“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

25/07/2009

Pagando o pato


Mayra com seu 1º pato

No lago do condomínio, uma multidão de patos perambula pelas margens. Ora deslizam como que levitando sobre as águas e mergulham a cabeça para a comilança de girinos e caracóis, ora rebolam sua cauda nas andanças complicadas em terra, por conta dos pés palmados. Engraçadinhos povoam o espaço com seus grasnados num "conversê" sem fim. 

Naquela manhã ensolarada viemos visitá-los. Não todos, apenas um. Este era especial porque quando pequenino fora escolhido a dedo comprado numa barraca de feira e tratado com carinho de nome "todi", mas de apelido "quaquá". A intenção de ter um pato era boa, um animalzinho de estimação pequeno e fácil de cuidar ajudaria a dar responsabilidade a uma criança. Mas ele cresceria e precisaria de espaço e de amigos. E afinal patos gostam de água. 

Essa foi a versão contada à criança por ele ter ido embora sem se despedir. A historia agora se dava alí na beira do lago, pato já crescido, misturava-se ao branco das penas sob o sol. Uma pequena oscilação de cores em tons pastéis unificam o bando, tornando-os um só. Ver um é ver todos. Ainda mais assim esparsos na grama e na água. E por isso mesmo, alí, naquele domingo brilhante, era possível distingui-lo no meio de todos. Essa era a ilusão desejada. Um deles era o Todi, já mocinho e irreconhecivelmente reconhecível. 

Era mais doce fantasiar que ele vivia feliz entre os seus iguais, nadando num lago tranquilo e cheio de guloseimas do que saber a verdade de que morrera num balde de sabão na área de serviço do apartamento. Até hoje esta história gera polêmica quando lembrada entre nós. Enganar uma criança numa situação destas é justo? Quando adulta ela soube da verdade já digerível, mas inconformada pelo engano percebe o quanto a fantasia rodeia o mundo dos inocentes. Creio que também traz uma séria reflexão. 

Injusto, julgo hoje, é usar um animal para o comércio e para deleite e capricho da gente, sacrificando-o a viver fora de seu habitat, ou servindo de alimento, ou alterando completamente a natureza considero crueldade. A mentira agrega peso nesta história. 
Tudo pode ter sido correto, afinal a verdade é relativa e condiz com uma dada realidade, só não considerei o sofrimento que a tragedia causaria ao pobre pato. Faço um "mea culpa" e pretendo que meus netos e as futuras gerações tenham uma consciência muito mais elevada que a minha. Haverão de respeitar a natureza e defender os animais com unhas e dentes. 

À minha filha me resta pedir desculpas por estas falhas. (Ada, 25/7/2009)

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