“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

25/03/2014

Victor Hugo: Com que direito pões pássaros em gaiolas?




Com que direito pões pássaros em gaiolas?
Que direito tens tu, que o das aves violas?
Por que as roubas das nuvens... auroras... nascentes?
Por que privas da vida esses seres viventes?

Homem, tu crês que Deus, o Pai, faria nascer
Asas p’ra que à janela as fosses suspender?
Se não o fazes, hás de viver descontente?
Que é que te fizeram esses inocentes

Para que os condenasses, com a fêmea e seu ninho?
A desventura deles é o nosso caminho!
Talvez o sabiá, que do seu galho roubamos,
E o infortúnio que aos animais nós causamos

E a escravidão inútil que impomos às bestas
Qual Nero não cairão sobre nossas cabeças?
E se o cabresto então desprendesse os grilhões?
Oh! Quem sabe o desfecho de nossas ações,

E que fruto nefasto estarão produzindo
As cruezas que na Terra perpetramos rindo?
Quando aprisionas sob o ferro de uma grade
Pássaros feitos para o azul da liberdade

Os nadadores do ar que arribam por aqui
– Pintassilgo, chopim, pardal ou bem-te-vi –,
O bico ensanguentado deles – ouve bem! –
Ao se bater nas grades fere a ti também!

Tem cuidado com teu julgamento furtivo!
Deus olha em toda parte onde grita um cativo.
És incapaz de ver que és sórdido e cruel?
A esses detentos abre a porta para o céu!

Aos campos, rouxinóis! Aos campos, andorinhas!
Perdoai o que fizemos às vossas asinhas!
E a ti, pois, da justiça as misteriosas redes,
Pois são masmorras que ornamentam tuas paredes!

Das treliças com fios de ouro nascem bastiões;
A perversa gaiola é a mãe das prisões.
Respeita o augusto cidadão do ar e do prado!
Tudo aquilo que aos pássaros é confiscado

O destino, que é justo, toma dos humanos.
Temos tiranos, pois somos também tiranos.
Queres ser livre, ó homem? Pois pensa primeiro,
Se tens em casa um testemunho prisioneiro...

A sombra ampara aquilo que parece instável.
A imensidade inteira a essa ave miserável
Vem se prostrar; e te condena à expiação.
É estranho, ó opressor, que grites: “opressão!”

Tens sorte agora enquanto tua demência arrasa
A sombra desse escravo no umbral da tua casa;
Porém essa gaiola com a ave infeliz
Encarna nessa Terra triste cicatriz.
-
Tradução de Raul Passos

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