“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

22/03/2009

Vida de pipa

Pintura: Marcos Andruchak

Os ventos mais fortes avisam que é a hora delas subirem, dançantes, decididas ao ôco azul do céu, que nessa época do ano é quase todo limpo de nuvens. Alçam seu vôo com a missão de exibir sua graça, desenvoltura e força. Subir e subir e ganhar aqueles céus gelados de julho, empolgadas com o incentivo de seu criador. 

Marionetes dos meninos que, agarrados às suas almas de papel de seda, ganham sua liberdade através delas. São pipas sorridentes, com os cabelos esvoaçantes e que olham tudo lá de cima. São os olhos dos meninos que aqui na terra sonham em ganhar o mundo. 

Todo menino um dia cria sua pipa com a técnica milenar que parece vir no DNA da molecada. Uma coisa que não se aprende nos livros. É mesmo coisa de menino, apesar de eu mesma ter segurado pipas que meu pai fazia, quebrando esse tabú de brincadeiras separadas entre os gêneros. 

Ela me puxava, chamando-me para ir com ela. Nem podíamos mais ver a expressão de alegria uma da outra, ela subia até perder de vista. Mandávamos bilhetinhos que, dobrados pela linha, subiam como se tivessem vida própria. Depois eram checados se foram lidos quando a pipa voltava à realidade do chão... e a tinta da escrita sempre vinha escorrida como uma carta de amor lida sob as lágrimas da saudade. 

Depois de horas a fio treinando vôos panorâmicos ela vinha úmida, desbotada, mas com a alma renovada, cheia de sabedoria, cansada das alturas, dolorida dos solavancos e machucada pelo vento. Sua vida é sempre curta, mas intensa. O cansaço do vôo rasga sua face e quebra seus ossos de bambu. Nas alturas elas travam uma guerra entre sí, mas uma guerra que não é delas e que, como todas as guerras, são inventadas. Muitas não sobrevivem ou se perdem em outras paragens. 

Seus cabelos, caudas de plástico, permanecerão até o próximo inverno, enroscados nos postes e fios de energia, perfeitos cemitérios, testemunha de que viveram grandes aventuras. Ficarão como um suvenir da temporada. Sua vida efêmera será a longa vida das lembranças da infância que, por várias gerações, ganham os corações dos homens sempre meninos e do meu, sempre menina. (Ada 22/3/2009)

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Comentários feitos a essa postagem que foram excluidos por engano e recuperados:

Elaine disse... Oi Li, Faz pouco tempo que conheci esse seu lado de cronista. Estou achando muito legal. Gostei dessa também. Saiba que agora vou olhar com outros olhos as rabiolas que ficam amarradas aos fios elétricos. Não mais como sujeira, mas como parte de uma brincadeira que eu também gostava muito.Beijos Elaine 28/7/08
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Pupi disse... Muito terno Ada... que coisa bonita que é a gente criança pra vida interia não é?Parabéns! Agora também poderei acompanhar-te por aqui. Que maravilha!!! beijos Carla 1/8/08
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Anônimo disse... Ada, tuas crônicas têm o jeito dos cantos mais poéticos da cidade de sampa, aqueles buraquinhos entre as esquinas, aqueles vãos durinhos entre os sotaques. É o que tu juntas aqui nas crônicas belezas que se perdem tão devagar que é difícil catá-las pelo chão de sampa. Mas tu bem o sabes.Um abraço do Alexandre 3/8/08 
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Juliano Albuquerque disse... Ada, parabéns pela sensibilidade com as palavras tão maravilhosamente casadas à pintura de Andruchak e ao tema da obra deste grande pintor brasileiro. Ao ler seu texto senti-me imerso neste belíssimo mundo da arte que me apaixona. Ver cores e sentimento na alma de suas linhas mostra a energia com que registra cada momento através de palavras, tudo absolutamente em perfeita sintonia à obra de arte que escolheu para ilustrar seus pensamentos. Parabéns! 5/12/08 

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