“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

21/03/2009

Fernando Pessoa no Parque do Ibirapuera

Fernando Pessoa "esculpido em pedra" (foto Ada 15/3/2009)

Em vários lugares da cidade de São Paulo, nos deparamos com estátuas vivas. Domingo encontrei várias delas no Parque do Ibirapuera. Elas sentam-se com calma e desfilam suas maletas de pintura ali mesmo diante do público. No camarim a céu aberto se preparam para mais um dia de estátua. Se transformam em pedra, bronze, ferro, mármore. Incorporam gregos e troianos. Depois dessa longa e cuidadosa transformação, respiram fundo, sobem no pedestal e concentram-se para não rir, piscar ou mover-se. Impressionam. A criançada faz careta, planta bananeira, aponta o indicador e alguém mais espirituoso conta uma piada, todos riem e tiram fotos (inclusive eu). Mas ela permanece irredutível, imóvel. Isso garantirá moedas em seu chapéu. Quanto mais perfeito o personagem, mais moedas. Que trabalho inusitado! É como andar na contramão. Num calor de 30ºC entre risos e tilintos de bicicletas, latidos e gritos, muita cor na pouca roupa, entre pássaros e pernas pedalantes, ela, o inverso. Enquanto tudo é um perfeito movimento caótico, ela permanece no seu silêncio organizado. É um momento. Um instantâneo. Uma foto flutuante. Fica imóvel com seu pensamento. Única. Diante da leveza dos corpos num domingo cintilante, ela se propõe ao peso da pedra esculpida, ao peso dos séculos de existência do seu personagem. E quando o público se cansa de esperar, ela então muda a pose e acena um agradecimento em movimentos lentos, quebrados, que é para não perder o encanto. Oferece um bilhetinho que explica quem é. E o povo em revezamento, aplaude e vai embora tagarelando: Fernando Pessoa... * E por falar nisso, achei um poema dele que parece feito para essa estátua... Pousa um momento Um só momento em mim, Não só o olhar, também o pensamento. Que a vida tenha fim Nesse momento! * No olhar a alma também Olhando-me, e eu a ver Tudo quanto de ti teu olhar tem. A ver até esquecer Que tu és tu também. * Só tua alma sem tu Só o teu pensamento E eu onde, alma sem eu. Tudo o que sou ficou com o momento E o momento parou. * Fernando Pessoa Poesias Inéditas 12-12-1919 (Ada 21/3/2012)

Um comentário:

Maria Paula Ribeiro disse...

Olá Ada,

Agradecida por seguir o meu blogue.
Gostei do seu cantinho.

E ler Fernando Pessoa, que me é muito querido, foi uma bela surpresa.

Abraço