“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

29/05/2010

Um conto chamado "Herança"

Havia dezessete gatos vivendo no apartamento de Hilda. Vivos, esparramados nos sofás, tapetes, em sua cama, os olhos acesos na noite, os bichanos ronronando à mínima impressão de uma ausência sua. Ciumentos e ferinos todos, logo eles que lhe ensinavam o dever da renúncia e a conviver com a sucessão.

Mortos, idos, passados teriam sido quantos mesmo? Muitos, mais que os dezessete que ainda disputavam seus afagos, pão e leite. Isso pra não levar em conta os que nunca iam, eternos em suas sete vidas.

A maioria morrera muito antes, no espaço amplo da fazenda capaz de abrigar e agasalhar todos que lá se refugiavam. A época de sua inocência, como quereriam os amantes de cachorros, 
dog persons. Ela? Bem, ela podia ser jovem, mas não era tola. Ao menos, era como pensava à época. Só depois da primeira morte é que percebeu, sim, tanta tolice, meu Deus! A juventude, a época verde, o primeiro e derradeiro apego, a pretensão de a todos manter vivos e perto.

A mãe, não fora ela que iniciara tudo, os primeiros aparecendo apenas na busca de alimento à noite? Chegavam cautelosos, vidravam os olhos nela, quase sempre na cozinha, lembrava-se bem. Do mesmo modo, Hilda não desgrudava, as pupilas dilatadas, tentando aprender o modo como ela fazia chá, aquela infusão de paciência, a platéia de felinos crescendo com o passar dos anos. Até que.

Bem, aí fora quase inevitável. Quase. Porque ainda lhe ocorrera aquele mórbido pensamento. No instante mesmo em que, coberta de preto como mandava a tradição da época, avistou as flores do jardim da tia Sylvia é que teve o ímpeto de catar um a um os bichos pelo rabo e lançá-los ao túmulo da mãe, para que além daqui continuassem sua silenciosa companhia. Era assim mesmo como faziam no Egito, tudo e todos enterrados nas tumbas dos faraós. E pelo que ouvira dizer era dessa região que vinham os tais bichanos, lá da terra seca onde nunca se ousava dizer adeus. Pois então! Por ancestralidade, deviam estar mais que acostumados a seguir seus senhores.

Tanto pesar apenas porque sentiu o aveludado daqueles bichos a lhe eriçar a pele quando viu as flores balançando em compasso com a brisa, vai-e-volta. Passado o arrepio do momento, optou por lançar sobre o sepulcro apenas um punhado de terra e ornar a lápide com a inscrição da figura de seus animais estimados e algumas flores desse mesmo jardim. Assim é que acabou por herdar aquelas dezessete vidas felpudas e famintas.



(por Rafael Rosa)


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