“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

29/10/2010

Um tango e a gente faz-se feliz



Aquela parede tingida de vermelho vivo, cor de coração e lábios, engole a sombra do violoncelo que se mistura num tom mais escuro. A camisa laranja dilui o músico de cabelos cinzentos naqueles sons que exalam cores vivas. Suas pernas o entrelaçam e seus braços leves fazem amor apaixonadamente. Sem pudor dedilha flexivelmente suas cordas, dança suas mãos habilmente acima e abaixo e num enlace sem esforço extrai-lhe a alma, transforma-o êxtase. As sombras do movimento amoroso projetam-se no vermelho e no fundo dos meus olhos úmidos de prazer. O som que nasce ali se evapora com outros instrumentos e a melodia vem me beijar em carmim, embriaga feito um perfume de cravo e canela. Clarinete, violoncelo, piano e acordeon se juntam e cativam os melhores sentimentos. Os sons se juntam e sentem dor, choram, lamentam, gargalham e amam. Acalmam e excitam. São nuvens brancas, trem vagaroso, pássaro, mato verde, ventania e mil sorrisos. Correm, rodopiam, saltam, batucam, palpitam, suspiram, sussurram. Cheiram chocolate e canela, mixirica, sabonete e chuva. Chá de hortelã. Um tango e a gente é realmente capaz de fazer-se feliz.


Libertango - Astor Piazzola

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