5 de fevereiro de 2010

Pena de [do] beija-flor

Um beija-flor entrou por engano na área de serviço e imediatamente os gatos alardearam com seus miados trêmulos de excitação para sorte do passarinho, pois que chamaram minha atenção.  Expulsei-os todos, junto com seus bigodes e garras em riste prontos para o bote. Mas beija-flor é tão frágil, tão ágil, que dá medo na mão da gente. O pobrezinho se debatia pelas paredes sem perceber onde ficava a janela, o espaço, a liberdade. Nada podia fazer, ele repousava no mais alto do varal de roupas. Deixei-o só, quem sabe descobrisse o caminho do céu. Mas nada, ele estava com seu bico aberto, estressado, cansado. Depois de alguns minutos, a eternidade para ele, deixou-se pousar no chão, exausto. Não assustou-se com minha mão, a mais leve que consegui ter, e parecia entregue ao seja-o-que-deus-quiser. Patinhas encolhidas - sinal de fraqueza -, peito ofegante, olhos arregalados. Pensei, vai morrer, não creio! Acariciei sua minúscula cabeça com a ponta do dedo que mais que isso seria insulto. Ele não ofereceu resistência, sei que compreendeu meu amor, mesmo assustado. Levei-o até a janela, mostrei-lhe que havia o mundo para ele conquistar, mas ele não reagia, para meu pesar. Insisti. Virei-o de frente para as árvores e, como sua mãe o fez certamente um dia, incentivei-o de que era possível alçar voos, finitos mas inebriantes, velozes e fundamentais para um beija-flor. Vá! Retire o néctar das flores! Compreendeu minha proteção e ressucitou suas e minhas esperanças e foi, e voou, e subiu bem alto carregando meu suspiro de alívio. Viva! Viveu, mas deixou duas penas para a minha pena.

(binga, chupa-flor, chupa-mel, colibri, cuitelinho, cuitelo, guainumbi, guanambi, guanumbi, guinumbi, pica-flor).

2 de fevereiro de 2010

O coração de São Paulo


Poeta Miró - Ataque Cardíaco from Pedro Bayeux on Vimeo.

"Dizem que a Paulista é o coração de São Paulo
Dizem que a Paulista é o coração de São Paulo!
Eu digo que é um ataque cardíaco."

Miró da Muribeca

Nasceu em Recife, no bairro da Encruzilhada, morador da Muribeca, escreve desde 1985, tem 7 livros lançados por este Brasil afora: Que descobriu azul anil (1985), Ilusão de ética (1993), Entrando pra fora e saindo pra dentro (1995), Quebra a direita segue a esquerda e vai em frente (1997), São Paulo eu te amo mesmo andando de ônibus (2001), Poemas pra sentir tesão ou não (2002), Pra não dizer que não falei de flúor (2004) e recitais por todas as esquinas.

27 de janeiro de 2010

Coisas agradáveis do acaso


("Paris pela janela", de Chagall - 1913)

Por acaso abri a página do segundo caderno d´O Globo e me deparei com a imagem acima. É um óleo sobre tela e, claro, o gato me atraiu imediatamente. Descobri algumas identidades com o cara que o pintou. O cara é Marc Chagall: nasceu em 7 de julho de 1887, canceriano como eu, na Rússia, que tem uma história social e política interessante e gostava de gatos e o gato amarelo da janela tem cara de gente, porque os gatos de apartamento de cidade grande estão humanizados, pode-se ouvi-lo falar da janela que a noite está agitada, idem aos meus; artista sensivel, pintor, ceramista, gravurista. Imagine a casa do cara cheirando a terebentina, que delícia! E vislumbrava Paris como eu a Sampa, pela janela, ou não. Pertenceu ao Movimento literário surrealista que era influenciado pelas teorias psicanalíticas de Sigmund Freud e enfatizava o papel do inconsciente na atividade criativa. Depois da grande revolução socialista na Rússia, que pôs fim ao regime autoritário czarista, foi nomeado comissário para as belas-artes, tendo inaugurado uma escola de arte, aberta a quaisquer tendências modernistas. Marc Chagall (na verdade o nome dele era impronunciável, Moishe Zakharovich Shagalov e que deve significar a mesma coisa). Faleceu em Saint-Paul-de-Vence, no sul da França, em 1985 com 97 anos, longa vida! Ele próprio era um gato. Tem muita história pra contar neste meio tempo em que viveu, mas dai, deixo prá você pesquisar.

23 de janeiro de 2010

Mar preto prata


Pedaço do mar de São Vicente, visto do 13° andar, em 2010.

Caillou em férias

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Caillou em férias

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Como pode um peixe vivo viver fora d´água fria

No rádio, o locutor anuncia abismado: encontraram até peixe no túnel alagado. Pobre peixe! Pior que isso, conclui que algum gaiato jogou o peixe por gozação. Que confusão. Que miscelânia. Tudo anda na contramão. As chuvas não têm onde escoar e nem no peixe vivo se consegue acreditar. Cortaram todas as árvores, meteram cimento na terra, os rios sufocam debaixo do asfalto, nunca o vimos, nem seu nome sabemos o lixo apodrece sob nossos pés. São Paulo querida, não tens culpa de ser caótica cidade. Não cuidam de ti. A natureza é morta e não é numa tela de Paul Cézanne.


Oscar Rabin, Natureza Morta com Peixe e Pravda

7 de janeiro de 2010

Ainda sobre a Baia de São Vicente

Ela resiste, apesar dos pesares. Agora real e ainda deslumbrante aos meus olhos que reluzem luz em água preta. Lisa e viscosa estica-se até o asfalto e se espreguiça com jeito antigo, nunca perene. Meus olhos ainda se perdem em ti como antes [quando esmeralda límpida] e se perderão no seu vir a ser, em marés com hora marcada e em correntezas que levam fantasmas de seus afogados. Lânguidos de calor e trêmulos feito a Bandeira do Brasil no alto do morro, meus olhos evaporam o verde hálito de suas escassas árvores ao amanhecer. A bandeira majestosa dá ordens aos navegantes de outrora que cruzaram os mangues e aos poetas que se entregam a todo encanto [e ao seu] mesmo rude. Ignoro os gritos das suas calçadas calejadas. Diante de ti perco e recupero forças num ciclo. Pois que tu vens resistindo em sua história, com outras cores e peixes e eu em outros risos e sentidos.


http://coisasdeada.blogspot.com/2009/12/na-baia-de-sao-vicente.html

O pássaro amarelo ainda é seguro de sí

É quando meu corpo, assim cansado e alquebrado, se deita em repouso e não consegue se livrar do relógio e das chaminés em produção; e os ouvidos se perdem nos motores ruidosos nas ruas concretas e ruídas, que o pequeno pássaro [talvez amarelo] mostra seu poder trinando canções de sossego. Ele, assim frágil, é mais forte que o poder dos homens e seu capital.

Enquanto todos partem...

São sons do ir. O avião ronca invisível lá no alto e segue rumo ao norte, quem sabe ao sul, não importa, ele parte. Um som longo, até que encontre a barreira de uma nuvem e então, silencia. Cá fiquei e posso ouvir. Outro motor ronca na estrada ecoando finitamente até que se perca n´alguma curva. E na rua, logo ali ao lado, partem mais sons do ir, em outros roncos mecânicos que em ondas se vão. Todos eles se revezam partindo, enquanto fico a ouvir. São sons que me entristecem, mais que os pingos de chuva solidários [que batucam meu coração no telhado]. São sons que partem meu coração. Não porque partem, mas porque partem sem mim...

Palavra de ordem

Alguém só coração deveria estar banido da vida na Terra, há uma lei da natureza que diz o mais forte sobreviverá. Como pode alguém só coração perpetuar sua espécie? Frágil, cheio de lágrimas e palpitações, não cabe neste mundo. Nasce dele sentimentos extintos, ímpares. Esta espécie é lembrada apenas pela forma boba de ser. Abaixo o coração, insistente em sentir!

27 de dezembro de 2009

Diálogos com Clarice

Curiosa, saí buscando Clarice Lispector com olhar mais atento e no “aprendendo a viver”, venho debatendo o seu e o meu viver, enquanto vou e volto no metro todos os dias. Viajamos juntas pelas veredas do pensamento. Hoje, porém, meu ânimo não está para a loucura e a lucidez em que ela viaja e inevitavelmente me carrega consigo. Não me concentro no diálogo que tenho tido com ela. Se estivéssemos sentadas, lado a lado, penso que seríamos amigas, afinal os devaneios dela se embrenham nos meus. Suas divagações dão as mãos às minhas e assim caminhamos juntas numa jornada de afinidades, em tempos diferentes. Ela se repete através dos meus batimentos cardíacos e das minhas pupilas dilatadas com a luz artificial dentro do túnel e olho o que ela olha e sinto o que ela sente. Clarice ouça, hoje chove copiosamente na cidade depois de quarenta e cinco dias de seca que me deixaram alergicamente atacada. Meu mal estar não permite dialogar contigo hoje. É que você me instiga a pensar em você, eu sei, temos muito que aprender a viver, mas quero apenas me perder em mim. 

18 de dezembro de 2009

(parêntesis)

Fim do dia. Faltam apenas duas horas para se acabar e o metro carrega duas dúzias de pessoas. Na Liberdade, entra uma japonesa idosa, feliz em levar um maço intrigantemente verde de cebolinhas frescas e eretas. Senti o sabor do missoshiro que ela fará daqui a pouco, o caldinho que leva cebolinhas picadas, coisa de orientais.


Senta-se no banco azul, destinado a ela, e indignada pede ao moleque para tirar os pés do assento. Essa nova mania da molecada rende bancos sujos e descascados, assim como repreensões do condutor do trem que pelo alto falante insiste em propagandear civilidade nos intervalos entre uma e outra estação.


O moleque desata a rir quando o homem que o acompanha balbucia qualquer palavra vã. E deliberadamente recoloca os pés, que antes havia tirado num susto, provocando a ira da senhora. Ela pede mais energicamente e decidida, por favor, tire os pés do banco! O moleque os tira, novamente, rindo em desrespeito acintoso enquanto o homem deixa bem claro, a senhora é mal resolvida.


"Qual o que, o senhor deve ser muito bem resolvido, a despeito de sua aparência e desacato! O senhor é um Rei muito bem resolvido..." e mais outras destempéries que não consigo ouvir entre os trancos dos trilhos febris. Um desatino.


Trégua.


Ela desce cinco minutos depois, na Conceição, com seu maço de cebolinhas prestes a murchar de tanta má educação e atrevimento. Enquanto o moleque, rindo feito iena - que me perdoe a iena deve ter razões naturais - e solene sobre seus míseros 15 anos, sob um boné, volta deliberadamente a colocar os pés no banco como se a senhora fosse de outro mundo. Decerto que sim!

Fico eu, acrescentando a minha indignação à dela. Foi um parêntesis - mais um - nesta grande saga que é viver em Sampa.

15 de dezembro de 2009

Na Baia de São Vicente

Na mordaça do sono que se esgota com a manhã, em vigília, em torpor, percorro num vôo lúcido a superfície daquele mar preto. Seu brilho metálico esconde pensamentos de outrora. Não só os meus. Quais seriam não importa, há um cansaço nas horas. O peixe que reluta oxigênio e lodo não difere de mim aqui, estatelada nesta cama. Posso ver, como se o visse da janela que dá para a baia de São Vicente. Acontece todos os anos. Mergulho ao seu encalço para provar que a vida segue. Os pensamentos se repetem diferentes em tudo tão igual. Estamos lá [o peixe e eu] sugando as horas infindas que nos restam, enquanto o Mundo seguirá à nossa revelia. Na Baia de São Vicente.




(fotos da Baia de São Vicente)

10 de dezembro de 2009

De mãe para filho

Mano, olhando para o dedão do meu pé direito, assim torto, me lembrei do chute que te dei e que acertou em cheio a parede. Doeu tanto, que entrei em desespero e você aproveitou a baixa e fugiu do meu bofetão que zanzava diante de seu rosto, sem nunca te alcançar. De vez em quando a gente brigava e nem lembro dos motivos. Coisas da convivência entre irmãos, ainda mais de gêneros e gênios diferentes.


Mano, agora você olha bem para seu pé esquerdo e confere se há uma cicatriz, mesmo que remota, sobre o peito do pé. Esta cicatriz era um corte feito pela travessa pirex da macorronada de domingo. Neste domingo, pelo menos, consegui fazer com que você enxugasse a louça do almoço, tarefa que era exclusivamente minha, por ser mulher. Você me decepcionou deixando-a cair, e ainda mais sobre seu pé, abrindo-o em dois e entregando-me à mãe com seus berros de dor.


Acho que é desta época que nasceu em mim o desejo de igualdade entre os gêneros. Nunca me conformei em ter de fazer as tarefas domésticas, enquanto você ia para a rua brincar. "Homem não tem que lavar louça! Você é a culpada dele ter se machucado" e saiu atarantada a te socorrer.


Não me convenci com esta máxima da mãe que antes foi da vó, e antes um pouco mais da bisa, mas não me lembro de ter te obrigado a me ajudar nas tarefas domésticas dali para a frente. Afinal, nascer homem é um privilégio. E hoje, quando a mãe reclama que você não ajuda em nada, eu posso retribuir com aquele passado, "homem não tem que lavar louça!".

Hoje é dia dos direitos humanos, há o que comemorar?

1948 - Dia dos direitos humanos  - A ONU proclama a Declaração Universal dos Direitos do Homem, inclusive o direito à rebelião contra a tirania. Mas também é Dia Internacional dos Direitos Animais. E não há contradição nisso.

"Todos os animais têm o direito à vida e à liberdade, livres da exploração humana. Ao tomarmos suas vidas para servirem aos interesses da nossa espécie, confinando-os e privando-os de todas as suas necessidades, desde as mais básicas, estamos destruindo não somente as suas vidas, mas também a nossa própria possibilidade de sobrevivência nesse planeta".

Leia aqui sobre manifestação em São Paulo, às vésperas do Encontro de Copenhague. Eles divulgam o relatório "A Grande Sombra da Pecuária", feito pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO/ONU), que relata que o gado é responsável por cerca de 18% do aquecimento global, uma contribuição maior que a do setor de transportes, de cerca de 15%.  Mais um motivo para deixarmos de consumir carne.

Porém, a grande responsabilidade sobre a emissão dos gazes destruidores da Terra, os hábitos humanos ou o modo de produção que visa lucrar acima de tudo, deve ser creditada ao capitalismo, gerador desta destruição. Ou acabamos com o capitalismo, ou o capitalismo acabará com a humanidade.

Prova disto, foi o vergonhoso acordo entre os dois ricaços lá em Copenhague: EUA e Dinamarca (a mesma que permite que as Ilhas Faroe em seu território cometam aquela barbaridade aqui denunciada contra os golfinhos) onde eles podem continuar poluindo o mundo e apesar dos discursos (para ingles ver) nada dispostos a salvar o planeta. Apenas para confirmar que só com acordos será muito dificil progredir.

(matança de golfinhos na Dinamarca leia aqui e aqui e debate sobre o aquecimento global aqui)

9 de dezembro de 2009

Poema de Marta Eugênia: Figueira seca

O jornal denuncia as imagens
de um mundo cheio de ofensas.
A vida tosse, tosse dando avisos de si.
Eu busco mesmo o gozo de um gesto novo,
de uma inédita aparição!
Mas Deus põe minhas mãos tão mudas...
Nenhum verso, nenhum outono em palavras.
O cesto é sem frutas e sujo do nada.
E eu que já realizei infâncias fascinantes
nos caramujos, nas formigas
nos pequenos voadores, nos atalhos pro riacho,
não consigo cometer um verso.
Não fiz trato com ninguém
e o silêncio da rua umedecida
também repousa em meus dedos.


Quem decide o tamanho das coisas?


A varanda me decide um pensamento
que não serve pra ninguém.
E a página do meu dia querendo estar limpa
como as árvores do fim da rua
se encontrando com a garoa.
Mas despejo o meu olhar inteiro sobre a rua
e colho quieta o semáforo em vermelho.


Marta Eugênia é Professora de Língua Portuguesa, especialista em linguística na cidade de Arapiraca - AL. Escreve há algum tempo e tem alguns poemas espalhados pela cidade, como por exemplo no "Memorial da Mulher".

4 de dezembro de 2009

Aprenda a fazer mímica

27 de novembro de 2009

Que saco!

Que saco! Não me lembro das palavras que pensei escrever, enquanto descia as escadas rolantes no metro República! Vinha chateada, olhando firme para meus botões e estava determinada a avaliar meus sentimentos nestes dias de cão, intermitentemente me mordendo as ideias...

Eram palavras que diziam que as pessoas sempre nos decepcionam e, diziam também que não entendo o porque ainda fico admirada com isto. Já era para estar escaldada nas relações inter-humanas.

Sei que os cães também se afinam, ou não, nas relações intercães. E logo de cara, eles já mostram os dentes e grunhem para aquele que não será seu amigo. E pronto! Eu queria ser um cão, daqueles traiçoeiros, que não mandam recados e agarram a jugular até esguichar sangue.

Mas, que saco! Esqueci as palavras que pensei escrever...

22 de novembro de 2009

Carta de Rosa Luxemburg à Sonia Liebknecht escrita da prisão

"Como é estranho eu viver sempre numa alegre embriaguês, sem razão particular. Assim, por exemplo, aqui estou deitada, nesta cela escura, num colchão duro como pedra, enquanto à minha volta, no edifício, reina a habitual paz de cemitério; acreditar-se-ia estar no túmulo; através da janela desenha-se no teto o reflexo do bico de gás ardendo a noite inteira diante, da prisão. De tempos em tempos ouve-se o barulho surdo de um trem que passa ao longe ou então, bem perto, sob as minhas janelas, o pigarro da sentinela que, com suas botas pesadas, dá alguns passos lentos para desentorpecer as pernas. A areia estala tão sem esperança sob esses passos, que todo o vazio e a falta de perspectivas da existência ressoam na noite úmida e sombria. E aqui estou eu deitada, quieta, sozinha, enrolada nos véus negros das trevas, do tédio, da falta de liberdade, do inverno - e, apesar disso, meu coração bate com uma alegria interior desconhecida, incompreensível, como se, sob um sol radiante, estivesse atravessando um prado em flor. No escuro, sorrio à vida, como se eu conhecesse algum segredo mágico que pune todo o mal e as tristes mentiras, transformando-os em luz intensa e em felicidade. E, ao mesmo tempo, procuro uma razão para esta alegria, não encontro nada, e tenho que sorrir novamente - de mim mesma. Acredito que o segredo não é outro senão a própria vida; a profunda escuridão noturna é bela e suave como veludo, basta somente saber olhar. No estalar da areia úmida sob os passos lentos, pesados da sentinela canta também uma bela, uma pequena canção da vida - basta apenas saber ouvir." (Rosa, dezembro de 1919)
 * Rosa Luxemburg, em polaco Róża Luksemburg - nasceu em Zamość, 5 de março de 1871 e morreu em Berlim, 15 de janeiro de 1919, com 48 anos, assassinada pelo exército alemão. Foi uma filósofa marxista e militante revolucionária polaca-alemã que ajudou a fundar o Partido Comunista da Alemanha (KPD). Dentre as barbaridades cometidas pelo homem, está o assassinato de Rosa Luxemburg: ler aqui

20 de novembro de 2009

O canto da cigarra

Um canto de amor e outro de guerra

Nesta manhã calorenta, uma cigarra canta ao longe. Duas, três, chamando as fêmeas para o acasalamento. Concorre com elas o serralheiro da rua de baixo. São gritos estridentes, semelhantes. Elas afinam o gogó pois a competição é acirrada. Um corta o ferro daqui e a outra trepida a garganta de lá, caprichando na resposta. Há uma guerra declarada. A cigarra canta livre o amor e o homem responde com ferro e fogo, aprisionando-se nas suas propriedades.

19 de novembro de 2009

Haicai para a Lua caquinho

Caquinho de Lua
Sorri pra mim lá do céu
retribuo daqui


 
 
A métrica ideal do haicai é a seguinte:

5 sílabas no primeiro verso, 7 no segundo e 5 no terceiro. Soletre e conte nas sílabas tônicas. Não precisa ser rígido. Só não ultrapasse muito as 17 sílabas, nem para mais, nem para menos.

Existe quem contemple a Lua e faça Haicais para ela:
http://www.kakinet.com/lua/

18 de novembro de 2009

Muvuca do centro de Sampa

A melhor descrição sobre a muvuca que é o centrão de Sampa, li hoje no livro de Jeosafá Fernandes Gonçalves, em "Era uma vez no meu bairro". "Homens sanduiches, batedores de carteira, bancários, trombadinhas, trombadões, office-boys de montão, michês, triciclos, churrasco grego, José Lewgoy na porta do Orhon Palace, vendedores de carnês do Baú, cabeludos andando e fumando maconha na cara dura, bolivianos tocando flautas de bambu, homem da cobra vendendo óleo do peixe elétrico, velhos com plaquinhas de compra-se e vende-se ouro e prata, vagabundos largados dormindo por todo o canto, bebuns para todo lado antes da hora do almoço, camelôs às pencas vendendo relógio de pulso da Casio do Paraguai com joguinho eletrônico, fedor de mijo atrás das bancas de jornais, amputados, aleijados e chaguentos esmolando a torto e a direito, pregadores evangélicos garantindo a cura do câncar, do espírito criminoso e do homossexualismo."

Eu acrescentaria, de próprio punho, que é um canteiro de obras sem fim, cheio de tapumes pixados com hieróglifos das gangues, lixo por todas as esquinas e calçadas, fuçados e refuçados por catadores que empatam a passagem, com seus carrinhos, a muvuca de gente num indo e vindo sem fim, palhaços gritando na porta da loja chamando para as ofertas, estátuas humanas em cada esquina, numa performance grega ou romana, ganhando seus trocados, e ainda há mais mistérios entre o céu e Sampa do que sonha nossa vã filosofia.

Rua Direita, 1954 São Paulo
gelatina / prata tonalizada
23,5 x 23,5 cm (40,0 x 29,5 cm)
Foto de © Alice Brill.

Rua Direita, 2005 São Paulo
480 x 640 - 104k
Fonte: sempla.prefeitura.sp.gov.br

15 de novembro de 2009

Gatos enxergam no escuro?




14 de novembro de 2009

Viva e deixe morrer

"Em plena lua de mel, Paul McCartney arrumou um tempinho para defender os direitos dos animais. Ele mandou uma carta para os donos das 100 maiores lanchonetes McDonald's do mundo, pedindo que a rede de fast food obedeça aos padrões da PETA (People For The Ethical Treatment Of Animals), a maior organização de proteção aos animais dos Estados Unidos. Segundo um comunicado da associação, o McDonald's já melhorou bastante a maneira como trata o gado, os porcos e os frangos nos Estados Unidos e na Inglaterra, mas precisa estender essas medidas para as lanchonetes dos outros países." (Sex 28 Jun 2002)

Por cargas dágua fui parar nesta notícia. Ela foi publicada há 7 anos atrás e não lembro o que pensava sobre o assunto. Não tinha interesse como hoje. A pergunta que faço: Paul defendeu algum animal com esta carta? Afinal os humanos utilizam-se dos animais de todas as maneiras. Consomem a carne (muita carne, até de formigas), fazem experimentos em laboratórios, dissecam-no nas universidades, fazem bolsas, sapatos e casacos com seu couro, extraem óleo, dentes, comem até as víceras, bebem seu sangue e comem seu cérebro. Extinção. Utilidade total. E a defesa do Paul é para que matem os animais, mas sem usar de crueldade.

Debate mais que polêmico esse, o da defesa animal. "Bem Estar Animal", ou "Tratamento Etico" e há os mais radicais "Contra o holocausto animal". Devem existir outras correntes de opinião que nem conheço ainda. Política é isso. Pessoalmente me indago: "como assim matar sem crueldade?" Matar é matar! Não consigo mais comer carne por ter adquirido esta consciência. Mas sabemos que é muito difícil acabar com o consumo de animais no mundo. Mas não é impossível! Assim como é difícil mudar o sistema dominante que tem culpa no cartório. Tem gente que não acredita na mudança, eu acredito! E tem muita gente lutando muito para mudar tudo isso. Se a tendência é avançar, progredir, tudo o que for feito para melhorar, deve ser bem aceito, até como forma de educar e conscientizar. Seria melhor não matarmos, mas já que matamos, melhor que seja sem crueldade e com menos sofrimento... Então, são lutas diversas que se somam!

Compreendo que este debate não está descolado da luta pelo fim do capitalismo, pelo fim da exploração do homem pelo homem, na busca desenfreada pelo lucro, por uma sociedade plena de igualdades, pela paz, contra a destruição, incluindo a defesa do planeta e da vida. Seja qual for o ângulo que se olhe, é importante continuar lutando por este mundo livre, na mais completa acepção da palavra liberdade. Inclusive para os animais de todas as espécies. Sob pena deste sistema que está aí, que não dará soluções para os problemas criados por ele mesmo, matar todo o nosso planeta. Unamo-nos!

Música para esta postagem:

(clique e ouça):
Live And Let Die
(Paul McCartney)
Viva E Deixa Morrer

When you were young
Quando você era jovem
And your heart was an open book
E seu coração era um livro aberto
You used to say live and let live
Você costumava dizer

"Viva e deixe viver"
You know you did
Você sabe que dizia
You know you did
But if this ever changing world
Mas, se este mundo sempre em mutação
In which we live in
No qual vivemos,
Makes you give in and cry
Faz você se render e chorar,
Say live and let die, live and let die
Diga "Viva e deixa morrer"
What does it matter to ya
O que importa para você?
When ya got a job to do
Quando você tem uma tarefa a cumprir
Ya got to do it well
Você tem que fazer direito
You got to give the other fella hell
Você tem que mandar os outros pro inferno.
You used to say live and let live
Você costumava dizer "Viva e deixe viver"
You know you did
Você sabe que dizia isso,
Say live and let die, live and let die
Diga "Viva e deixa morrer"

(Composta - concidentemente - por Paul e sua esposa Linda para o oitavo filme de James Bond, Live and Let Die em 1973). Mas isso daria uma outra história!

Leia postagem relacionada:
http://coisasdeada.blogspot.com/2009/11/nao-consigo-comer-carne-faz-4-anos.html

Entendi

Nada tem me irritado mais do que o meme da moda, um vício: entendi. Tudo que se fala, vem com uma anuência do outro: entendi... soando evasivo. Vai saber de onde vem essa mania? Ana Maria Braga, usa direto! Meu irmão, até teclando no messenger, digita entendi. Meus colegas, o povo falando no orelhão, no metro, na rua, todo mundo repetindo - até eu - a palavra entendi. Nunca vi tanta gente, tão esclarecida! Que chato!

13 de novembro de 2009

Acabei de ler e não gostei


(Estávamos lendo, eu e Caillou)

Não sei se por defeitos na tradução, se a cultura romena, se o frio que faz por lá, mas não gostei do romance "O compromisso" de Herta Muller, a nobel de literatura deste ano (ver postagem relacionada). Esperava grandes denúncias contra o regime comunista da época, visto que ela foi deportada e proibida de escrever e ganhou o prêmio nobel de literatura por ser considerada, digamos assim, uma denuncista poética. Nem uma, nem outra. Pelo menos neste livro, único traduzido para o portugues, consegui terminar de le-lo porque, como o próprio nome do livro diz, eu tinha o compromisso de checar o que os críticos da literatura e o próprio nobel anunciaram. Ela escreve sem fôlego. Não usa interrogação, poucas vírgulas, frases curtas. Não tem "pegada". Cansativo e disperso. Talvez, para os romenos faça algum sentido, o que para uma obra literária não pode ocorrer jamais. Para mim, enfado.

12 de novembro de 2009

Não consigo comer carne há 4 anos: demorei!



"Representantes da cadeia produtiva da carne se reúnem no Workshop Bem-estar dos Bovinos durante o Transporte. Normas internacionais de boas práticas no transporte animal são utilizadas para reduzir o estresse e evitar lesões, que possam danificar a carcaça e o couro, prejudicando o valor comercial. O transporte inadequado pode causar morte, provocar hematomas, traumatismos e quebras de peso que comprometem o rendimento e a qualidade da carne e do couro. Além disso, o estresse dos animais durante o manejo pré-abate e o transporte, quando mal conduzidos, diminuem a vida útil da carne para consumo." (Jornal Agronotícias do Ministérios da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, 12/11/09).

Leia de novo. Atentamente. Pelo menos o trecho que diz: "o transporte inadequado pode causar morte, provocar hematomas, traumatismos e quebra de peso".

Leia novamente. "O estresse dos animais diminuem a vida útil da carne".

Eu leio novamente e penso: afinal o boi está sendo transportado para a morte mesmo, que diferença faz? O bem estar do boi não é uma preocupação com a dor que ele sente com os hematomas, e sim com os próprios hematomas. Ou com a fome que ele passa neste transporte, e sim com a perda de peso. Não com a sua morte de tanto sofrer crueldades, mas por morrer antes de chegar ao matadouro. Não com sua sede por dias e dias no aperto do caminhão até ser abatido! Muito menos com o estresse que ele passa, mas porque este apenas estraga a carne! Se assim não fosse, ele não seria abatido!

Acaba-se aí, enfim, no abatedouro, o seu sofrimento. E você vai come-lo, assim sofrido. Ou então, com este "curso intensivo" de "bem estar", vai come-lo menos sofrido, sem hematomas e estresse...

Afinal, é apenas um boi.

(sugestão de leitura: abate-humanitario)

11 de novembro de 2009

Palavras doces

Escrevo palavras doces, dizem.
Não deveria.
Uma fruta ácida apodrece na fruteira.
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