“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

08/03/2008

Dia da Mulher: homenageio Nise da Silveira

Nise da Silveira e seu gato
Quero comemorar este 8 de março, dia da mulher, meu dia. Pensei em poesia, imagens bonitas, história, músicas e, de repente, decidi que o melhor a fazer seria falar sobre uma mulher relevante. Uma que tivesse um papel importante e que fosse transformadora, imprescindível para o progresso e avanços da humanidade. Mas também, uma mulher que eu tivesse afinidade. Daí descobri uma mulher fantástica! Vou falar da psiquiatra que inovou no tratamento usando os gatos como terapia, era marxista e militou na ANL-Aliança Nacional Libertadora e é uma das personagens de Graciliano Ramos. Bastante afinidade por sinal!
Nise da Silveira nasceu em 1906 em Maceió, Alagoas. Formada pela faculdade de medicina da Bahia em 1926, dedicou-se à psiquiatria sem nunca aceitar as formas agressivas de tratamento da época, tais como a internação, os eletrochoques, a insulinoterapia e a lobotomia.


Foi presa como comunista, e afastada do Serviço Público de 1936 a 1944. Nise da Silveira foi militante da Aliança Nacional Libertadora ( ANL). Durante a Intentona Comunista foi denunciada por uma enfermeira pela posse de livros marxistas. A denúncia levou à sua prisão em 1936 no presídio da Frei Caneca por 15 meses. Neste presídio também se encontrava preso Graciliano Ramos, assim ela tornou-se uma das personagens de seu livro "Memórias do Cárcere". De 1936 a 1944 permanece com seu marido na semi-clandestinidade, afastada do serviço público por razões políticas. Por dois períodos, em 1957/58 e 1961/62, estudou no Instituto C.G. Jung. É autora de seis livros, entre eles Imagens do Inconsciente e Cartas a Spinoza Nise faleceu em 30 de outubro de 1999, na cidade do Rio de Janeiro.



Emoção num pedaço de veludo


Trecho de "Gatos, A Emoção de lidar" da psiquiatra Nise da Silveira


"Entre 1946-1974 dirigi a seção de terapêutica ocupacional no Centro Psiquiátrico Pedro II. Optei por utilizar como método a terapia ocupacional, método considerado de importância menor e até mesmo subalterno. Contudo, minha intenção era reformá-lo completamente. (...) Para nós faltava-lhe algo, faltava-lhe emoção. Foi quando certo dia um rapaz freqüentador da Terapia Ocupacional, em vez de entrar numa das salas de trabalhos masculinos preferiu entrar na sala de atividades femininas atraído pelas qualidades latentes que pressentia existirem num pedaço de veludo estendido sobre a mesa da sala. Dirigiu-se à monitora Maria Abdo e perguntou: 'Posso com este pano fazer um gato?' (...) Completado o gato, Luis Carlos tomou um lápis e escreveu:


Gato simplesmente
angorá do mato
Azul olhos nariz cinza
Gato marrom
Orelha castanho macho
Agora rapidez
Emoção de lidar

Enquanto manipulava seu gato de veludo, com surpreendente habilidade, Luis Carlos parecia feliz e disse: 'Como é macio! Sinto grande emoção de lidar com ele entre minhas mãos'. Essa expressão Emoção de Lidar foi ponto de partida para substituirmos o pesado título Terapêutica Ocupacional"





Na entrevista para a Revista Época:


Época: Por que sua admiração pelos gatos?


Nise da Silveira: Cultivo muito a independência. Por isso gosto do gato. Muita gente não gosta pela liberdade de que ele precisa para viver. No circo você vê tigre e urso, mas não vê um gato. O gato é altivo, e o ser humano não gosta de quem é altivo.


Época: A senhora foi pioneira no uso de animais no tratamento de doentes mentais, hoje muito mais usado na Europa que no Brasil A psiquiatria avançou bastante aqui?


Nise: A introdução de animais como co-terapeutas foi o que em minha vida mais me fez sofrer. Fui ridicularizada. De modo que me liguei muito a outros países onde a psiquiatria era mais desenvolvida. Há várias correntes de tratamento, muitas hoje eu nem conheço. Mas não houve um grande avanço. Ainda se confia muito no remédio. Remédio não me parece muito eficiente. Pode ter efeito paliativo, mas não curativo. Confio mais no afeto e na ação curativa da alegria.


Época: A senhora chegou a ser presa como comunista, no Estado Novo. Hoje, como a senhora vê o mundo?


Nise: Felizmente fui presa no tempo do Getúlio. Se fosse no do Médici, eu não estaria aqui falando com vocês. O domínio do capitalismo parece que não está trazendo nada de muito bom. Também o comunismo teve suas grandes falhas, que são da natureza humana.


Época: A senhora ainda acredita em utopias?


Nise: Não. Desejo um mundo socialista, justo, mas não vejo como poderia se realizar. Quem dera o mundo fosse bom, mas não é. O que há, ainda, são pessoas boas, como o Betinho, que lutou até o último momento.


Museu de Imagens do Inconsciente


Inconformada com os métodos violentos de tratamento psiquiátricos como o eletrochoque, o coma insulínico, a lobotomia, a psiquiatra Nise da Silveira encontra na terapêutica ocupacional uma forma de tratamento para os usuários de saúde mental. Funda então, em maio de 1946, a Seção de Terapêutica Ocupacional no antigo Centro Psiquiátrico Nacional do Rio de Janeiro, atual Instituto Municipal Nise da Silveira. A produção dos ateliês de pintura e de modelagem foi tão abundante e revelou-se de tão grande interesse científico e utilidade no tratamento, que deu origem, em 1952 ao Museu de Imagens do Inconsciente. Ao perceber que a responsabilidade de cuidar de um animal e o desenvolvimento de laços afetivos pode contribuir para a reabilitação de doentes mentais, Nise da Silveira os incorporou a seu trabalho como co-terapeutas.


Felinos e as janelas da mente


Nise da Silveira, veterana no combate aos métodos tradicionais de psiquiatria, escreve um pequeno e encantador tratado sobre gatos Aos 93 anos, Nise da Silveira está apaixonada. "Ele é lindo!", suspira a psiquiatra, quando pensa em Belo Antônio. Cinzento e felpudo, Belo Antônio é um das dezenas de gatos que habitam o Parque do Flamengo, área verde do Rio de Janeiro que a médica visita quando o tempo permite e a saudade de Carlinhos aperta.


Frases de Nise


"Um diálogo é estimulante. A solidão também. "
"Não me atrevo a definir a Loucura "
"As coisas não são ultrapassadas tão facilmente, são transformadas."
"Os gatos são excelentes companheiros de estudos, amam o silêncio e cultivam a concentração."
"A palavra que mais gosto é liberdade. Gosto do som dela."
"É indestrutível a criatividade, está em toda a parte."
"Não sou muito do passado. Sou do futuro, quem olha muito para tras, fica."
"O que melhora o atendimento é o contato afetivo de uma pessoa com outra."
"O que cura é a alegria o que cura é a falta de preconceito."
"Eu poderia ter feito um livro que acentuasse mais as maldades que as pessoas fazem com os animais. Mas a tristeza não acrescenta muito"
"Desejo um mundo socialista, justo, mas não vejo como poderia se realizar" "Quem dera o mundo fosse bom, mas não é"
"O domínio do capitalismo parece que não está trazendo nada de muito bom."
"Estou cada vez menos doutora, cada vez mais Nise."
Saiba mais:
http://www।museuimagensdoinconsciente.org.br/index.html


http://www.ccs.saude.gov.br/nise_da_silveira/homepage.html

Um comentário:

Ada disse...

Ontem, 30 de outubro de 2009, faz 10 anos que Nise faleceu. Minha amiga Sandra fez uma homenagem a ela. Para ler acesse aqui:
http://lojagerminar.blogspot.com/