“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

05/03/2010

Uma lembrança procurou o Rogério



Uma lembrança pulou as grades do parque, na parte mais sombria, onde as copas das árvores transbordam folhas densamente verde-musgo. Abaixo desta absurda massa verde, uma grama tenra, em tom mais claro, se estende infinitamente plana, plena e suave. Minha lembrança percorre velozmente esta planície e esbarra em cada tronco, descascados alguns, em busca dele. Perdida nessa imensidão de plantas frescas, minha lembrança não sabe em qual tronco ele estará, sentado de cócoras, pensativo. Lê algum livro, e repousa a cabeça sobre os joelhos. Costas cansadas, doridas de noites mal dormidas, não sei, imagino de todo revolucionário. Pensativo está, com certeza. Busca a sombra, a paz do silêncio, a concentração, a solução para seus enclaves.

Mas ali fica. Ali ficou, naquele dia de primavera, e na noite, e ainda está lá. A lembrança escarafuncha, então, cada palmo verde do bosque, em busca de amenizar a impressionante sensação de abandono, de desassossego, de mistério que permaneceu insolúvel. Não importa em qual árvore a vida dele se estancou. Em algum canto por ali, ela [a vida dele], percorre entre o cheiro de mato e a noite, entre a madrugada molhada de orvalhos e o repouso dos suspiros e pensamentos, suspensos na névoa do lago, na bruma. Posso sentir, minha lembrança não esquece sua luta, seu motivo de viver. Minha lembrança imagina seu rosto, sua dor fulminante, mas não chega nem perto do que de fato ele sentiu. Se incomoda, não pôde ser solidária. A morte é solitária. Minha lembrança vai perambular por ali, no verde desconhecido, no orvalho do sombrio bosque. Vai fazer-lhe companhia sempre que, como hoje, pular as grades do parque. (Ada, 5/3/13)

***


"Em 21 de outubro de 1992 Rogério Lustosa faleceu subitamente de enfarte, num dia ensolarado, no parque do Ibirapuera, em São Paulo. Sua morte causou grande consternação no Partido [Partido Comunista do Brasil] e em todos os lutadores pela causa da liberdade e do socialismo. Rogério tinha apenas 49 anos e foi fulminado por um ataque cardíaco que interrompeu, bruscamente, uma vida integralmente dedicada à revolução. Membro do Comitê Central [do PCdoB] e do Secretariado, era responsável pela Agitação e Propaganda do Partido." (Por Olivia Rangel).

Um comentário:

Ana Polli disse...

Eu estava na sede do Partido quando chegou um policial e perguntou se alguém poderia reconhecer o corpo que estava sentado debaixo de uma árvore no Parque do Ibirapuera... ele se foi enquanto lia um livro... e ali ficou desde o final da tarde até o amanhecer do dia seguinte, quando foi percebido (porque parecia que estava somente sentado lendo) por garis que limpavam o Parque... que saudade!
Lindo o que você escreveu Eliana!
Trouxe boas lembranças desse grande Camarada que se foi... mas que continua presente na nossa memória.
Beijos,