“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

Meus Poetas


Poemas que me tocam...


Poemas e Poesias
Poemas e poesias têm uma longa e respeitada tradição como uma forma de arte. Poesia é certamente uma das formas mais interessantes e suas regras podem ser difíceis de entender, porém muitos especialistas afirmam que não existem regras para a poesia. A essência da poesia é fazer as pessoas sentirem alguma coisa. Isso pode assumir forma de poemas épicos como Beowulf, poemas dramáticos como as muitas obras de William Shakespeare, Haiku ou Haicai japonês tradicional, ou quaisquer outros formatos. Os poemas podem ser longos ou curtos, podem rimar, embora muitas vezes não rimem, podem ter um ritmo claro ou aparentemente sem ritmo em tudo, podem ser declamados em prosa, cantados em canções. Essa é a beleza da poesia.

os meus? aqui



Adalberto Monteiro


A cidade

Os amigos estão além
Dos meus gritos de socorro.
E os astros quando chegarem
Talvez seja tarde.

Resta, então teu colo, cidade minha.
Percorro tuas avenidas
Como um neto percorre
As largas e azuis artérias da avó.

Ah! cidade minha, abraça-me,
Ofereça-me uma xícara de café,
Os meus pulsos estão gelados.

Abra as portas de teus bares,
Abra uma garrafa de conhaque
E descongela a calota polar
Que se tornou meu coração!

(As delícias do amargo, Adalberto Monteiro)
Editora Anita Garibaldi - edição 2005



Carlos Drummond de Andrade


Bom dia Clara manhã,
Mas salve, olhar de alegria!
E salve, dia que surge!
Os corpos saltam do sono,
o mundo se recompõe.

Que gozo na bicicleta!

Existir: seja como for.
A fraterna entrega do pão.
Amar: mesmo nas canções.
De novo andar: as distâncias,
as cores, posse das ruas.

Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.
Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos.
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!


(Carlos Drummond de Andrade
"A Rosa do Povo")



Antônio Carlos Affonso dos Santos (ACAS)



Soneto do Tempo Novo

Chegou a chuva, nem é março,
As folhinhas/calendários estão molhadas,
Os dias escorrem por sobre a vidraça,
Pouco além do armário de portas quebradas.

Fez-se lodo sob o tanque, as avencas
Descem pelos portais, samambaias
Infiltram-se em tudo, musgos em pencas
Cobrindo as lajes, tal e qual saias.

A vida umedeceu nas prateleiras,
Entre novelas de tevê e noites frias,
Que gelaram todos os ossos e mentes.

Brotaram dos sapatos cogumelos:
Mas assim que surgir um tempo novo,
Semearei minhas guardadas sementes.



Ana Cristina Cesar





Tu queres sono


T
u queres sono: despe-te dos ruídos, e
dos restos do dia, tira da tua boca 
o punhal e o trânsito, sombras de
seus gritos, e roupas, choros, cordas e
também as faces que assomam sobre a
tua sonora forma de dar, e os outros corpos
que se deitam e se pisam, e as moscas
que sobrevoam o cadáver do teu pai, e a dor
[ (não ouças)
que se prepara para carpir tua vigília, e os
[ cantos que
esqueceram teus braços e tantos movimentos
que perdem teus silêncios, o os ventos altos
que não dormem, que te olham da janela
e em tua porta penetram como loucos
pois nada te abandona nem tu ao sono.


Cris Cervo


Fotografia

Quando a saudade chega de jeito,

Trazendo lembranças que longe se vão,
Deixando bem viva dentro do peito,
A dor tão doce da recordação...


Momentos passados, que estão tão distantes
Pessoas queridas que não vivem mais,
A saudade aumenta a cada instante,
De todo um passado que ficou pra trás...


É nessas horas que a gente avalia
Pequenas lembranças, seja o que for,
E damos valor a uma fotografia,
Que com o tempo já perdeu a cor...


Momentos que voltam a ser alegria,
Passado remoto, retorna ao presente,
Com toda força que uma fotografia
Pode trazer à memória da gente...

Imagens que ofuscam a nossa visão,
E com certeza nos fazem chorar,
Porém alimentam um coração,
Tão ansioso em querer recordar...

Ao profissional que retrata a imagem,
Com seu "click" que dura um segundo,
E nos permite a fantástica viagem
Redescobrindo o arquivo do mundo...

Dedico a você meu carinho eterno,
É uma forma de agradecimento,
Pois através de um visor tão pequeno,
Tem o poder de eternizar um momento...




Flora Figueiredo



Silêncio.
Madrugada.
Rua vazia.
Uma lua branca de linho
estendida no escuro,
sobre o nada.
Num momento insone,
conversam confidentes
Presente, Passado, Futuro.
Um pensamento corta o espaço
versejando a esmo.
Escuto passos:
é meu coração abrindo as portas de mim mesmo.



Marta Eugênia


Bem-me-quer, bem-me-quer, bem-me-quer

Um poema não desce pra perguntar
quem poluiu o chão e o ar
quem enxotou os animais daqui pra lá
ou quem transportou tantas árvores
pra estação do adeus.


Os poemas aparecem
pra afirmar que no céu ainda resta azul,
que as ondas com suas pernas de espuma
trazem à praia
alguns segredos da alma do mar:

conchas, búzios, mariscos,
coisas que não se contam
a qualquer um...
Mas eu pergunto:
Quem compreende uma dália
no assunto de uma tarde?

Quem enxerga que as acácias,
gérberas, rosas, lírios,
brincam nos terreiros de cada dia?
A poesia, a poesia, a poesia.

Professora de Língua Portuguesa




Vinícius de Morais


Ternura

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor
seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos

Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentando
Pela graça indizível
dos teus passos eternamente fugindo

Trago a doçura
dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer
que o grande afeto que te deixo

Não traz o exaspero das lágrimas
nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras
dos véus da alma...

É um sossego, uma unção,
um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta,
muito quieta

E deixes que as mãos cálidas da noite
encontrem sem fatalidade
o olhar estático da aurora.




Hilda Hist

Leva-me a um lugar onde a paisagem
Se pareça àquela das visões da mente.
Que seja verde o rio, claro e poente
Que seja longa e leve a minha viagem.

Leva-me sem ódio e sem amor
Despojada de tudo que não seja
Eu mesma. Morna estrutura sem cor
A minha vida. E sem velada beleza.

Leva-me e deixa-me só. Na singeleza
De apenas existir, sem vida extrema.
E que nos escuros claustros do poema
Eu encontre afinal minha certeza.


Manuel Bandeira


Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.



Berthold Brecht


Derruba uma floresta
Esmaga cem homens,
Mas tem um defeito - precisa de um motorista
O vosso bombardeiro, general
É poderoso: voa mais depressa que a tempestade
E transporta mais carga que um elefante
Mas tem um defeito - precisa de um piloto.
O homem, meu general, é muito útil:
Sabe voar, e sabe matar
Mas tem um defeito - sabe pensar.



Chico Buarque


Desencontro 
A sua lembrança me dói tanto
Eu canto pra ver 
se espanto esse mal
Mas só sei dizer 
um verso banal
Fala em você, canta você

É sempre igual

Sobrou desse nosso desencontro
Um conto de amor
Sem ponto final
Retrato sem cor
Jogado aos meus pés
E saudades fúteis
Saudades frágeis
Meros papéis

Não sei se você ainda é a mesma
Ou se cortou os cabelos
Rasgou o que é meu
Se ainda tem saudades
E sofre como eu
Ou tudo já passou
Já tem um novo amor
Já me esqueceu


Clarice Lispector


Minha alma tem o peso da luz. 
Tem o peso da música. 
Tem o peso da palavra nunca dita, 
prestes quem sabe a ser dita. 
Tem o peso de uma lembrança. 
Tem o peso de uma saudade. 
Tem o peso de um olhar. 
Pesa como pesa uma ausência. 
E a lágrima que não se chorou. 
Tem o imaterial peso da solidão 
no meio de outros.


Fernando Pessoa


Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.
Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.
És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.
(Janeiro de 1931)


Ferreira Gullar


Traduzir-se
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?


Florbela Espanca


Eu

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...

Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

ou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!



Luana Bonone


Abissal

A enfermidade do universo me contagia
Minha alma está prostrada sobre um mar de ceticismo
Que produz imensas ondas de caos
Elas são gigantes... e fortíssimas!
A espuma com aspecto absurdo
Explode na arrebentação da minha lucidez
(minha trágica e odiosa lucidez)
Quisera eu ignorar as coisas todas do mundo
Como os peixes que habitam a profundidade abissal
Desconhecem o mundo e, ao mesmo tempo, o conhecem por inteiro
Pois que o mundo não lhes passa de uma profunda escuridão
Sem mistérios, ciências e hipócrita preocupação com o meio-ambiente
Apenas a pastosa escuridão
Densa, segura
E garantidora de sua sábia ignorância
Eu invejo as criaturas abissais
Sempre sonhei me alienar do mundo e sua decadência
Sempre quis me alienar de mim (da minha insignificância)
Anseio, sobretudo, me alienar desta coisa soberba e mesquinha
a que chamamos humanidade. 



Mariana Ianelli


Não há rumor nas coisas,
Elas são o que são,
Não desejam explicar-se.
A porcelana, a cambraia, a murta
E a falta de uma asa.
Aqui não existe o medo,
Eu planto e eu desbasto.
As paredes ardem,
A erva recende,
O sol vem do leste,
Tudo em perfeita ordem.
Está pronto, terminado.
Um rasgo, um passo em falso,
Uma sombra,
Agora é tarde.
As cartas não chegam
Nem são enviadas.
A mesa está limpa.

(Almádena - 2007 - Editora Iluminuras)



Pablo Neruda


Ode ao gato

Os animais foram imperfeitos, 
compridos de rabo, tristes de cabeça. 
Pouco a pouco se foram compondo, 
fazendo-se paisagem, 
adquirindo pintas, graça vôo. 

O gato, 
só o gato apareceu completo e orgulhoso: 
nasceu completamente terminado, 
anda sozinho e sabe o que quer. 

O homem quer ser peixe e pássaro, 
a serpente quisera ter asas, 
o cachorro é um leão desorientado, 
o engenheiro quer ser poeta, 
a mosca estuda para andorinha, 
o poeta trata de imitar a mosca, 

mas o gato quer ser só gato 
e todo gato é gato do bigode ao rabo, 
do pressentimento à ratazana viva, 
da noite até os seus olhos de ouro. 

Não há unidade como ele, 
não tem a lua nem a flor 
tal contextura: é uma coisa 
só como o sol ou o topázio, 
e a elástica linha em seu contorno
firme e sutil é como 
a linha da proa de uma nave. 

Os seus olhos amarelos 
deixaram uma só ranhura 
para jogar as moedas da noite . 
Oh pequeno imperador sem orbe,
conquistador sem pátria, 
mínimo tigre de salão, nupcial 
sultão do céu das telhas eróticas, 

o vento do amor na intempérie 
reclamas quando passas 
e pousas quatro pés delicados 
no solo, cheirando, 
desconfiando de todo o terrestre, 
porque tudo é imundo 
para o imaculado pé do gato. 

Oh fera independente da casa,
arrogante vestígio da noite, 
preguiçoso, ginástico e alheio,
profundíssimo gato, 
polícia secreta dos quartos, 
insígnia de um desaparecido veludo, 
certamente não há enigma na tua maneira, 
talvez não sejas mistério, 
todo o mundo sabe de ti e pertences 

ao habitante menos misterioso 
talvez todos acreditem, 
todos se acreditem donos, 
proprietários, tios de gato, 
companheiros, colegas, 
discípulos ou amigos do seu gato. 

Eu não. 
Eu não subscrevo. 
Eu não conheço o gato. 
Tudo sei, a vida e o seu arquipélago, 
o mar e a cidade incalculável, 
a botânica o gineceu com os seus extravios, 
o pôr e o menos da matemática, 
os funis vulcânicos do mundo, 

a casca irreal do crocodilo, 
a bondade ignorada do bombeiro, 
o atavismo azul do sacerdote, 
mas não posso decifrar um gato. 
Minha razão resvalou na sua indiferença, 
os seus olhos têm números de ouro.



Rosa Luxemburg


"No escuro, sorrio à vida, 
como se eu conhecesse algum segredo mágico 
que pune todo o mal e as tristes mentiras, 
transformando-os em luz intensa 
e em felicidade. 
E, ao mesmo tempo, procuro 
uma razão para esta alegria, 
não encontro nada, 
e tenho que sorrir novamente - de mim mesma. 
Acredito que o segredo não é outro 
senão a própria vida; 
a profunda escuridão noturna 
é bela e suave como veludo, 
basta somente saber olhar. 
No estalar da areia úmida 
sob os passos lentos, pesados d
a sentinela canta também uma bela, 
uma pequena canção da vida - 
basta apenas saber ouvir."

(trecho de uma carta escrita na prisão)



Sylvia Plath


Espelho

Sou prateado e exato. Não tenho preconceitos.
Tudo o que vejo engulo no mesmo momento
Do jeito que é, sem manchas de amor ou desprezo.
Não sou cruel, apenas verdadeiro
O olho de um pequeno deus, com quatro cantos.
O tempo todo medito do outro lado da parede.
Cor-de-rosa, malhada.
Há tanto tempo olho para ele
Que acho que faz parte do meu coração. Mas ele
[ falha.
Escuridão e faces nos separam mais e mais.
Sou um lago, agora.
Uma mulher se debruça
[ sobre mim,
Buscando em minhas margens sua imagem
[ verdadeira.
Então olha aquelas mentirosas, as velas ou a lua.
Vejo suas costas, e a reflito fielmente.
Me retribui com lágrimas e acenos.
Sou importante para ela.Ela vai e vem.
A cada manhã seu rosto repõe a escuridão.
Ela afogou uma menina em mim, e em mim uma velha
Emerge em sua direção, dia a dia, como um
[ peixe terrível.



Mario de Andrade


Descobrimento

Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.
Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus!
muito longe de mim

Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.
Esse homem é brasileiro que nem eu.


Tompson Luciano Bueno

(EM BUSCA DA FOTO)

Granítico

"Nada existirá
sem mim
Sorriso esquecido
Abraço amigo
O gargalhar
Lágrimas minhas
Por desgosto
Por amor
E ausência.
Nada existirá
Após a irreponsabilidade
Da vida
Serei talvez
Saudade."


Paul Eluard





Seus olhos sempre outros
Dias de lentidão, dias de chuva,
Dias de espelhos quebrados e agulhas perdidas,
Dias de pálpebras fechadas ao horizonte
[ dos mares,

De horas em tudo semelhantes, dias de cativeiro.
Meu espírito que brilhava ainda sobre as folhas
E as flores, meu espírito é desnudo feito o amor,
A aurora que ele esquece o faz baixar a cabeça

E contemplar seu próprio corpo obediente e vão.
Vi, no entanto, os olhos mais belos do mundo,
Deuses de prata que tinham safiras nas mãos,
Deuses verdadeiros, pássaros na terra

E na água, vi-os.
Suas asas são as minhas, nada mais existe
Senão o seu vôo a sacudir minha miséria.
Seu vôo de estrela e luz,
Seu vôo de terra, seu vôo de pedra

Sobre as vagas de suas asas.
Meu pensamento sustido pela vida e pela morte.


Vladimir Maiakóvski


Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos
apareça
numa alameda do zoo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.

Ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.

Então,
de todo amor não terminado 
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas. 

Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!

Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!

Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.

Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.

Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.

E que, ao primeiro apelo:
- Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.

Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o Universo;
a mãe,
pelo menos a Terra.

Poemas de Maiakóvski daqui


Thiago de Melo



Sugestão

Antes que venham ventos e te levem
do peito o amor - este tão belo amor
que deu grandeza e graça à tua vida -
faze dele, agora, enquanto é tempo,
uma cidade eterna - e nela habita.

Uma cidade, sim. Edificada
nas nuvens, não - no chão por onde vais,
e alicerçada, fundo, nosteus dias,
de jeito assim que dentro dela caiba
o mundo inteiro: as árvores, as crianças,
o mar, o sol, a noite e os passarinhos
e sobretudo  caibas tu, inteiro:
o que te suja, o que te tranfigura,
teus pecados mortais, tuas bravuras,
tudo afinal o que te faz viver
e mais o tudo que, vivendo, fazes. [...]

*
As ensinanças da dúvida

Tive um chão (mas já faz tempo)
todo feito de certezas
tão duras como lajedos

Agora (o tempo é que o fez)
tenho um caminho de barro
umedecido de dúvidas

Mas nele (devagar vou)
me cresce funda a certeza
de que vale a pena o amor.

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