“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

23/10/2009

Sampa e seu crepúsculo dolorido


O crepúsculo nas ruas do centro de sampa é dolorido. Uma febre agita as pessoas e as buzinas na 7 de abril com a São João ecoam por quarteirões a fio, posso ouvir daqui. O sol, que ardia há pouco, reclama da sua queimadura nas costas e com a cara cor de laranja se esfrega nos arranha-céus caindo de cansaço de tanto esquentar o dia. 

A penumbra cai vertiginosamente sobre as pessoas formiguentas e tagarelas. Tudo range. Tudo se apressa, como num presságio de vento e chuva e frio. Os ratos se agitam no subterrâneo dos bueiros. Se parasse para olhar nas grades de ferro espalhadas pelas calçadas e ruas, veria no meio do lixo cheirando mal, a ansiedade da espera da noite. A poeira da cidade, sempre em contrução, vai assentando-se pelas frestas e buracos, sempre abertos, sempre abrindo-se. 

O crepúsculo na minha cidade é assim imediato. A luz difusa esparrama um cinza sobre a feiura que logo mais vai se maquiar com as cores da noite. Minha cidade incansável vai enxotando seus transeuntes e se preparando para receber as luzes tramadas pelos homens. Vai se enfeitar como para uma festa, pois que ela não para não. Então, se tornará outra, mais bela. Os copos vão tilintar brindes por aniversários sem fim e a noite virá desfilar seus mistérios pelas ruas mais vazias, rebrilhar a lua sobre seus rios poluídos. 

A noite urge. E cheia de história e pressa, desaba-se sobre o crepúsculo fugaz da minha querida cidade. (Ada, 23/10/2009)

3 comentários:

Mayra disse...

a cada dia escreves melhor.... Fico orgulhosa de vc, mãezinha!!!!!!
Este me deu um pouco de aflição.... Falta de ar! Mas afinal, nossa cidade é assim!!!!!
beijocas

Elenara Stein Leitão disse...

Concordo com a tua filha, escreves divinamente. Mas apesar de tudo, São Paulo é uma cidade fervilhante e bela para quem a sabe ver.

beijos

Anônimo disse...

V. já sabe como aprecio o seu blog. Blog é sempre o brilhar do efêmero. Creio que uma coletânea de crônicas ( essa maneira de nos ensinar a ver o eterno fugaz, o absoluto no efêmero) permitiria que tivessemos uma apreciação de como v. encara o que passa e repassa em nossa visão, obscurecida pela esquiva e movedição cidade, sempre a se esconder e revelar-se, ora sombra, ora luzes. Passo pela cidade e não a vejo, nem suspeito do que se esconde na hora e no horizonte do sempre provável. Esta é a cidade e não a encontro!
Tudo de bom para os gatos e os que se supõem humanos.
S.