“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

05/02/2010

Pena de [do] beija-flor

Um beija-flor entrou por engano na área de serviço e imediatamente os gatos alardearam com seus miados trêmulos de excitação - para sorte do passarinho -, pois que chamaram minha atenção.  Expulsei-os todos, junto com seus bigodes e garras em riste prontos para o bote. Mas beija-flor é tão frágil, tão ágil, que dá medo na mão da gente. O pobrezinho se debatia pelas paredes sem perceber onde ficava a janela, o espaço, a liberdade. Nada podia fazer, ele repousava no mais alto do varal de roupas. Deixei-o só, quem sabe descobrisse o caminho do céu. Mas nada, ele estava com seu bico aberto, estressado, cansado. Depois de alguns minutos, a eternidade para ele, deixou-se pousar no chão, exausto. Não assustou-se com minha mão, a mais leve que consegui ter, e parecia entregue ao seja-o-que-deus-quiser. Patinhas encolhidas - sinal de fraqueza -, peito ofegante, olhos arregalados. Pensei, vai morrer, não creio! Acariciei sua minúscula cabeça com a ponta do dedo que mais que isso seria insulto. Ele não ofereceu resistência, sei que compreendeu meu amor, mesmo assustado. Levei-o até a janela, mostrei-lhe que havia o mundo para ele conquistar, mas ele não reagia, para meu pesar. Insisti. Virei-o de frente para as árvores e, como sua mãe o fez certamente um dia, incentivei-o de que era possível alçar voos, finitos mas inebriantes, velozes e fundamentais para um beija-flor. Vá! Retire o néctar das flores! Compreendeu minha proteção e ressucitou suas e minhas esperanças e foi, e voou, e subiu bem alto carregando meu suspiro de alívio. Viva! Viveu, mas deixou duas penas para a minha pena. (Ada 5/2/2010)

(binga, chupa-flor, chupa-mel, colibri, cuitelinho, cuitelo, guainumbi, guanambi, guanumbi, guinumbi, pica-flor).

3 comentários:

Simples assim... disse...

Ai q lindo, até me arrepiou essa historia!!!!

Ada disse...

Foi emocionante mesmo... quando ele se entregou de cansaço e estava tão vulnerável na palma da minha mão, percebi a responsabilidade de amar... o poder do amor. Chorei de alegria quando ele pousou na árvore da praça...
Ele deixou 2 penas, guardei para me dar sorte! Beijos

Ronaldo disse...

Aconteceu o mesmo na minha casa, encontrei o bicho praticamente desmaiado, com um pouco de água com açucar consegui trazer ele de volta, realmente emocionante