“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

15/02/2011

A música “Bola Dividida” admite a violência contra a mulher


Todos os dias vemos no noticiário as mortes anunciadas. São mulheres que sofrem violência de seus companheiros e, apesar de algumas terem coragem de denunciar, ficam sem qualquer proteção ou assistência dos órgãos responsáveis. Não aceitam uma "insubmissão".
Acabam sendo mortas sem direito à defesa. E a causa é quase sempre a mesma: crime passional.


Isso vem de tão longe! A sociedade assimila que certas coisas são “normais”. Acatam o comportamento imposto pela dominação masculina. Você já ouviu a frase: “se ela apanhou, é porque fez alguma coisa”? Ou," Dê uma surra diária na sua mulher, você não sabe porque está batendo mas ela sabe porque está apanhando” e ”Toda mulher gosta de apanhar. Só as neuróticas reagem (Nelson Rodrigues (1912/1980) considerado um grande dramaturgo. Daria para listar uma série de frases, inclusive repetidas pelas próprias mulheres.

A minha mais recente indignação, é com o Zeca Baleiro. Ele regravou um samba de 1969 chamado “Bola Dividida” e que é composição de Luiz Ayrão no LP “Meus Momentos”. Ouço no rádio todos os dias e me inflo de indignação!

Bom, há 42 anos, a letra da composição passou batida entre as mulheres? Tá bem, mas hoje acho que não deve passar batido não! Não temos muitos mecanismos de protesto e defesa de nossos direitos de liberdade e indignação contra a violência à mulher. Mas eu aqui, estou registrando a minha:

Zeca Baleiro! Você pisou na bola, junto com Luiz Ayrão, e perpetua, através dos tempos, que a violência contra a mulher é admissível!

Tire você mesma a conclusão!

Bola Dividida
Composição Luiz Ayrão (1969)
Regravada por Zeca Baleiro (2010)

“Será que essa gente percebeu que essa morena desse amigo meu
Tá me dando bola tão descontraída
Só que eu não vou em bola dividida
Pois se eu ganho a moça eu tenho o meu castigo
Se ela faz com ele vai fazer comigo
Se eu ganho a moça eu tenho o meu castigo
Se ela faz com ele vai fazer comigo 
E vai fazer comigo exatamente igual
Ela é uma morena sensacional
Digna de um crime passional
E eu não quero ser manchete de jornal
Será que essa gente percebeu que essa morena desse amigo meu
Tá me dando bola tão descontraída
Só que eu não quero que essa gente diga 
Esse camarada se androginou 
A moça deu bola a ele e ele nem ligou
Esse camarada se androginou 
A moça deu bola a ele e ele nem ligou”.



LIBERDADE O MAIOR DIREITO DA MULHER!

4 comentários:

Andre Luis Aquino disse...

Adorei sua ponderação, infelizmente falta um pouco de consciência, talvez não fosse mesmo legal regravar essa canção.Acho que voce deveria ver isso Li : http://www.youtube.com/watch?v=NTxUWQ2IE6s

Ada disse...

André, assisti ao vídeo e é isso mesmo... E isso é parte do que torna o machismo "invisível". O ponto de vista masculino, e machista, se instala de maneira imperceptível, aparentemente imbatível, em nossa sociedade. As mulheres têm que militar pela sua causa. Aliás, uma causa que não é só nossa, mas tambem dos homens. Porque a dominação está relacionada ao sistema vigente. Libertar as mulheres, é libertar toda a sociedade da dominação. Agora a pouco, vi no noticiário que uma jornalista americana foi estuprada em plena praça pública, enquanto cobria as manifestações contra o governo. SELVAGEIRA PURA!

Íris Caeiro disse...

Oi, ADA desulpa mas não vi dessa maneira. Entendi o crime passional entre ele e o amigo.

Ada disse...

Oi Íris! Interessante que houveram várias interpretações. Recebi outras por email. Mas todas elas levam à violência de uma forma ou de outra. Se mudarmos o foco, veremos que a violência não é só física, assassinatos ou espancamentos. Há os morais em suas diversas formas... assim sendo, não há como negar a violência embutida nessa letra, ainda que em formato de "paixão".