“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

04/11/2009

Comer içá: o inusitado é uma iguaria

Tudo fora de mim está morno. As paredes, o chão, o ar. Sinto no pelo dos braços. Respira-se o morno, e é morno o azul do céu e todos os cheiros. Essa mornidade deliciosa também está por dentro. Chega a ser felicidade estar morno assim. É calmo, é quieto. Há silêncio e sonolência. Há um cheiro de mel no ar. É primavera. Só ali, naquelas cidades do Vale do Paraíba [em Taubaté nos idos de 1980] consegui sentir tal mornitude silenciosa. Será o Rio Paraíba, ou será a brisa marítima que atravessa, percorre e inunda as entranhas de tudo?

Diante dessa quietude que vai até as fronteiras das serras do Mar e da Mantiqueira, avisto o pasto verde a se estender para o alto arredondado da montanha. Depois da chuva de setembro, que também cai morna e evapora ao mesmo tempo, tudo adquire um brilho de tal transparência que mostra a alma das coisas, o seu avesso. Nesses dias, as içás saem dos seus túneis subterrâneos para o vôo nupcial e, numa dança inocente alcançam o céu. Nesse momento é que o bicho homem, feito um tamanduá, disputa com os pássaros o que será, logo mais, transformado numa iguaria. Foi aí que conheci este costume de toda a gente do Vale do Paraíba: comer içá.

Monteiro Lobato [que nasceu em Taubaté] foi um grande apreciador da iguaria e a ela se refere em vários textos de sua obra sempre plena de indicações de caráter folclórico. Lobato, certa vez, disse que a içá é o caviar da gente taubateana.

Tinha que descobrir. Restava-me enfrentar tal desafio para, ou ingressar nas fileiras dos apreciadores, ou bater em retirada definitivamente. Enfrentei arrepios em pensamentos, revi conceitos de comestíveis, mas tinha de aguçar meu eu-curioso e aceitar um convite para a confraria de tão exótica degustação.


No grande dia, o cheiro de mel que as içás durante a fritura exalam, me enjoava, por saber ser da fêmea de saúvas aladas. As cadeiras dispostas em círculo na sala de visitas, a falação alegre das pessoas, o cheiro amanteigado, tudo fazia parte do ritual de iniciação ao costume taubateano. Sabia que seria mal educado recusar a rodada de içás, nobremente servida, enfarinhadas nas bandejas.

Confesso que arranjei uma coragem emprestada e, com quase dor na ponta dos dedos, dispostos em pinça e em câmera lenta, como num close que a câmera dá na cena principal de um filme, icei o iça, que se tornou pesado e imóvel por instantes eternos diante dos meus olhos [semicerrados] em pequena fresta [só para não errar a boca]. Ai! Eu salivava o desconhecido. Rufaram os tambores invisíveis e por entre os dentes num sorriso amarelo, descobri o inusitado: içá tem gosto de camarão! Delicia!

Fui devidamente batizada na tradição do povo taubateano e hoje sou toda prosa pela minha valentia e pela aquisição desse conhecimento inusitado! (Ada, 4/11/2009)

Disse Sérgio Buarque de Holanda em "Caminhos e Fronteiras":
("... A içá torrada venceu todas as resistências, urbanizando-se mesmo, quase tão completamente como a mandioca, o feijão, o milho e a pimenta da terra. Pretendeu-se que os jesuítas, no intuito de livrarem as lavouras da praga das saúvas, tivessem contribuído para disseminar entre os paulistas o gosto por essa iguaria. Nada há de inacreditável em tal suposição, uma vez que já os primeiros escritos de missionários inacianos em terra brasileira, mencionam a içá como prato saboroso e saudável. Nos meses de setembro e outubro, em que saem aos bandos essas formigas aladas, buscava-as com sofreguidão, nos seus quintais, a gente de São Paulo, e ainda em pleno século 19, com grande escândalo, para os estudantes forasteiros eram apregoadas elas no centro da cidade pelas pretas de quitanda, ao lado das comidas tradicionais: biscoito de polvilho, pés-de-moleque, furrundum de cidra, cuscuz de bagre ou camarão, pinhão quente, batata assada ao forno, cará cozido..."). 



Receitinha de Farofa de Içá Torrado
Modo de Fazer:
Limpam-se as içás das perninhas e cabeças. Em seguida, põe-se de molho em água e sal por cerca de 1/2 hora. Escorre-se bem e leva-se ao fogo, em frigideira com gordura mexendo-se sempre para não queimar. Quando estiverem bem torradas, acrescenta-se farinha de mandioca, mexendo-se sempre, resultando a farofa já pronta para ser comida acompanhada de café. Se quiser, coloca-se em pequeno pilão, juntando-se farinha a gosto, daí resultando uma paçoca de içás.

6 comentários:

Crisnádia Amaral disse...

Argh! as bixinhas Ada... devem dar uma deliciosa farofinha, mas num precisa né? rs, bjs, ótimo fim de semana!

Yumi disse...

o.O


Aqui na minha terra a gente chama de tanajura, saúva... Mas nunca quis experimentar não... Ainda bem pq eu nem gosto de camarão!


x]]~~

Simples assim... disse...

:-/

Iça num é bicho?????

Ada disse...

Pois é gente! É sim um bichinho... e a gente, como bom "serumano" que somos, temos de comer, caçar, matar, destruir, utilizar para algum fim. Nem saúva escapa! Ressalva: comi daquela vez, para provar que sou uma "serumana" que não se despreza! Mas a cada dia tento evoluir, juro!

Fidel Matos disse...

Na minha infância em Benjamin Constant, Alto Solimões, Amazonas, era uma festa para a meninada capturar tanajuras no início das chuvas, final do verão. Diziam, eu nunca vi, que alguns comiam feito farofa, também. Já na região do Rio Negro os índios, não sei se todas as etnias, são 23 se não me engano, metem o pau nas tanajuras - e outros insetos - numa receita que inclui muita pimenta capsicum desidratada, em forma de pó.

Ada disse...

A postagem de Fidel me trouxe de volta ao texto e às lembranças. Nossa cultura é rica em hábitos semelhantes espalhados pelo Brasil afora. Legal saber desta história de Benjamin Constant e dos indígenas. Só não me disse se experimentou!