“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

21/05/2011

Arvore-coração da Avenida São Luiz

Nas andanças pelo centro de Sampa, me deparei com esta intrigante árvore. Com sua idade, que não deve ser pouca, ela foi cicatrizando as podas doloridas em seus braços-galhos, que desde jovem enfrentam a moto serra, impiedosamente domando-a para o espaço urbano. Antes, deveria ter um gramado extenso e amplo para nutrir-se e hoje, restringiram-lhe a um cercadinho de arames, ilhada entre cimento, fumaça e transeuntes. A cicatriz, a mais dolorida talvez, mostra um coração, uma boca arreganhada, uma garganta rouca, uma voz mouca, um grito deslocado através dos tempos. Interprete! Sinta! É como se sua alma transpirasse pelas fendas, contando mazelas deste mundo, rogando vida para quem a nota. Exclamei, assim que bati os olhos nela. Depois senti seu hálito verde, sua energia, seu gemido, sua resignação. Beberia sua seiva se ainda estivesse escorrendo. Como se isso pudesse curá-la, curar-me. Meu coração entrou no seu. Amiga, roubei sua imagem desoladora para poder compartilhar seu grito. Resista! 

Um comentário:

Maria Elenice disse...

Isto é que é observar a cidade e com toda sensibilidade possível. Poucos param, olham e sentem a poesia dolorida existente no ar.

Elenice Salla