“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

25/12/2012

Isso é natal

Ela parecia uma suplicante: visitava as redes sociais e emails para ver se alguém lembrara-se de enviar-lhe amor. Ridícula ela! Por mais que achasse merecer carinho dos semelhantes, via que não, não merecia!

Oras, mas por quê? Afinal, não pregam o natal de amor? Eis que ficava a refletir o porquê não tinha sorte com as pessoas. Sempre criticada, a partir de sí, nunca era perfeita o bastante para receber afetos. Pensava nos porquês, mas não conseguia entender.  E assim permanecia através dos anos em que viveu. E assim seguia vivendo, buscando amor, reconhecimento.

Nesse natal foi pior. Sua filha [a única que a vida concedeu-lhe por piedade] a desprezara, incólume. E tantos acontecimentos para tal atitude, que nem mais sabia onde começavam e onde terminavam, apenas que estava sozinha, com o “chester” no forno e a maionese na geladeira, e a “coca-cola” e a “antártica sub zero” gelando no velho "freezer", e que ainda insistia em oferecer - sabe lá a quem - um pouco de carinho com a ceia de natal. Companhia? A rede gobo de televisão.

Das doze cervejinhas geladas, restavam oito, por enquanto, e restava a rolha do champagne derramado no ralo da pia, e o comércio hoje não funcionava [talvez único dia de consideração com os trabalhadores]. Tá certo, estava um pouco alterada pelo álcool [aprecie com moderação] mas nem tanto para fazer suas reflexões. Até escreveu mensagens SMS pela operadora TIM! Afinal 0,50 centavos para mensagens ilimitadas, permitiam espalhar bons sentimentos quase grátis! O problema é que não havia sinal em seu bairro. Então, as palavras de “feliz noite de natal” ficaram presas ali, no aparelho de celular, desde a meia noite, dependendo da operadora liberar o carinho via satélite. E assim permaneceria durante o grande dia, engolindo palavras... 

Isso é natal? Ela até se perguntou: pôxa, tempestade de raios assustadores, e 34 graus na temperatura, decoração de natal na avenida Paulista, cascatas no Ibirapuera, a guirlanda pendurada na porta, e a repórter anunciando que será a última oportunidade para ver as luzes de natal do menino Jesus, que nasceu na mangedoura... 

Sinceramente? Pensou em renunciar à vida, porque ela não fazia a menor diferença, nem mais fazia sentido existir. A solidão é uma sujeita, que mesmo sendo feminina e tão delicada, [o que sugere amor] é muito cruel. Ela chega e manda, não pede. (Ada, 25 de dezembro de 2012)


6 comentários:

Elenara Stein Leitão disse...

Ai querida, com pequenas diferenças podia ter escrito essa história. Talvez a vida exija muito, talvez falte algo aqui dentro. Só te digo que detesto essa época do ano. É preciso uma baita coragem interna para sobreviver.beijos

Eliana Ada Gasparini disse...

É sim. Acho que esqueci-me de dizer isso: somos corajosas e sobreviventes nesse mundo que parece não ser o nosso. Beijos.

Anônimo disse...

Prima li e reli estas reflexões sentindo assim, um nó na garganta! Sabe, me lembrei de quantas vezes tbm me senti assim desprezada ou menosprezada, por pessoas nas quais depositamos tantas expectativas. Sabe, hoje já consigo me entender melhor comigo mesma e não esperar tanto de outros para ficar bem. É bem difícil, mas quanto mais expectativas criamos, mais chances de nos decepcionar. Então, cada vez espero menos para me decepcionar menos. Cada um dá o que tem, não podemos cobrar algo que não podem nos dar, pelo menos em determinados momentos da vida.
Me identifiquei com o tema do texto pq já me senti assim por muitas e muitas vezes!
Prima fique em Paz, por favor transmita um grande abraço á minha tia querida e meu primo ok? Bjooo Ligia Leocádia

Anônimo disse...

Oi. Vi seu post de natal. Você é poeta e pode ter superlativado. Mas você tb é sensivel e pode ter sido sincera. Bom, como pessoa que procura não fazer julgamentos, só tenho a lhe dizer que sou pessoa que sempre está aqui. As vezes qualquer pessoa serviria, nao é? Pois é. A porta da amizade tá sempre aberta. Pergunte às minhas amigas de 2, 10, 20 anos... de todas as classes. Feliz Natal atrasado, com amor, carinho, apreço, respeito, e felicíssimo 2013, com abraços, risos, alegrias, realizaçoes, conquistas, descobertas, superações, amigos e mais amor, carinho, apreço, respeito, etc etc etc ... (palavras boas nao faltam!)... resumindo, tuuuudo de bom!!!Elaine Gonçalves

Eliana Ada Gasparini disse...

Elaine, sua amizade é importante e não abro mão. Idem, Idem, Idem...

Eliana Ada Gasparini disse...

Valeu prima! Solidariedade é uma virtude imprescindível. Conte com a minha sempre que precisar. Bj