“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

28/08/14

Um gosto de sol


“Um gosto de sol” dá enjoo, dá a lembrança do enjoo.
De ter na barriga a filha amada crescendo
um cheiro de sabonete Gessy
salivando a pasta-de-dente
“Lembram o riso que eu tinha
E esqueci entre os dentes”
um gosto de sol ao amanhecer...

“Um gosto de sol” dá saudade, dá a lembrança da saudade.
De ter no peito um sonho ensolarado crescendo
“lembram os sonhos que eu tinha
e esqueci sobre a mesa,
como uma pera se esquece
dormindo numa fruteira...”

Lá naquele tempo tão jovem que passou
Onde começaram todos os sonhos
De construir um mundo melhor
que nunca envelheceram, nem nunca acabou...


(Ada, 28/8/14)

Inspirada na audição Um gosto de sol, de Milton Nascimento, que em 1977 ouvia compulsivamente...


Um gosto de Sol by Milton Nascimento on Grooveshark

27/08/14

Delicadeza que flui...

O Koto é um instrumento musical de cordas dedilhadas, composto de uma caixa de ressonância com diversas cordas, semelhante a uma grande cítara. Atualmente é o mais popular dentre os instrumentos musicais tradicionais japoneses. Tanto quanto piano ou violino, meninas em idade escolar aprendem o koto. Essa música do Engenheiros do Hawaii ficou especialmente linda tocada no Koto, e a voz de Tsubara Imamura fechou com chave de ouro. É delicadeza que flui...




Pra ser sincero
Engenheiros do Hawaii
(por Tsubasa Imamura) 

Pra ser sincero eu não espero de você
Mais do que educação,
Beijo sem paixão,
Crime sem castigo,
Aperto de mãos,
Apenas bons amigos...

Pra ser sincero eu não espero que você
Minta
Não se sinta capaz de enganar
Quem não engana a si mesmo

Nós dois temos os mesmos defeitos
Sabemos tudo a nosso respeito
Somos suspeitos de um crime perfeito,
Mas crimes perfeitos não deixam suspeitos.

Pra ser sincero eu não espero de você
Mais do que educação,
Beijo sem paixão,
Crimes sem castigo,
Aperto de mãos,
Ainda bons amigos...

Pra ser sincero não espero que você
Me perdoe
Por ter perdido a calma
Por ter vendido a alma ao diabo

Um dia desses
Num desses encontros casuais
Talvez a gente se encontre
Talvez a gente encontre explicação

Um dia desses
Num desses encontros casuais
Talvez eu diga, minha amiga,
Pra ser sincero, prazer em vê-la
Até mais...

Nós dois temos os mesmos defeitos
Sabemos tudo a nosso respeito
Somos suspeitos de um crime perfeito
Mas crimes perfeitos não deixam suspeitos.

25/08/14

Túnel do tempo com Macalé

Nem consigo lembrar cenas, cheiros
e rostos, do meu.
Apenas reviravolta no estômago e
um suspiro fundo, lento.

Bateu nostalgia.
Sentimentos perdidos no tempo
angustias da juventude
amor puro, pura poesia.

Lá vou eu pro túnel do tempo com Macalé... até 1974.

(Ada 25/8/14)



Movimento Dos Barcos
Jards Macalé

Tô cansado
E você também
Vou sair sem abrir a porta
E não voltar nunca mais

Desculpe a paz que eu lhe roubei
E o futuro esperado que eu não dei
É impossível levar um barco sem temporais
E suportar a vida como um momento além do cais

Que passa ao largo
Do nosso corpo
Não quero ficar dando adeus
Às coisas passando, eu quero
É passar com elas, eu quero
E não deixar nada mais do que as cinzas de um cigarro
E a marca de um abraço no seu corpo

Não, não sou eu quem vai ficar no porto chorando, não
Lamentando o eterno movimento
Movimento dos barcos, movimento.

18/08/14

Lila Ripoll: Primeiro colocado ao prêmio 2014

In foco
Carlos Alberto de Assis Cavalcanti


Um jornal cobre o corpo inerte
estirado na calçada de uma rua;
curiosos formam um círculo
em volta daquele corpo
embrulhado em notícias também mortas;
o jornal é de ontem e o morto não tem amanhã;
ambos jazem hoje,
sob o efeito de furos distintos:
um, jornalístico; outro, balístico.
No dia seguinte, o extinto
vira notícia na página policial
até que outros furos
sejam dados no jornal
por cobertura.

***

Esse poema é o 1º colocado do prêmio Lila Ripoll de poesias, em 2014. 
O Prêmio contou com 582 trabalhos inscritos, que foram avaliados durante 30 dias por rigorosa comissão julgadora e elegeu como grande vencedor o Professor da Carlos Alberto Cavalcanti.  O Prêmio Literário foi instituído pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul,  em 2004, e tem como objetivo estimular a criação literária e divulgar novos talentos. A temática envolve as causas sociais e questões do gênero.

Poesias Vencedoras do Prêmio Lila Ripoll 2014

1° Lugar - “In Foco”
Autor: Carlos Alberto de Assis Cavalcanti – Arcoverde / PE

2° Lugar - “O Visitante”
Autor: João Elias Antunes de Oliveira – Taguatinga / DF

3° Lugar - “Pai de Família (?)”
Autora: Dora Oliveira – Ipatinga / MG

Menções Honrosas

“A Possibilidade da Avenida” – Autor: André Telucazu Kondo – Jundiaí / SP
“Atropelamento” - Autora: Evanise Gonçalves Bossle – Tramandaí / RS
“Batendo em Retirada” – Autora: Sandra Meyer Silvestre – Criciúma / SC
“Déjà vu” - Autor: Cláudio Luís Wolf – Canoas / RS
“Meu Monstro” - Autora: Júlia Nunes Azzi – São Jerônimo / RS
“O Crack e o Menino” – Autor: Alberto José de Araújo – Rio de Janeiro / RJ
“Perguntas do Tempo” – Autora: Cinara Ferreira Pavani – Porto Alegre / RS
“Soneto do Operário” - André Luís Soares – Guarapari / ES
“Sócio” – Autor: Adilson Roberto Gonçalves – Campinas / SP
“Vertente” – Autor: Paulo Sérgio Barros – Porto Alegre / RS

15/08/14

Rainer Maria Rilke : Solidão

Solidão

A solidão é como uma chuva.
Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.
Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:
então, a solidão vai com os rios…

Rainer Maria Rilke