“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

19/03/2011

Carta de Jenny Scavinsky: Tomara que eu sonhe como na madrugada que passou


Minha querida amiga, li sua poesia "Dei de chorar" e então somos duas a chorar. São 4h30 da manhã e não tenho sono, uma raiva porque não posso desabafar, me vingar. Dizem que a vingança é doce. Tenho nojo do fulano que me traiu, penso nele que agora dorme nos braços de outra, ela tem 60 e eu 80, porém sei que bato nela com minha jovialidade, minha alegria e meio entusiasmo de viver. Ele é um panaca, era eu quem dava o preço dos quadros que ele pintava, era eu quem tinha as idéias bacanas para coisas que tinhamos de fazer no sitio. Um dia ele disse que eu era Jenial

Então, quando tínhamos de ir à cidade (o sitio ficava a 6 km de Barbalha e a 17 km de Juazeiro do Norte) ele fazia o trajeto antes de sair senão ele se embananava todinho. Era triste eu ver aquele que foi meu herói estar assim, e agora passado esses anos, eu tenho de engolir o que sinto, não posso contar ao Beto, porque ele se chateia e até fica brusco comigo (deve ser por causa da ausência do fulano). Quem ouve às vezes meus queixumes  é a namorada dele.

Eu não posso andar só, o desequilibrio está muito forte. Beto acha que deve ser porque eu não estou enxergando bem, a operação deve ser em abril próximo. É minha amiga, viver não é fácil! Adoro ir a Rio Claro porque meus sobrinhos, apesar de idosos e doentes, são companhias. Ruth tem câncer de pele e vai operar pela segunda vez o nariz e assim mesmo é uma criatura alegre (ela ja tem 61 anos); o Paulinho está sofrendo do coração, medicado, está bem, é otimo cozinheiro é muito alegre; Genoveva, tem seus 65, não gosta de falar de idade, é muito religiosa, é evangélica, (bela merreca para mim) mas o que posso fazer herdou dos pais.

Quem sabe um dia você não vai conosco passar um fim de semana lá em Rio Claro? Vais conhecer outra turminha de fibra e coragem, lá eles são Schavinsky e Kara Zaremba, uma turma do barulho! Ruth é artesã, trabalha para prefeitura de Rio Claro ensinando turistas, ricos que vão para hotéis de luxo. Depois eu te conto mais coisas.

Quanto à minha cabeça, depois de segunda próxima eu te contarei o que o médico disse. E quanto à suas costas, você poderia experimentar um exercicio, quem me ensinou foi minha sogra, já falecida, chamava Lia (Maria Lia Brasileiro). A gente se pendura numa porta (coloca um pano para não machucar as mãos) e se dependura por 3 vezes tirando os pés do chão. Será que deu para entender? Que pena a gente não morar uma bem perto da outra, quanta coisa poderíamos fazer! 

Sabe, a respeito daqueles cavalos bordados que te falei, não poderei lhe mostrar! Eles fazem parte da minha adolescência... ficaram no passado tão gostoso e sofrido da minha vidinha, naquela minha Ribeirão Preto, que estou vendo pela novela que está sendo reprisada "O rei do gado". Está toda mudada, terrivelmente mudada, não gosto dela assim, prefiro a do passado.

Me lembro quando terminou a segunda guerra mundial eu tinha mais ou menos l6 anos, no dia em que os pracinhas voltaram da guerra, alguns eram de Ribeirão, e entre eles veio um combatente que lutou com avião. O fulano se engraçou comigo, eu era caipira, mas com orgulho, no cinema estava sentada com a minha turma e ao meu lado tinha uma cadeira vazia. Ele chegou pediu licença e daí em diante não tirou os olhos de mim. Então na saída da matinê, ele perguntou se eu poderia vir à praça a noitinha, e lá fui eu, um vestido que minha mãe tinha feito e era de tecido tafetá gorgurão marron. Era lindo! O rapaz ficou encantado, e eu disse a ele que minha mãe era modista. 

Ficamos dando voltas na praça até às onze horas da noite. Tínhamos, aos domingos, um baileco de estudantes onde iamos dançar das oito até meia noite (ai que saudades), só que ele não quis ir ao baile. Queria saber tudo de mim, um lapso, quando saiamos da matinê fomos à praça e lá, junto com minha turma,tiramos umas fotos e ficou na lembrança, doce lembrança. E sabes que nem um beijo trocamos? Era proibido na época, tinhamos que ter recato. Ele, na segunda, foi para São Paulo e nunca mais o vi... 

Ah amiga! Como você também deve ter recordações! Mas não fiques triste, elas fazem parte da nossa vida, sem ela o que seria, um vazio? Agora são 5h20, vou tomar um café com leite e vou dormir. Tomara que eu sonhe, como na madrugada que passou. Sonhei que era jovem, estava num avião com um bocado de gente alegre e turbulenta. Doce ilusão, o meu cérebro quer me proporcionar um pouco de alegria. Acho que ele não aguenta me ver triste. Hoje à tardinha me comunico. Um abração, sua amiga Jenny.

Sonhos

Um comentário:

Helena disse...

Que carta linda! que qualidade a dele de se mostrar tão inteira e real. Adorei bjs