“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

26/03/2009

Dèja vu

Ruas e calçadas calejadas. As árvores cascudas e negras de fuligem e petróleo, resistem ao cimento que encobre suas raízes. As folhas que, ora voam com o vento outonal, ora com os carros velozes da avenida, não são apenas as folhas dessa estação, têm alma milenar. São árvores de uma provável floresta que tomava conta do paraíso [o bairro] e que agora, prestando atenção às suas calçadas rachadas e sujas de papel e plástico, tão pisadas que são pelos pés dos transeuntes sempre agitados indo para não sei onde e vindo para não sei o quê e também não são apenas as pisadas do dia de hoje, mas as de dezenas, centenas [?] de anos. 


Eu mesma passei por alí desde anos atrás. Não sei o que percebi ou o que senti, que sapatos usei, ou quais eram os detalhes, cores e cheiros daquela avenida [a Paulista] há trantos anos. Isso na verdade nem importa. Esse tempo é pequeno para grandes transformações. 


Hoje, numa fração de segundos, me senti também calejada ao passar por ali. E esse intervalo de tempo pareceu estar parado. Os sons da rua se calaram e como se estivesse dormindo e acabado de acordar, tive um déjà vu. Por um instante, as marcas invisíveis das milhares de pegadas de gente na calçada, das folhas que todo ano caem mortas, perturbaram meu coração. Onde estive esse tempo todo? Que sonhos eu tive naquele dia ensolarado, ou chuvoso, em que deixei minha pegada alí? 


Moça de cabelos longos encaracolados, certa vez de barriga grávida, outra, de riso grande de satisfação por ter visto um filme engraçado, ou por ter tomado uma sopa que vem dentro do pão italiano, lá no Café França; ou comer um Mac Donald´s [empurrada] só prá fazer companhia às crianças; comer um bauru no Ponto Chic com o namorado, um doce ou entrar na papelaria e comprar canetinhas coloridas, trocar o óculos na fotótica; ver os fogos na passagem do ano em que a viagem à praia gorou; manifestações de solidariedade pela paz; manifestações contra a guerra; pelo time que foi campeão; pela obra de arte roubada; ah! Tanta coisa se faz e fiz por ali. Que tanta coisa se faz e fiz esses anos todos? 


Tudo que se faça e fiz, é apenas uma migalha de tranformação que o tempo exige para evoluir. Não quero pensar que foi nada. Só tomando uma cerveja pra descrever um déjà vu desses! (Postado por Ada às 9:09 PM de 25 de Abril de 2008)
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Cometários recuperados:
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Lucia disse...
Oi querida, você escreve lindamente e me emociona sempre...sei que estou em falta, muita coisa aconteceu e não te contei, sossegue, quase tudo é muito bom e o que não foi bom tratei de transformar em delicias, vc sabe como é isso... Definitivamente gostamos de muitas coisas iguais, usei o texto da lua laranja uma vez na FAU pq ele me tocou muito e por falar em lua ontem em Itapecerica vi uma das luas mais lindas da minha vida. Este texto diz coisas que me tocaram muito... fizemos essas coisas né? Saudades Beijo no coração. 26/4/08
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Arqstein disse...
Ada... Lembranças tantas que nos assomam, somatório de momentos que nos marcam e que são enfim nossa vida. Escreves lindamente teus sentimentos e tua trajetória, que é rica e densa. Gosto muito de te ler. E embora meia sumida, sempre lembro de ti. Beijos, Elenara 26/4/08
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Anônimo disse...
Menina, Lindo o seu "Déjà vu". Adorei! Sempre achei você super sensível, profunda e expressiva... mas nesse texto você me surpreendeu. Quer dizer... eu me surpreendi no entendimento e na identificação. São coisas que eu sinto - não em relação ao Paraíso, posto não ter vivido ali, mas em relação a outros lugares, épocas, coisas e pessoas - e nunca consegui expressar. E tenho certeza de que muitas e muitas pessoas fizeram suas - de cada um individualmente - as palavras expressas... expressas, não, sentidas por você. Um grande beijo Reny PS: continuo esperando aquele chopínho 27/4/08
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Anônimo disse...
Continue escrevendo ! Escreva SEMPRE! Tudo muito lindo !!!!!!!!!!!!!! e as fotos . . . MARAVILHOSAS! BJS Eliane Facini 27/4/08
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Anônimo disse...
Ciao Ada Eliana, interessante il tuo sito ed grazie per il suggerimento di sbirciare su google earth. Se vuoi vedere tutta la fondamenta della Giudecca, vai a guardarti http://www.lucavascon.net/. Luca Vascon è un amico che vive alla Giudecca. Io sono seduto al bar con un amico che si stà sedendo. Cerca e vedi se mi scopri. A presto, baci, Paolo 27/4/08
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Anônimo disse...
Ada, Ada! Que pureza de alma, que sensibilidade maravilhosa ... Amei ! Estou lendo o seu blog aos pouquinhos, do mesmo jeito que se come um doce que não quer acabar ... rs Bjk Te admiro!Tê (Teresa Angulo - Conselheiro) 27/4/08
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Anônimo disse...
Ada rima com fada, fada rima com gata, se eu não fosse vira-lata te mandava um beijo.
Que lindo o blogue, Ada: agora eu sei que atrás do email de recepção dos colunistas se esconde uma poetisa (ou poeta) maravilhosa, uma rosa vermelha, perfeita. Saudações, José V. 27/4/08
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Turandot disse...
Olá Li. Eu também tenho boas história na avenida Paulista, algumas apaixonantes (lembra que me disse que sou passional?). As tres São Silvestres que corri sempre e cuja a linha de chegada fica na frente do Edificio Gazeta me fazem chorar só de lembrar. Lembro da primeira novidade, corri contra quer dizer a favor de mim mesmo, eu queria era conhecer meu limite, cheguei radiante, foi ao contrário do que disse Cazuza em sua canção, não teve podio de chegada mas ganhei beijo da namorada. Na ultima que corri o calor estava forte, lutei muito pra chegar, quase desisti e quando cheguei chorava muito por ter vencido pela força de minha vontade. Fiquei aqui imaginando tuas cenas lá. Um abraço apertado. 28/4/08

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