“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

19/03/2011

O monte de cruzes da Lituânia e os meus sete anos de idade


Uma história puxa a outra. Estava viajando virtualmente pela Lituânia, estimulada pelas histórias da amiga Jenny, e encontrei uma foto sinistra. Imediatamente me veio à memória uma experiência marcante dos meus sete anos de idade. Morávamos na Água Rasa, numa vila de casas térreas todas iguaizinhas. Desta época, lembro-me do vendedor de biju que passava nas ruas com seu instrumento peculiar de fazer barulho para chamar a criançada. Um pedaço de madeira que fixava um ferro em arco e que ao ser sacudida, batia o ferro de um lado e do outro, e quanto mais rápido o movimento, maior o teco-teco barulhento que de longe se anunciava. O Biju vinha acondicionado num tonel circular pendurado nos ombros onde a tampa era uma roleta feita com pregos, toda numerada. A criançada rolava a roleta e ganhava a quantidade de biju conforme sua sorte.


Mas quando completei sete, inaugurei-me num colégio de freiras. Um convento, penso eu. Naquele tempo apenas aos sete anos a gente ingressava na escola e meu primeiro dia de aula foi assustador. Eram levas e levas de crianças escola a dentro, todas vestidas iguais em seus uniformes em passeata por uma estrada de terra que me parecia sem fim, ladeada por árvores, até a chegada ao páteo. As salas circundavam este páteo, abrigadas por alpendres cobertos e cercados de muretas baixas.

Cantávamos às vezes o hino nacional antes de entrar nas salas e a bandeira do Brasil era hasteada. As professoras eram, na sua maioria, freiras. O convento e sua igreja me intimidavam. Não entendia a confusa história contada de deus, dos céus e dos infernos. Não entendia a missa. Sentia medo na hora da confissão. Era um mistério ter que falar com um padre que nunca via, nem sabia o nome, vivia escondido atrás do confessionário. Tudo era de enorme proporção, escuro, secreto, misterioso, assustador.

Inventava alguns pecados – bater no irmão era meu preferido, mas o pobre tinha apenas dois anos – e isso sim podia ser o pecado, era mentira só para não perder a viagem sistemática e obrigatória àquele mausoléu de madeira que escondia a voz que estipulava o castigo do dia, rezar três ave-marias e dois pai-nosso, ou vice e versa.. A hóstia era um sacrifício! Corria o boato entre as crianças que não se podia relar o dente na hóstia, era o corpo de cristo! Esse era meu maior desafio! Um desconforto que eu me submetia por ter uma hóstia maior que a boca e que nunca conseguia deixar intacta até que derretesse por completo adocicando a boca. Fixava meus olhos naquela cruz imensa, onde jazia Jesus.

Passado alguns meses, minha mãe me tirou deste colégio. Adoeci. Não conseguia comer espinafres cozidos e vivia de castigo no refeitório. Um fantasma ficou deste tempo: o assombro triste e incompreensível da cruzes...
Monte das Cruzes, situado ao norte da Lituânia, é o principal lugar de peregrinação católica no Báltico e existe desde o século 14. A fotografia - sinistra - revela apenas um recanto deste lugar e não deixa adivinhar a verdadeira dimensão do fenômeno. Nesta pequena colina, não há espaço sem cruz. São milhões. Não se trata de um monte com cruzes, as cruzes são o monte.

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