2 de nov. de 2009

Um Sol estupidamente feliz

havia visto, com a mesma intensidade, este Sol das seis da tarde. No mesmo instante em que me cegou, lembrei-me que caminhava pela mesma estrada, a avenida que margeia o rio Tietê, há mais de trinta anos atrás e certamente no mesmo horário, pois a altura em que a estrela está, bem na minha cara, feito um tapa que arde, de chofre, crepitando como fogueira em noite escura, é exatamente a mesma cena em minha memória. Um déjà vu. A luz é tão intensa que tudo em volta parece escurecer. Um rastro de fogo reflete no asfalto o seu laranja cítrico e abre uma trilha para eu seguir mas, parece que apesar de correr ao seu encontro, fico paralizada no tempo, sem velocidade alguma, levitando sobre a luz, em câmera lenta e nada mais existe a não ser essa bola imensa e tragicamente bonita. O calor rebrilha nas águas do rio e dói na minha pele. A estrela de quinta grandeza tem onze bilhões de anos já vividos e só desaparecerá daqui a mais cinco bilhões. Isso me consola. Não serei a única a sentir este prazer encalorado, inspiração de poesia e sentimentalismos. Além disso, sei que terei outras chances de tamanho vislumbre. Há trinta anos atrás, quando esta mesma cena aconteceu, estava com o homem que amava e lamentava não ser uma artista de real grandeza para pintar este sol exatamente como ele é. Impossível copiar estúpida beleza, podemos apenas interpretá-la, cada qual ao seu modo. Esta foi a resposta, e como se a ouvisse novamente, bateu-me a lucidez de que o tempo é tão relativo quanto a verdade. Nunca tentei pintá-lo, mas cá estou com palavras dizendo sua beleza. Se faz onze bilhões, ou trinta anos, que este sol brilha sobre mim, verdade é o prazer que ele proporciona. Vivenciar este momento por duas vezes é pura felicidade. Um privilégio dos românticos. (Ada,2/11/2009)

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