“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

29/06/2011

Um bom remédio para o tédio é comprar alguma coisa, dizem


"Quando eu crescer quero ter muita cultura"


Chega um dia, e vem uma coceirinha para fazer compras, uma pequena lista de coisas faltando na casa, para mim e tal, lista que vai crescendo com o passar do tempo, coisas necessárias. Programe-se então para ir à 25 de março, e a palavra é mesmo “programe-se” pois será uma gincana tomar o metro [de carro nem pensar] e duelar com milhões de transeuntes nessas ruas. Escolha um dia ensolarado para que, no duelo não tenhas que enfrentar os guarda-chuvas e as poças d´água, verdadeiros lagos paranoás pelas calçadas esburacadas. Vá com tempo sobrando, melhor que tire o dia, pois demora viu! e ao final precisarás de um escalda-pés.


Já na 25 é preciso redobrar sua atenção com trombadinhas. Segure a bolsa, que deverá ser pequena e acoplada ao corpo e divirta-se! Alguma dificuldade será razoável, vai sobrar um filete de calçada disponível para trançar seus pés e desviar das sacolas alheias. As barraquinhas, cheia de genéricos e penduricalhos Made in China, disputarão espaço com os carros que trafegam em meio à multidão, e você precisará ziguezaguear entre eles. Pois é, há louco que entra com o carro na 25, provavelmente teve a pretensão, um dia, de ser toureiro...

Daí, você dispara nas suas compras. A pequena lista que decorou há semanas, disputa prioridade com a lista espontâna que vai surgindo irrefletidamente. É que os olhos vão crescendo com as novidades e últimos lançamentos que a novela das nove sugeriu. Serão brincos, pulseiras, colares, anéis, cintos, bolsas, cachecóis e boinas, brilhos para aplicar em roupas, lenços coloridos irresistíveis, capinhas para o celular, enfeites, armarinhos, brinquedos, devedês, karaokês, nãoseiokês, que vão subir-lhe à cabeça. Todo mundo comprando, e você fica contaminado pela febre do "também preciso comprar". Não se preocupe que em cada esquina encontrarás também um vendedor de sacolas P, M e G todas estampadas e à la última moda com pele de onça e zebra, que vai ajudar a levar as quinquilharias...

Tome um café reforçado pela manhã, antes de sair de casa, porque comer algo por ali é um desafio que talvez não queira enfrentar e nem vou gastar palavras com as comilanças do centro da cidade, lembra-se do churrasco grego que tem pelas esquinas paulistanas? Depois de horas a fio de um entra e sai de loja, é melhor bater em retirada, porque a grana acabou e aquela satisfação do consumir começa a fazer efeito. É como o hormônio serotonina, te deixa feliz da vida!

Na volta prá casa, você é mais um a espancar os usuários do metro com suas sacolas cheias, de quê? nem se lembra mais, são águas passadas. Em casa, estica as pernas, toma água, um café [ai que delícia estar em casa] e relaxa. Desfaz-se das sacolas, com a ajuda dos gatos curiosos, e tirando os sacos plásticos, as embalagens de papel, as embalagens dos produtos, sobra quase nada sobre a mesa. Pôxa, só comprei isso? Da lista oficial, faltou coisa, e da lista criativa bate um remorso e a constatação de que não precisava comprar. 

Mas que foi muito bom, ah! foi! Afinal, um argumento frequentemente usado é que um bom remédio para tédio, tristeza, mau humor, é comprar alguma coisa... o famoso consumismo. Passado o efeito calmante do gastar [cuidado para que não seja frequente e em menos de 1 mês] lembre-se de que consumir é um vício que vai além do necessário. Adie a próxima listinha usando uma famosa frase para os viciados: "só por hoje". 

Exagerei?

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