“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

20/10/2010

Flora Figueiredo: Última página



Última página
(Flora Figueiredo)

Mais uma vez o tempo me assusta. 
Passa afobado pelo meu dia,  
Atropela minha hora,  
Despreza minha agenda.  

Corre prepotente, 
A disputar lugar com a ventania.  
O tempo envelhece, não se emenda. 

Deveria haver algum decreto 
Que obrigasse o tempo a desacelerar 
E a respeitar meu projeto.  

Só assim, eu daria conta 
Dos livros que vão se empilhando,  
Das melodias que estão me aguardando,  
Das saudades que venho sentindo,  
Das verdades que ando mentindo,  
Das promessas que venho esquecendo,  
Dos impulsos que sigo contendo,  
Dos prazeres que chegam partindo,  
Dos receios que partem voltando. 

Agora, que redijo a página final,  
Percebo o tanto de caminho percorrido 
Ao impulso da hora que vai me acelerando.  

Apesar do tempo, e sua pressa desleal,  
Agradeço a Deus por ter vivido,  
Amanhecer e continuar teimando ...  

2 comentários:

Marta Eugênia disse...

Que poema belo, singelo e duvido que não seja confundido com uma flor...E eu tive medo algumas vezes, noutras, repeti um sol...medo, sol...é tudo vida. Marta Eugênia.

Marta Eugênia disse...

Não conhecia a poeta, mas desde já, a admiro...parabéns...pois mexer com as palavras é um ato de alma e de dom.
Marta Eugênia