“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

23/03/2009

Sons da solidão

Na penumbra do quarto, cinco (?) da manhã, o primeiro ônibus passa na avenida e me avisa que o povo desta metade do mundo começa a trabalhar. Dá um cansaço. Me deixo ficar na preguiça das cobertas quentinhas, e nessa hora sempre penso que é a melhor hora. Não pode abrir os olhos. Tem que fingir estar sonhando, para ouvir os sons da vida lá fora. Eles nunca me foram imperceptíveis, apenas nunca falei deles, dos personagens sons. 


Se fosse falar de cada um, cada um teria seu espaço de honra na parte solitária de mim. O caminhão da ultragás (não outros) tem uma marca muito doída. No dia do enterro de meu pai, ele percorria as ruas do bairro do fundão da zona sul. Era ela - a música fantasmagórica interplanetária - e eu, nos meus profundos pensamentos e lembranças de quem era meu pai. Nunca mais esse som foi apenas anúncio do gás. Ele criou uma vida própria, cheia de meandros nos pensamentos. 


Se fosse só isso, seria apenas (apenas é pouco) uma dor mista de saudade e mágoas. Mas esse som, entre tantos, é mais que isso, vai além daquele dia triste, faz parte da minha solidão que intrinsecamente me faz lembrar de mim. Todos os sons que começam a acordar nessa manhã fria, são a minha solidão. Os cães que latem em ecos, me fazem sobrevoar o bairro e ver as pessoas saindo de suas casas, evaporando pela boca a friagem da manhã. 


Penso em todos os cães do mundo, nos que passam fome, nos que já tive e nos que terei. Marteladas pipocam em alguma construção, o pedreiro deve estar com seus calos planejando o que fazer nesse dia duro de trabalho e preciso achar alguém para consertar minha pia e será que terei aquela casa com quintal? A máquina do serralheiro, (onde tem uma serralheria aqui?) trinca seu som esganiçado, nem sei defini-lo, mas parece que dói em algum lugar. 


Uma voz e o primeiro avião cortam o céu nublado, será que azul, e quanta gente dentro dele, indo fazer o quê no Rio de Janeiro ou em Brasilia. A porta do bar correu barulhenta deixando o bafo de pinga e café ganhar a rua e se perder nos cheiros da manhã. A sirene do colégio toca feito a da fábrica, mas aqui não tem fábrica, mas o colégio estadual é tão proletário quanto. Mas já? 


São quinze para as sete e a criançada fala pelos cotovelos. Posso ouvir daqui. Lembro eu mesma de saia pregueada e de meia tres quartos. Quero fazer uma festa esse ano e juntar minha turma de colégio, mas o tempo me pediu para esperar até que tenha um tempo. 


Cansaço. Mais um avião. Esse me lembrou um namorado baiano que vinha me visitar em fins de semana. Nesse tempo o barulho do avião era gostoso, carinhoso, tinha um quê de oso. Um carro de som apela para o "sa-bão-em-pó-pas-ta-para-bri-lho-cân-di-da- va-ssou-ra-dona-de-casa, pausadamente, soletradamente, venha" e o outro "o carro dos ovos chegou!" muito mais dinâmico e cheio de surpresa. Nem todo dia passa o caminhão das sardinhas, "tem camarão, tem corvina, senhora!" e a saga desses peixes e de seus pescadores até chegarem aqui na vila da zona sul de São Paulo, e parar na frigideira. 


Mas o do gás estava demorando para se destacar no meio dos outros. Como me enjoa esse som. Preciso ligar na Prefeitura para saber se pode isso, todo dia sete da manhã, não o da ultragás, os outros. A buzina do padeiro é um aviso de tempo esgotado! Dá fome. Os sons da minha solidão vão perdendo o sentido e o romantismo do pensar em tanta gente que passou, ou não, pela minha vida e as suas tantas histórias impensáveis numa manhã só. 


Agora não adianta fingir mais, certos sons vão me tirando desses pensamentos e devaneios e percebo que estou atrasada. Meu gato preto Victor Hugo mia em tons de mi na porta do quarto e é hora da ração fresca, é a hora deu me levantar e fazer o meu próprio som.

Gymnopedie 1 by Erik Satie on Grooveshark


Ouça Erik Satie, um som que me faz lembrar do grande amor da minha vida.


Comentário recuperado das postagens que exclui por acidente:

Paulo Vinícius disse... Caríssima Ada. É massa o seu blog. Que plangente a sua crônica! Realmente linda. E muito gentil deixar esta canção que ouço agora. Paulo Vinícius 27/6/08.

Um comentário:

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

muias coisas escritas aqui fazem parte do meu dia como - Me deixo ficar na preguiça das cobertas quentinhas- ou fazer uma festa e chamar os colegas...ternura, tristeza e solidão que afinal fazem parte do som que fazemos, das nossas vidas