“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

17/07/2010

Doceria Docinho

Dia 4 de julho Docinho ganhou um lar. Mas não é assim que começa a história desta gatinha adolescente. Antes disto, já havia uns 10 dias em meados de junho, Docinho perambulava pelo jardim do prédio. Vi-a de longe perdida, morando ao relento e comendo insetos para sobreviver. Acuada entre a avenida - onde os carros são ameaçadores - e os muros muito altos, ela não tinha para onde ir.


Foi num sábado à noite que ela resolveu se jogar de barriga para cima, aos meus pés. Na garagem do prédio foram olhos nos olhos. Os dela são feito dois bagos de uva itália madurinhas, daquelas expostas em barraca de feira, úmidos e adocicados, daqueles que atraem abelhas. Seguiu-me até o carro, trançando entre minhas pernas, miando-me seus problemas de fome e frio, carente de cafuné, como se me conhecesse há muito. Com o coração trincado justifiquei “Não posso falar com você agora! Estou atrasada!”. Ficou sentada ao lado do carro olhando-me compenetradamente, como se me entendesse e ali ficou, sem susto, enquanto o carro partia.


Domingo pela manhã, ao abrir a janela pude vê-la deitada na grama do jardim. Vou levar ração e água e veremos. Docinho devorou tudo, sem mastigar. Uma fome milenar embutida na parede do estômago! Miúda e ronronenta agradeceu-me eternamente. Acariciando-a pude perceber seus ossos salientes de magreza. Seu pelo preto brilha e sua orelha direita foi rasgada por brigas de telhado da época do cio. Lá ficou fazendo a digestão debaixo do pé de azaléia, contrastando com a grama seca do inverno. Pintada de Preto e Branco, tem a boca desenhada imitando falsos bigode e barbicha. Dormiu o dia todo, de barriga cheia, ao sol e de vez em quando pude espiar da janela e vê-la correndo atrás de borboletas.


A noite deste mesmo domingo de julho caiu gelada. Um sereno desceu rapidamente compactando o vapor que subia do cimento. Eu, que já andava o dia todo pensando-a e espiando-a, tive um palpite, desço e chamo-a e se ela vier, é porque ainda me espera pacientemente.


Dizem que os gatos é que escolhem seus donos e sou uma destas, já que tenho certeza deste fato. Bastou entrar no jardim, no meio do buio e do nada, ela surge miando-me “olá você veio me buscar! obrigada pelo almoço! mas ainda tenho fome! e tenho frio!”. Docinho aninhou-se no meu colo, e confiou plenamente em mim. Depois, confiou no meu cão Caillou e nem ligou para todos em casa, aceitou tudo de bom grado, a almofada e o prato sempre cheinho de ração e água. O rabo esticado feito antena sinaliza sua felicidade. E amassa charmosamente a massa de pão. Parece até que sempre viveu aqui conosco.


"Mas sua barriga está redonda demais! Vamos ao veterinário saber de sua saúde, tudo bem?" "Sim, sem problemas!" E andou de carro, deixou a médica apalpá-la, fizemos um ultrassom e, adivinhem? A doutora disse que teremos uma Doceria! Docinho está recheada feito um ovo de páscoa! Tem cinco bombonzinhos de quatro centímetros com os coraçõezinhos aos saltos. Ora, ora, nascem a partir de primeiro de agosto!


A história de Docinho, não saberei contá-la inteira. Mas uma coisa a gente pode ter certeza, é que a vida que vale é a que começa agora, a cada novo dia, todos os dias. Para Docinho eles serão muito melhores.


Já vou logo anunciando a inauguração, em breve, da Doceria Docinho para quem quiser adotar gatinhos! Assim, esta história poderá continuar rica de amor por fofos gatinhos. Quem se habilita?

Um comentário:

Elenara Stein Leitão disse...

Ai...chorei daqui, imaginando a alegria dessa gatinha ao te escolher. Que a Docinho e suas crias te tragam muitas felicidades. Se desse ia pedir um pelo sedex para fazer companhia para a Lady.

Beijos