“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

30/05/2010

Os becos da casa


Janelas fechadas desenham penumbras e lembranças. Nas sombras da madrugada, descubro becos pela casa. Escondem risos, choros, coisa que passou, cheiram a fruta madura. As paredes mudaram de cor e a umidade do inverno continua embolorando uma saudade qualquer. Sei de cor as fotografias da parede, um gato dorme no sofá e o teto range a cadeira do vizinho. O antúrio carregado de vermelho pede água. Tudo tem tanta alma, tanta poesia e labor. A idade das coisas permanece impressa em seus significados e cada coisa em seu lugar tem uma impressão digital. Nada aqui tem apenas eu e tudo aqui tem apenas eu. Sonambúlica percorro o corredor, esfregando a lã das meias no assoalho, tateando portas, num bocejo triste. Os pensamentos languidamente vagueiam por estes becos da casa, impregnados de mim. (Ada, 30/5/2010)

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