“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

12/05/2013

Mãe, a gente vê isso só no fim

Dona Nadir

        Meu coração me diz que quando perder minha mãe, sentirei algo desconhecido até então. Será uma dor nova, nunca percebida antes. Porque as dores e as alegrias são sempre novas, cada uma a seu tempo. Minha mãezinha, com todas as suas qualidades e defeitos que nos tornaram críticas uma da outra, vai completando 82 anos. É o fio da vida que se estica, vão restando poucos metros... Percebo que o amor que sinto por ela vai se fortalecendo para além do forte, vai aumentando para além do maior, vai tornando-a isenta de todas as nossas desafinidades e diferenças, vou aceitando-a como ela é e ela vai tornando-se imprescindível. Minha mãe vai se tornando plena, inteira, insubstituível. E sua ausência - quando lembro que será inevitável - se tornará um quebra-cabeças faltando a peça principal e ficará incompleto para sempre.  

Vai doer muito ter a certeza de que ninguém mais na vida irá me amar com a intensidade do amor que ela me dedicou a vida toda. Nos meus momentos de crise, nas minhas ausências e incompreensões, nos dias que me tornei distante e a magoei, desde o meu primeiro choro de fome, ou nos momentos de alegria compartilhada, desde qualquer alegria boba a todas as alegrias, descobrirei que era feliz por ela existir. E engolirei as ofensas que lhe ofereci e as tristezas que lhe causei, porque elas se tornarão insensatas. E as críticas que fiz a ela diversas vezes, se voltarão, desde já, contra mim, porque é assim que a vida segue, em ciclos que se repetem... Mãe, a gente vê isso só no fim... (Ada, 12/5/2013)

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