“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

12/04/2014

Onde estou neste sábado

Óleo sobre tela de Jô Cortez

Sábado, um pouco antes da uma da tarde. Salgueiros chorões enormes, debruçam seus galhos sobre um muro de pedra, embalados ao sabor dos ventos de tal forma que lembram uma orquestra de chocalhos, suavemente elaborando uma melodia chiada. 

Contidas pelo muro de pedra, viçosas flores coloridas alimentam borboletas inquietas. No topo da rua íngreme, uma casa branca com janelas azuis, se debruça sobre o azul marinho do céu e vislumbra um mar profundo sem fim com seu prateado sulcado pela brisa, onde reflexos do sol, em código Morse, emitem mensagens indecifráveis. 

Pequenos pássaros de peito amarelo pousados nos galhos mais altos, pipilam tão calmos, enquanto que no telhado um gato preto enorme toma banho de sol com olhos semicerrados de preguiça. 

As ruas da redondeza são estreitas, sinuosas e desertas, ladeadas de árvores altas de copa ampla, com o cheiro amargo que a amendoeira exala e inebria. Imprimem uma semi escuridão em plena luz do dia, regando a pele de quem ali passa de frescor. Caídas ao chão, as amêndoas perfumadas rolam ladeira abaixo indo armazenar um lençol de bolinhas verdes na beira da praia. 

Uma areia fina e cremosa envolve de carinhos os pés descalços. Quando se caminha por aí, o tempo parece fluir muito lentamente. Tudo ali – tirando a vida que transpira seus sons - é silencioso, a não ser pelo ruído, durante o verão, onde essa quietude é radicalmente preenchida pelo canto ensurdecedor das cigarras. 

Num intervalo efêmero entre um canto e outro, ouve-se o marulhar imperceptível do mar quebrando suas curtas vagas em espuma na praia, som perene e melancólico, que exala cheiro de sal e conchas. 

É nesse lugar que estou neste sábado, em pensamentos, cobiçando um lugar ao sol, para ver a lua passar. Quanto à lua, nesse lugar, é uma outra história...

(Ada,12/4/2014)

3 comentários:

Regina Abrahão disse...

Muito, muito bom!

Helena disse...

Amiga, que lindo texto quase pude sentir o frescor debaixo das arvores e o aroma das amendoeiras, alem de ouvir o mar ao longe e os passaros disputando o cantar com as sonoras cigarras. beijocas

lucia teresa faria disse...

como sempre...
vc é demais! bjbjbj