“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

27/10/2009

Coisas que perdemos na vida


devo ter escrito, e foi muito tempo atrás, sobre isso ou sobre aquilo, no relâmpago de memórias e inspiração. Mas, muita coisa perdida está. O incômodo de se perder coisas perpassa nossas vidas e todos sabemos relatar seu tamanho e importância. Algumas perdas são doloridas, outras apenas fazem pena. Na adolescência também andava com um caderninho e uma caneta em punho e, na rua, no ônibus, na aula, vinham os pensamentos sobre o que via, ouvia e escrevia-os. 

Produzi naquele tempo, uma coletânea que chamei "seção verde-amarelo": o vendedor de algodão doce ou de caramelos em forma de guarda-chuva, o cata-vento colorido na porta do Museu do Ipiranga, um sapatinho de bebê tricotado com lã azul que fora pendurado como talismã no retrovisor do ônibus, devem ter sido o estopim para tomar gosto em relatar coisas populares e viajar numa realidade inventada: "Uma brasileira com seu bebê aos berros de fome, cheia de sacolas e leite no peito, deixou o sapatinho cair no amontoado de gente trabalhadora que vai e vem no ônibus todos os dias." O sapatinho virou amuleto do motorista e eu sinto tanto esta perda das coisas que pensei e fiz... 

Tenho saudade do que escrevi e ninguém leu. Acho que estes contos estavam num lote de escritos, entre os poemas de amor, [ah! a dor do amor o alvo da minha fúria] que ateei fogo, e pronto! Decisão arrebatada para esquecer esse assunto de paixão, que tira o sono e embola o estômago, intuito de apagar lembranças, acalmar meu coração, virar a página; desistir da mania de ler e reler a página da vida até nada mais poder extrair dela, até concluir que tudo foi interpretado. Até poder virá-la e, se precisar, rasgá-la, incendiá-la. 

A coletânea de escritos se perdeu nesse ímpeto. Os amores, também. (Ada,27/10/2009)

2 comentários:

Andre Luis Aquino disse...

Pensei numa certa canção" Quando me chamou eu vim
Quando dei por mim tava aqui
Quando lhe achei, me perdi
Quando vi você, me apaixonei".Tem coisas que perdemos pelo caminho porque é só na curva do rio que escutamos o barulho da cachoeira.Adorei seu texto.

lucia teresa faria disse...

éhhhhhhhhhhhhh dona bonitinha...
vc sabe o estou pensando...
perdemos (muito) e achamos(maravilhas)tantas coisas né???
beijinho
lucia