“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

05/12/2010

Carta de Jenny Scavinsky: O ratinho Tim e a segunda mágoa

Oi Eliana, hoje falando com meu sobrinho lá do Paraná, começamos a recordar nossa infância. Ele se lembrou do Tim, um ratinho branco de laboratório trazido por meu pai, meu querido pai Yosef (José), um lituano alto, tinha 1,82 de altura, cabelos negros, barba azul e por isso eu o chamava de “o barba azul casanova lituano” que para arrematar tinha olhos azuis bonitos de morrer.

Pois é, assim que chegou em casa com o ratinho, cortou seu rabo com navalha. Disse que o bichinho não sentiu dor e em seguida apresentou-o à minha mãe, e ela pôs o nome de Tim. E assim ele foi posto numa prateleira, numa cantoneira, onde mamãe guardava suas linhas de seda e o cuidado para as baratas não roerem e então fez uma caminha com travesseiro e coberta para o ratinho. Esse, muito esperto, logo entendeu que seu trabalho era cuidar das linhas.

Com o passar dos dias ele fez amizade com o cachorro Lorde, um belo animal, descendente da Mascote, uma cadela da raça Lulu da Pomerânia que era muito fofa, branca, com os lábios pretos e também os olhos pretos e de rabo enrolado. Então, quando a mamãe, depois do almoço ia tirar uma soneca, ela chamava o Tim e ele ficava esperando o seu Bigu, que era o Lorde, e se jogava do seu “apartamento” se agarrando nos pêlos do cachorro e lá ia balançando até a cama da mamãe e se atirava na cama e lá ia ficar ao lado da orelha dela. Dormia que "só gato de hotel". Oh saudades!

Um dia chegaram uns patrícios de meu pai e junto, a filha que tinha operado da garganta. Quando ela viu o Tim o quis a todo custo e papai não teve jeito para recusar e deu o Tim para a menina. Eu não estava em casa, mas quando cheguei e soube que Tim tinha ido embora - ai dor - essa foi a segunda mágoa que a vida me deu. Enfim, parece que eu logo aprendi que devemos nos resignar, assim estaremos aprendendo a suportar a adversidade que ela nos dá.

Eliana, tenho uma prima lá na Lituânia que é escritora e já escreveu três romances. No último, escreveu algo a respeito da irmã que é corredora de bicicleta. Penso que devo trazer no gene essa dádiva, pois adoro escrever. Mesmo com a minha ignorância e a terrível dislexia que me acompanha desde o tempo da escola.

No primeiro ano era chamada de alemã. Eu era muito loira e alta para minha idade e papai dizia que meus cabelos eram como trigo louro e brilhante. Quando a guerra chegou ao Brasil, foi mais ou menos em 1937, num carnaval, me lembro da Praça 15 de Novembro, o chão coberto de serpentinas e confete, eu ia pegando e colocando na saia de minha fantasia de tirolesa, e chegando em cada disse aos meus “olha o que eu trouxe, é do carnaval!”. Meu pai, triste respondeu: "filha não temos nada para nos alegrar, pois vai chegar uma época triste" e eu não consegui "mastigar isso". Quem sabe papai está exagerando...

Tempos depois, papai me ensinou como atirar pedras nos meninos que me xingavam me chamando de alemã nazista. Está justo, eu que já era uma socialista nata, defensora de tudo aquilo que o ser humano tem direito, comer, educação, assistência médica e apoio moral...

Então estou aqui de volta para o meu ninho, ninho dourado tão almejado e que, por amor, fui embora para o Ceará, aonde foi a minha “via crucis” e espero nunca mais voltar para lá. Sabes Eliana, que eu naquela época fui a mulher mais bonita de Juazeiro do Norte e era o alvo de fofocas de mulheres invejosas e maldosas. Isso foi em 1963, elas diziam que o Humberto era barriga branca, diziam que eu mandava nele. Caramba, pois era o contrário! Enfim, passou e que bom que passou, e para minha alegria estou em Atibaia, cidade presépio, eu a batizei assim.

Bem já é tarde, quase meia noite, e que você aproveite alguma  coisa que lhe escrevi...

Sua amiga Jenny.
(30/11/2010)

Nota
A guerra a que Jenny se refere foi o golpe de estado dado por Getúlio Vargas em 1937 e que foi chamado de Estado Novo, regime autoritário que durou até 1945.

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