“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

27/06/2017

Oito Poemas de Du Fu

Detalhe do Retrato de Du Fu em nanquim.

Fonte: http://baike.baidu.com/view/2211.htm


Oito Poemas de Du Fu

Por Antonio Graça de Abreu *

Du Fu (712-770) é com Li Bai (701-762), o maior poeta dos trinta séculos de poesia chinesa.

Du Fu viveu em plena dinastia Tang (618-907) em tempos de apogeu do grande império subitamente quebrado por uma cruenta guerra civil – a rebelião do general An Lushan que entre 755 e 763 provocou doze milhões de mortos quando o total da população chinesa rondava então os cinquenta e seis milhões de pessoas – que deixou um país exangue, devastado pela fome e pela guerra.

Toda a vida e também a poesia de Du Fu (leia-se Tu Fu) está marcada, de início, pelos anos de despreocupação face ao dia a dia, uma existência pautada pela alegre vagabundagem de terra em terra, mas logo depois chegaram tempos difíceis, o poeta não conseguiu passar nos exames imperiais e, na boa tradição da sua família, ascender a mandarim. Ganhava umas míseras sapecas ao serviço de poderosos, e mais tarde a pobreza era o seu quotidiano como insignificante funcionário da corte em Xi’an. Depois sobrevieram as doenças, a guerra, a fuga aos conflitos bélicos de província em província sempre na companhia da abnegada esposa e dos cinco filhos pequenos. Um deles haveria de morrer de fome e disso nos dá Du Fu doloroso testemunho em um dos seus mais pungentes poemas.

Os chineses consideram-no o “santo dos poetas” e costumam dizer que os poemas de Du Fu são História em poesia. Todos os graves acontecimentos da época em que viveu aparecem genialmente retratados em muitas das estrofes que escreveu. Por isso conhecemos tão bem a China dessa época e a vida do poeta. Na poesia de Du Fu surge também o gosto pelos simples prazeres de existir, a amizade entre letrados, a passagem por vilas e cidades, as descrições da majestosa natureza por onde o poeta se dilui fazendo parte de um todo, montanhas e rios, nuvens, chuva e céu azul.

Du Fu deixou-nos 1.400 poemas, um dos maiores tesouros da poesia chinesa, e continua, há muitos séculos a ser lido e estudado por centenas de milhões de chineses. O seu legado faz parte da herança cultural dos povos do mundo.

Morreu aos 58 anos, na miséria, na companhia da família na barca onde descia o rio Xiang, na província de Hunan.


Traduzir Du Fu é tarefa impossível. Mas porque é impossível, as traduções acontecem. O poeta chinês burilava de tal modo o correr dos versos, a construção do poema é tão complexa, com permanentes jogos de palavras, alusões literárias, rimas internas e ritmos surpreendentes que muitos dos maiores tradutores para língua inglesa e francesa não têm tido coragem para se aventurar na engenhosa tarefa de o traduzir. Que Du Fu me perdoe a ousadia de tentar verter alguma da sua poesia para a língua de Camões e Pessoa.



OITO POEMAS DE DU FU


Traduzidos por António Graça de Abreu*



Ao entardecer


Raios de sol oblíquos cintilam nas cortinas de pérola,

Flores da Primavera brilham na margem do rio,

perfumes entorpecentes sobem do jardim,

pardais chilreantes acolhem-se entre a ramaria,

nos barcos parados acendem-se fogões para a refeição da noite,

uma nuvem de insectos invade o meu pátio.

Quem inventou este vinho turvo?

Basta uma taça para dissipar dez mil tristezas.



Os cavalos bárbaros do mandarim Fang


Famosos os cavalos bárbaros de Ferghana,

talhados a cinzel, esbeltos, garbosos.

Orelhas espetadas como pontas de bambu,

quatro patas ligeiras para cavalgar o vento.

Nada os detém, por todos os caminhos,

Podemos confiar-lhes a vida e a morte.

Nobres corcéis, dividimos os sonhos,

por mil léguas, abertos à vastidão do mundo.



A beldade abandonada


Filha de família ilustre e poderosa

que o tempo reduziu a erva e pó,

vive hoje esquecida num vale solitário

e não havia mulher mais bonita do que ela!

Mortos os irmãos nas rebeliões do império,

cargos, honrarias não lhes salvaram a vida,

ninguém encontrou seus corpos.

O mundo não se ocupa de quem passa,

a fortuna é chama de uma vela ao vento.

Seu marido, o coração em viagem,

procurou nova mulher, bela como jade.

As flores sabem quando desce a noite

quando os patos-mandarins nadam lado a lado.

Ele só vê o sorriso da jovem concubina,

não ouve o pranto da antiga esposa.

Puras as águas dos regatos na montanha,

lamacentas, sujas ao chegar à planície.

Ela mandou a criada vender algumas pérolas,

comprou comida, colmo para cobrir o telhado.

Agora colhe as flores, não para enfeitar os cabelos,

nos dedos, já se soltam os anéis.

Esquecendo o ar gélido nas mangas de seda,

encosta-se aos bambus e olha o pôr-do-sol.



O recrutador de Shihao


Cheguei esta noite à aldeia de Shihao,

Veio também um oficial para alistar soldados.

Um homem, já idoso, saltou um muro e fugiu

mas a esposa teve de falar com o militar

que gritava, colérico, enquanto a mulher chorava.

“Tenho três filhos soldados na guarnição de Yue,

acabei de receber carta de um deles e a notícia

da morte dos outros dois no campo de batalha.

Os mortos estão para sempre mortos,

sentimos vergonha por continuar vivos.

Agora, resta apenas o meu neto,

um bebê mamando numa pobre mãe coberta de farrapos.

Eu, velha, sem forças, posso partir convosco,

se necessário esta noite mesmo,

poderei servir em Heyang, cozinharei para as tropas.”

Perderam-se as palavras na escuridão da noite,

ouviram-se, de quando em quando, soluços confusos.

Ao amanhecer, ao retomar a jornada,

apenas o velho se despediu de mim.



Balada das carroças da guerra


Como chiam as carroças, como relincham os cavalos!

Marcham os soldados, arcos e flechas à cintura,

Pais, mães, esposas, filhos correm para um adeus,

batem com os pés, rasgam a roupa, barram a estrada, choram,

a poeira não deixa ver a ponte de Xiangyang,

o pranto eleva-se, sobe até às nuvens.

Alguém passa e questiona os soldados:

“Somos recrutados à força,

aos quinze anos guardamos as margens do rio Amarelo, a norte,

aos quarenta, continuamos nos campos de batalha, a oeste.”

Ao partir, os chefes de aldeia colocam-lhes turbantes,

ao regressar, cruzam a fronteira, os cabelos brancos.

Nos campos distantes, o sangue corre como água do mar,

a ambição imperial não tem limites.

Não vêem duzentas vilas a leste das montanhas,

mil aldeias, dez mil lugarejos

onde só crescem silvas e espinheiros?

Mulheres possantes pegam nos arados, lavram a terra,

os cereais crescem, quem os vai colher?

Os soldados de Qin resistem em combates terríveis

levados para a guerra como cães ou galinhas.

Um venerável ancião faz perguntas,

os combatentes não ousam lamentar-se,

mesmo no Inverno, os soldados não param no desfiladeiro.

Os mandarins locais exigem mais impostos,

como é possível pagar ainda mais impostos?

Pouca sorte ao nascer hoje um rapaz,

e que sorte ao nascer uma menina!

A menina pode casar com um vizinho,

o rapaz é para enterrar sob montões de erva.

Não vêem nas paragens distantes de Qinghai

tantos ossos brancos que ninguém recolheu?

Quanta injustiça!

Gemem fantasmas novos, choram velhos,

Um céu cinzento, a chuva encharcando tudo,

quantos gritos e gemidos!...



Em casa do amigo Zheng Zi, letrado do reino de Wei


Felizes esta noite à luz da mesma candeia,

envelhecemos, passaram céleres os anos de juventude,

os amigos, quase todos, partiram para os jardins da escuridão.

Emocionado, sentes o bater do meu coração.

Vinte anos depois, eis-me sentado no teu lar,

eras ainda solteiro no nosso último encontro,

hoje acaricio teus filhos e filhas, tão bem educados,

debruçaste-te sobre eles como outrora

te inclinavas sobres os teus grandes poemas.

Perto de tua casa, a saudação do teu filho mais velho,

quis saber da minha saúde, a família, a terra natal.

Desculpa, rapaz, não te ter respondido,

na altura, eu ouvia o murmúrio das águas no regato

que me conhecem

desde quando eu era pequeno como tu.

A nossa velha amizade, meu caro Zheng,

é um bem, um precioso tesouro,

chegámos à idade em que o tempo do passado

tem mais perfume que ramos lilases em flor.



Bêbado, uma canção


Muitos ascenderam ao topo da hierarquia,

tu, meu amigo, continuas a padecer ao frio.

Nas grandes mansões, empanturrados com iguarias,

tu, meu amigo, mal consegues uma malga de arroz.

A tua filosofia, um coração cristalino, pouca ambição,

o teu talento, superior ao dos letrados do passado.

Respeitado pela tua virtude, condenado, sem glória,

a deixar o teu nome para além dos séculos.

És um rústico que não é desta terra,

De cabelos finos, motivo de mofa e zombaria.

Queres arroz, vais ao celeiro imperial,

obténs ainda cinco colheres por dia,

mas se queres abrir o coração,

vem ter comigo, meu amigo.

Quando ganho umas tantas moedas,

cuido de ti, vamos gastá-las em vinho.

Que nos interessa a pompa, o luxo, as cortesias,

somos gente simples, descuidada e livre!...

Meu mestre, enchemos, bebemos as taças até o fim,

em silêncio na noite da Primavera.

Lá fora, a chuva fina como flores

caindo dos telhados, apagando as lanternas.

Entoamos cânticos, animados, iluminados

por espíritos a montante, a jusante do rio.

Para quê pensar tanto no destino?

Sim, a fome, e por túmulo, uma vala qualquer.

Outrora, um grande poeta lavava canecas de vinho,

um ilustre letrado lançou-se de uma torre.

Quem somos nós, no fim de tudo?

Melhor retirarmo-nos cedo, voltar a lavrar a terra,

cuidar dos telhados de colmo, dos caminhos, do musgo.

Os ensinamentos de Confucio, afinal para que servem?

Sábio, salteador de estradas, todos regressam ao pó.

Para quê tanta tristeza, tanto queixume?

Estamos vivos, vamos beber umas taças de vinho.



Pensamentos de uma noite em viagem


Nas ervas da margem, a carícia suave da brisa,

a barca solitária, o mastro alto na noite,

caem estrelas na vastidão da terra,

nasce a lua, corre o Grande Rio.

Serei um dia famoso entre os poetas?

Velho e doente, o mandarim afasta-se,

vogando ao sabor do vento,

simples gaivota entre céu e terra.




FONTE: Cadernos de Literatura em Tradução – Revistas USP


* António Graça de Abreu

Escritor e historiador português com enfoque na sinologia. Licenciado em Filologia Germânica e mestre em História dos Descobrimentos e Expansão Portuguesa, pela Universidade de Lisboa. Em Pequim foi professor de Língua e Cultura Portuguesa, assim como tradutor das Edições de Pequim no período de 1977 a 1983. Traduziu O pavilhão do ocidente (1985), Poemas de Li Bai (1990), Poemas de Bai Juyi (1991), Poemas de Wang Wei (1993), Poemas de Han-Shan (2009) e Tao Te Ching (2013), além de obras autorais. Recebeu o Prêmio de tradução da Associação Portuguesa de Tradutores e Pen Club por Poemas de Li Bai, em 1990. De suas andanças por mais de 36 anos na China sairá em breve Toda a China I em 2013 e Toda a China II em 2014. Contato: abreuchina@netcabo.pt 


O escritor acaba de lançar o livro Poemas de Du Fu em Lisboa, neste 26/6 conforme noticia:

https://pontofinalmacau.wordpress.com/2017/06/26/entender-a-china-atraves-dos-poetas-poemas-de-du-fu-e-lancado-em-lisboa/#comment-29194

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