“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

14/08/2011

Lembranças para o seu aniversário

Imagem: Boneco de papier mache encontrado na internet
A filhota saiu com passos cambaleantes, mas definitivos, pelo meio das pessoas barulhentas na sala do casarão em festa. 15 de Agosto de 1978, o primeiro aniversário! Os primeiros passos! O vestidinho de lã branca, todo rodado em godê e bordado com moranguinhos vermelhos, tinha mangas compridas e um babadinho nos punhos,calçava um sapatinho boneca de verniz preto super brilhante e meias rendadas brancas completavam o traje de bonequinha. 

Entre bolos, velinhas, brigadeiros, beijinhos, enfeites coloridos, apresentei um teatro de bonecos para a criançada, tudo feito por mim com muito empenho. O enredo fui buscar numa biblioteca infantil. Contava que uma estrela caíra na terra e fora parar num circo na floresta. Aprisionada numa jaula, como todos os animais, ela iluminava os espetáculos noturnos onde o malvado dono do circo explorava os pobres animais. Todos se juntaram para conquistar a liberdade e devolver a estrela aos céus e acabava num final feliz.

Como cenário, pintei num painel enorme de algodão cru, uma floresta bem verdinha, que esticado por trás da janela enorme, aquelas de casarão antigo, criava um excelente palco.

Os bonecos, confeccionados em “papier mache” (massa de papel com cola) foram criados a partir de uma ripa de madeira que serve de apoio para enrolar retalhos de pano até se ter um molde em formato de bola, que é o o recheio para moldar a cabeça, onde a massa de papel é aplicada. Faz-se então a escultura do rosto moldando nariz, ouvidos, olhos, boca dando a expressão desejada ao boneco. Tem que deixar um pescoço com um excesso vincado para segurar a roupa depois de pronto. A cabeça do boneco deve ser levada ao forno até que seque e endureça, retirando-se depois de frio, o recheio de retalhos e a ripa de madeira. Daí vem a pintura que vai dar vida ao boneco. Fios de lá colados fazem a cabeleira desejada, que pode ter tranças, ou franjas. A cabeça então fica oca para que possa ser manuseada com os dedos durante a encenação do fantoche.

Fiz todos os personagens: macaco, leão, urso, onça e o dono do circo, com um bigodão preto. Tinham jaulas também, mas não me lembro como eram. Depois, vem as roupas dos bonecos, costuradas à máquina e bordadas à mão são presas no pescoço do fantoche e devem ser longas para esconder o braço que dará movimento ao fantoche. Lembro-me que a personagem principal, a Estrela, ganhou cílios postiços e lábios vermelhos. As cinco pontas foram feitas de espuma e revestidas com brocado prata. Tudo lindo!

Katia e eu ficamos ajoelhadas por trás da janela manuseando os bonecos e seguindo o roteiro da peça com as vozes correspondentes. Divertido! Na calçada do lado fora, ocupando a rua também, apareceu criança de todo canto das ruas vizinhas do Glicério. Eufórica a criançada aplaudia o teatro de bonecos fantoches!

As fotos se perderam. Que pena! Naquele tempo as máquinas não eram digitais e o amigo que as fez, nunca me mostrou. Perdi o contato.

Minha filhota querida, agora mulher bonita e inteligente, completa trinta e quatro! Seus passos firmes e decididos, depois de muita luta, percalços, alegrias e tristezas seguem muito além daquela sala em festa, seguem buscando lugar no futuro, seguem no teatro da vida, muito mais real que o de fantoches. Sabendo que pode contar com a mão da mãe, humildemente solidária, protetora, sempre por perto, pronta para segurá-la quando acontecem os tombos que a vida costuma dar.

Feliz aniversário filhota!

*** 

Lembranças da Tia Kátia

Que bom você lembrar de tudo isso! Resgatar essas lembranças é importante para nós.

Me recordo muito bem dessa festa. Mayra usava o vestidinho branco, ainda era carequinha sem muito cabelo, com aqueles olhos enormes que puxou da mãe.

Ficamos abaixadas e por trás o cenário na janela grande do quarto da frente. Toda a rua ficou assistindo lá fora, muitas crianças.

Estavam todos os amigos daquela época, o pessoal da capoeira, o Otto, Zé Luiz, a filha do Carelli, a Chica, o Rubens também estava. Além das vozes femininas, teve também voz masculina para os bichos, não consigo lembrar quem foi.

Tinha bolo (parece que sua mãe fez), fiz brigadeiro, tinha pirulito, cachorro quente, e umas lembrancinhas que arrumamos em saquinhos para a criançada.

Lembro que você enfeitou a sala com umas flores que fez com papel crepon, enchemos um monte de bolas, não lembro dos outros enfeites. Mas era a época que fazíamos muita coisa com papier machè.

Mayra ficou vendo do lado de fora no colo do Rubens. Eu tinha umas fotos, vou tentar encontrar, talvez estejam com minha mãe ou com o Rubens.

Só sei que foi uma "farra" na rua e ficamos até a noite com a festa!

Tudo que conseguir lembrar te falo. Vou ligar para a Denise, minha prima, para ver o que ela diz dos bonecos.

Grande beijo. Sempre lembro de você com o maior carinho!

Katia.

Um comentário:

Mayra Ianelli disse...

Que delicia saber um tiquinho mais de meu primeiro ano de vida... Pena termos essa recordação apenas na memória, ainda mais eu, que depois de 33 anos, é impossível me lembrar de algo!!!!
Obrigada pela homenagem, aqueceram meu coração!!!!! Gostoso tb ler as palavras da tia Katia! Obrigada pelo carinho e por seu amor!!!!