da revista semanal (...)


Mas eu "tô nem aí"
Se o traficante é quem manda na favela
Eu não "tô nem aqui"
Se morre gente ou tem enchente em Itaquera
Eu quero é que se exploda a periferia toda (...)


Mas se o assalto é em "Moema"
O assassinato é no "Jardins"
E a filha do executivo
É estuprada até o fim


Aí a mídia manifesta
A sua opinião regressa
De implantar pena de morte
Ou reduzir a idade penal (...)


E eu que sou bem informado
Concordo e faço passeata
Enquanto aumento a audiência
E a tiragem do jornal ( ....)


Toda tragédia só me importa
Quando bate em minha porta
Porque é mais fácil condenar
Quem já cumpre pena de vida”