“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

27/05/2017

Guilherme de Almeida: Barcos de papel



Quando a chuva cessava e um vento fino
franzia a tarde tímida e lavada,
eu saía a brincar, pela calçada,
nos meus tempos felizes de menino.
Fazia, de papel, toda uma armada;
e, estendendo meu braço pequenino,
eu soltava os barquinhos, sem destino,
ao longo das sarjetas, na enxurrada…

Fiquei moço, e hoje sei, pensando neles,
que não são barcos de ouro os meus ideais:
são feitos de papel como aqueles,

perfeitamente, exatamente iguais…
— Que os meus barquinhos, lá se foram eles!
Foram-se embora e não voltaram mais!

Guilherme de Almeida

25/05/2017

Mario Quintana: Barcos de papel



Eu escrevi um poema triste
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti esta tristeza
Mas das mudanças do tempo.
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza...
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel...
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves...
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!

Mario Quintana. Antologia Poética.

24/05/2017

O gueto - por Fernando Brito

João Agripino da Costa Doria Junior
Faltam, é verdade, as cruzes de ferro, as gamadas, os dois relâmpagos à gola, a Luger, os quepes ornados pela águia.

Nem é Varsóvia, é São Paulo.

Mas da imagem emana o gueto, os restos miseráveis dos quais vivem os párias, os anti-sociais, as desgraças da Cidade Linda.

Nem mesmo na foto aparecem, de tão à margem que estão. Só os despojos de lixo de suas vidas no lixo aparecem, já com os garis prontos a remove-los e leva-los para tão longe quanto eles serão levados.

Do olhar frio e impiedoso, dardejam os raios da purificação: que os levem a Auschwitz, Sobibór, Treblinka, Lublin…

Lá, vão aprender que Arbeit match frei, o trabalho liberta, e vão andar como zumbis esfregando o chão das empresas que colaboram com a eugenia, esquálidos, olhando para o chão, recolhendo-se aos cantos para tremer sua doença.

A sociedade bem-posta – inclusive alguns que têm os avós e bisavós com os braços marcados a ferro em brasa – o aplaudirá. É muito, até, para estes animais, que nos emporcalhavam e assustavam.

Afinal, o que define a humanidade é a produtividade – como nas vacas leiteiras, a quantidade de leite que produzem – e não a vaga semelhança que tem com meu corpo bem cuidado, nem a que seus trapos possam ter com meu cashmere.

Tampouco ser humano é sublimar sua condição e sentir um desejo imenso, incontido, de aproximar-se do que parece ser semelhante, mesmo que brusco e arisco pelo que o mundo e a droga o tornaram, como avaro e cobiçoso fizeram aos judeus, o vagar, sempre tangidos, por dois milênios pelo mundo.

Quem manda não terem prazer senão o delírio e a nóia, em lugar do iate, do jato, dos luxos?

São Paulo precisa de seu lebensraum, de seu espaço vital, onde não cabem almas que não sejam arianas, mesmo que de pele tostada, feito aquele clown que arranjaram.

Nele, só podem ser admitidos os craques se estes fizerem brilhar os Jardins.

Não os que comem restos com as mãos, ávidos, famintos.

Só os que têm o Caviar Lifestyle.

23/05/2017

Antonio Hélio: Mora em mim tudo o que não consigo ser




Cada pessoa é um lugar
Que habitamos,
Que nunca vamos achar.
Ilha, continente, subúrbio, fazenda.
Tem gente que se faz de casebre,
Tem gente que é palácio,
Mas só parece.
Todo mundo quer mesmo,
É ter ocupação, inquilino, morador e visitante.
A gente só vive quando no outro existe,
Fora disso é tudo solidão, sono e tolice.
Mora em mim tudo o que não consigo ser.

Antonio Hélio Siqueira


03/05/2017

Belchior, importante é o bem que se faz!

Entre tantas lindas homenagens e depoimentos prestados a Belchior neste dia de sua morte (30 de abril de 2017), há aquelas que maldizem e buscam os defeitos e erros cometidos por ele. Li artigos aterradores, mas ninguém melhor que Belchior para saber que o mundo humano é assim mesmo, cruel sempre, na vida e na morte. E diante da frase "errar é humano" eu registro a você, Belchior, que o importante é o bem que se faz. Obrigada por tanta poesia linda e significativa! Fica bem!