“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

01/05/2009

Viagens ao teto

Dorberto, um poeta amigo meu, escrevendo sobre esse assunto, me fez lembrar dessa minha aventura em desuso há tempos que é analisar o teto do quarto. Apurando os olhos vai-se distinguindo as imperfeições, invisíveis a olho nú, do cimento e dos movimentos imperceptíveis da trincha ao pintar, sempre de branco os nossos tetos. Na ociosidade dessa contemplação, é preciso aprofundar as possibilidades. Há que se ter um tempo eterno parado dentro dos minutos e não ve-los passar aos segundos e sim aos séculos. O homem da caverna já fazia esse exercício. A luz bruxuleante de sua fogueira projetava no teto e nas paredes os animais a serem caçados dentre os mistérios da noite. Depois de tudo explorado aos detalhes, há que se esticar na cama e deslizar com a cabeça até deixá-la pendurada. De cabeça para baixo consegues imaginar que o teto é o chão e o chão é o teto. Colocar seu mundo de cabeça para baixo não é fácil, é um exercício capcioso que reedita toda a compreensão que se tem do mundo. Assim, a lâmpada ilumina de baixo para cima e há que pular as portas. O teto é carregado de objetos que a qualquer momento podem cair-lhe à cabeça... tens que andar descalço pois o piso é todo branco meu amor. As janelas são baixinhas e tens que exercitar andando além do quarto... além do hall... além das escadas... até passar os portões da rua e ganhar, então, o céu!
(Postado originalmente em 20 de julho de 2008 por Ada às 7:40)
Comentários feitos
Beth disse... Olá Ada! Muito interessante o seu blog! E pelo visto temos algo em comum! Os gatófilos se encontram em qualquer lugar, não? Adorei o irmão gêmeo do Bilbo! Abraço! 21/7/08
Andre Luis Aquino disse... Viajar pelo teu mundo é um pouco como viajar pelo meu. Eu também ando as voltas com as voltas do tempo. "Seu tempo mandou perguntar quanto tempo o tempo tem." Uma menina que já foi minha menina brincava com essa musiquinha.No fim o tempo transforma tudo em tempo. Um abraço grande! 21/7/08
Dorberto disse... Vi, li, gostei muito. É de uma delicadeza segura, coisa de quem escreve bem. 22/7/08
Elder disse... Temos aqui uma escritora. Por que você não está no prosa@poesia do Vermelho? Linda a condução do texto que, invertendo-nos, insta-nos a caminhar no céu e a rever nossas assentadas referências. 26/7/08
Mayra disse... Mãe, como não apreciar seus escritos??? Impossível! É gostoso de ler, faz a gente viajar nas palavras como se estivesse vendo tudo que descreve logo ali na frente. Parabéns, mamãe! Enorme beijo! 27/7/08

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