“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

22/12/2012

Lembro-me das hortênsias lilases



Lembrei-me da estrada. Desde pequena, durante as viagens com minha família, gostava de ficar à janela olhando as paisagens, numa simbiose com plantas, árvores, montanhas, céu e mar. Calmaria e solidão já reinavam, e vivia perdida em mim, arquitetando pensamentos que se perderam no tempo, mas que às vezes reaparecem...

As hortênsias à beira da estrada que nos levava ao sul eram magníficas –minhas preferidas-precisava levar uma como lembrança. Meu pai parou no acostamento e já com o carro em velocidade, e a enorme hortênsia repolhuda nas mãos, eis que percebo uma aranha enorme e incrédula mexendo-se alvoroçada em sua teia armada entre as pétalas lilases...

Impossível conter o grito de espanto! E se aranha gritasse, poder-se-ia ouvi-la em ecos, desviada que foi de sua vidinha sossegada de caçar moscas, no melhor lugar do mundo, e ter que deparar-se com meus grandes olhos assustadores de gente. Num ímpeto e sem compreender muito bem o que aconteceu, lá se vai a hortênsia, com aranha e tudo, alçar voo de volta para a estrada, atirada que foi, às pressas, pela janela do carro em movimento...

A viagem seguiu carregando minha decepção.

Se queria uma lembrança dessas hortênsias, consegui. Ei-la que surge, assim que vi essa fotografia.  (Ada 22/12/12)

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