“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

15/10/2017

Literatura de janela

Paint By Alyssa Monks

Uma tempestade despenca
O vapor da boca prepara imediatamente a vidraça
Embaçando o vidro para que um nome seja escrito.

Nas primeiras experiências, lá na infância
escreve-se o próprio nome
Mais tarde, escreve-se um beijo
                            [estudos do formato da boca]
e nas próximas tempestades, desenha-se corações.

Em breve serão outros nomes,
suspiros e outros sonhos.
Com o passar dos tempos se desvelam
Uma verdadeira literatura de janela surge
É só baforar novamente o vidro
que as palavras se revelam...

Ada

15//10/17

Maiakovsky: O poeta Operario


Grita-se ao poeta:
“Queria te ver numa fábrica!
O quê? Versos? Pura bobagem!
Para trabalhar não tens coragem”.
Talvez
ninguém como nós
ponha tanto coração
no trabalho.
Eu sou numa fábrica.
E se chaminés
me faltam
talvez
sem chaminés
seja preciso
ainda mais coragem.
Sei.
Frases vazias não agradam
Quando serrais madeira
é para fazer lenha.
E nós que somos
senão entalhadores a esculpir
a tora da cabeça humana?
Certamente que a pesca
é coisa respeitável.
Atira-se a rede e quem sabe?
Pega-se um esturjão!
Mas o trabalho do poeta
é muito mais difícil.
Pescamos gente viva e não peixes.
Penoso é trabalhar nos altos-fornos
onde se tempera o ferro em brasa.
Mas pode alguém
acusar-nos de ociosos?
Nós polimos as almas
com a lixa do verso.
Quem vale mais:
o poeta ou o técnico
que produz comodidades?
Ambos!
Os corações também são motores.
A alma é poderosa força motriz.
Somos iguais.
Camaradas dentro da massa operária.
Proletários do corpo e do espírito.
Somente unidos,
somente juntos recomeçaremos o mundo,
fá-lo-emos marchar num ritmo célere.
Diante da vaga de palavras.
levantemos um dique!
Mãos à obra!
O trabalho é vivo e novo!
Com os oradores vazios, fora!
Moinho com eles!
Com a água de seus discursos
que façam mover-se a mó!

Mayakovsky

Clarice Lispector: Perdoando Deus

"Enquanto eu inventar Deus, ele não existe..."



13/10/2017

Mario Quintana: perdoado

Naquele dia, 
fazia um azul tão límpido, 
meu Deus, 
que eu me sentia perdoado para sempre. 
Nem sei de quê.

(Mario Quintana)

Pablo Neruda: pescar luz

Se cada dia cai,
dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.

há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.

(Pablo Neruda)