“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

20/04/2010

Parei de respirar

Foto de Ada: Graffiti no Minhocão, abril de 2010

Parei de respirar. Hora de ir para casa me esconder do cansaço. Parei de respirar, quatro anos? Asma. Continuo tentando sobreviver à sanha desta cidade que segue desembestando golpes certeiros, ferindo por dentro e por fora, sem escrúpulos. Parei de respirar

Parei de respirar. Desço a ladeira remodelada pelo piche derretido e sinto cheiro de fogueira, de fogão a lenha. Os cheiros têm cada qual a sua alma. Oito e meia da noite. A pizzaria na esquina oposta solta fumaça e risos de véspera de feriado e tilinta brindes de chope gelado. Na de cá, é preciso desviar, amiudar os olhos, pois a noite obscura um monte de pano e papelão, onde pessoas sem eira nem beira, dormem e se aquecem com fogueira improvisada. Parei de respirar.
A ladeira parece mais íngreme que ontem. A consciência da desigualdade me esbofeteia sempre com mais veemência e deixa tudo aumentado, dolorido, mais difícil. Andar nas ruas da cidade é dar a cara à tapa. Parei de respirar.

Na ladeira, que ontem não era tão íngreme, pulo monturos, tropeço pedras soltas, pisoteio um chiclete mastigado, desvio de um escarro, descubro uma pena de pássaro, percebo folhas mortas pelo outono, chuto uma lata, corro de uma moto que passa o sinal. A cidade ainda está paralisada, a esta hora, assim, buzinando sua pressa. Parei de respirar.

Um motorista bateu no poste e morreu às três da tarde na zona leste e o efeito estica-se pela noite adentro e segue para a zona sul, passando por mim, nesta ladeira que é bem mais íngreme do que parecia ontem. Daqui a pouco ele [o infeliz] será enterrado e ninguém vai se lembrar de que a cidade parou por ele e que a luz acabou por ele e que a ambulância passou com ele, ensurdecendo-nos. Amanhã será outro, outro dia. Preciso respirar.

Ao pé da tal ladeira, hoje tão íngreme, nasceu um viaduto ofensivo que ostenta fuligem, esconde meninos drogados, sustenta rebeldia de árvore teimosa em suas frinchas, exibe pixações e grafittis e exala urina. Faço uma foto, registro um fato. Preciso ir para casa, me esconder desse cansaço. Preciso respirar.

Tento sobreviver à sanha desta cidade que segue desembestando golpes certeiros. E segue ferindo por dentro e por fora. No rádio anunciam animados as vendas de treze mil carros por dia. Preciso entrar numa farmácia, parei de respirar

Como me pareço com o velho do grafitti... Ele precisa respirar!

Um comentário:

Amplexos do jeosaFÁ disse...

Essa cidade que envenena podia ser bem mais humana.