“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

08/04/2009

Filosofia de Dona Estamira



Caminhando com meu cachorro Caillou, como faço quase todos os dias, me deparei com a filosofia no muro. Fui por vários quarteirões com a frase na cabeça, tentando interpretá-la. As palavras ficaram em circuito no cérebro, feito faísca, provocando choquinhos, daqueles que se toma na torneira do chuveiro. Fiquei pensando em quem e porque a pixou no muro... 


Muito dialética a frase. Tem sabedoria que se percebe popular, sem toque teórico. É correto dizer que imaginando alguma coisa, que talvez nem exista no meu universo de conhecimento, que o movimento de imaginar ou que a existência da imaginação que me faz criar algo, a torna matéria. Ela passa a existir. Portanto, "tudo que é imaginário, existe, é e tem"... fantástica essa Dona Estamira! 


Daí pensei em quem era Dona Estamira. O que eu não sabia é que essa tal dona existe de fato. O filme dirigido por Marcos Prado, diz que Estamira é uma mulher de 63 anos que sofre distúrbios mentais e que durante 20 anos viveu e trabalhou no Aterro Sanitário de Jardim Gramacho no Rio de Janeiro. Carismática e maternal, Dona Estamira convive com um pequeno grupo de catadores idosos num local renegado pela sociedade, que recebe diariamente mais de oito mil toneladas de lixo produzido no Rio de Janeiro. 


Vencedor de 33 prêmios nacionais e internacionais nos principais festivais de cinema, sucesso absoluto de crítica e documentário de maior público nos cinemas brasileiros em 2006, Estamira levanta questões de interesse global, como o destino do lixo produzido pelos habitantes de um metrópole e os subterfúgios que a mente humana encontra para superar uma realidade insuportável de ser vivida. 


Dona Estamira vive em função de sua missão: "revelar e cobrar a verdade dos homens". Do lixo da civilização, ela supera sua condição miserável e coloca em questão valores fundamentais, muitas vezes esquecidos pela sociedade. Ufa! E assim caminhamos, a humanidade! Uma frase pixada num muro, ao lado de minha casa, na periferia de São Paulo, que seria apenas um registro curiososo para o blog, me tirou da ignorância a respeito da senhorinha e de sua fantástica filosofia de vida. Já encomendei o filme e estou louca para assistir!

3 comentários:

Pensadora disse...

Às vezes não nos damos conta da sabedoria dos mais humildes. Vez por outra me deparo com grandiosidades, como a de um morador de rua que ao receber um cobertor disse: "na rua o cobertor é nosso teto". Para mim foi a mais perfeita definição do que é morar na rua.

Ótima postagem!

Bjs.

Alexandre Prestes disse...

A Filosofia nada mais é que a capacidade de interpretar o mundo em sí, ou como dizem os fenomenologos, é o ser-no-mundo, e, para isso não é necessário título, instrução ou mesmo consciencia disso, basta ser-no-mundo, mudar o mundo e ser mudado por ele ....
Profundo não ?
bom texto, Abraços

Izabel M. M. disse...

Ah! Ada! Prazer, vc ñ me conhece, mas eu achei seu blog, e vi essa foto e antes de terminar a frase lembre do filme, lembrei da Estamira. E é um filme ótimo...e essa frase... pelo que vi das fotos...vc costuma andar pelo bairro da consolação/ santa cecília... né? conheço um pouco de lá, acho q reconheci nas fotos... bem... estou fazendo um trabalho sobre uma ong, a Rede Rua, que tenta ajudar moradores de rua, estou procurando fotos de grafites e de moradores de rua, posso usar essa da frase? não vou ganhar nada com o trabalho além de nota, rs. Pode me mandar um e-mail: izabel.meo@gmail.com sucesso com o blog! adorei seus textos!