“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

10/05/2011

Carta de Jenny Scavinsky: Depois da guerra os Scavinsky vieram para o Brasil


Boa tarde minha querida!

Quanto à vida de meus pais em Moscou, Rússia, não foi brincadeira. Quando a guerra terminou ficaram sem saber o que fazer e então partiram para mais perto da fronteira com a Lituânia. Meu pai foi trabalhar numa mina de carvão mineral. Mamãe conta que alugaram uma casa grande e sobrou um quarto e eles sub alugaram a um rapaz que trabalhava na mina de carvão também. Um dia ele pediu para trocar de turno com meu pai, que por isso não morreu, pois houve um desastre na dita mina e quem morreu no lugar dele foi o pobre do rapaz. Bem, após isso eles começaram a fazer pic-nic todo o fim de semana perto da fronteira e lá fizeram amizade com os guardas, dando-lhes comida que levavam no farnel. Daí, um dia conseguiram passar. E sempre era a mamãe que tinha essas ideias e eu acho que puxei à mamãe, pois sempre tenho ideias geniais.
Quando conseguiram chegar ao sítio em que moravam, eu digo sitio mas na realidade era herdade, a casa era chamada de dashca, então encontraram ruínas, o solo todo esburacado pelas bombas, a casa sem janelas, portas, o piso sem tacos, ou melhor dizendo, nessa época não existiam tacos e sim tábuas. Geralmente existiam duas casas, uma de madeira para o verão e outra de pedra para o inverno, e essa era calafetada entre paredes com canos de zinco para que o calor da lareira passasse para todos os cômodos, e então no local só existia a casa de pedra, a casa de madeira os alemães queimaram.

Não tinha mais nenhum animal, os ditos haviam comido tudo, até que meu pai ficou sabendo duma vaca que ele tinha e que dava mais de 20 litros de leite por dia. Era uma vaca holandesa, então foi até esse vizinho reclamar a posse da vaca, chegando o fulano disse ao meu pai que se a vaca o reconhecesse, ele lhe entregaria. Meu pai então, estando no pequeno curral aonde se achava a vaca ele assobiou e ela o reconheceu e veio em sua direção. Pronto! Meu pai voltou para casa com a dita cuja, e foi a alegria das meninas, iam ter leite, creme e manteiga, por um montão de dias.

Após isso, meu pai resolveu em conjunto com minha mãe vender a terra e ir para a cidade, e na cidade montaram um pequeno restaurante, lá tinha um polonês beberrão para ajudá-lo, mas o cara era alcoólatra e bebia mais do que podia, dai é que surgiu a ideia de vir para o Brasil. Grandes cartazes na cidade dizia aos pretensos emigrantes que neste país corria ouro pelas ruas! Meu Deus, coitados, foram na onda, eles e outros milhares de emigrantes, quando partiram para - acho que foi na Antuérpia - lá entraram para embarcar, onde havia uma turma de húngaros piolhentos e mamãe se recusou a ir neste navio,e esperou o seguinte, e lá vieram com um montão de gente, passageiros de primeira, segunda e terceira - que eram eles.

No mar alto deu escarlatina, minha irmã Branca (Browney) pegou e quase morreu, mamãe desesperada disse que se caso ela morresse ela também se atiraria no mar, os mortos eram jogados ao mar enrolados num tecido grosso para não serem devorados pelos tubarões. Terrível, ao passar pelo signo de capricórnio deu a louca nas pessoas, pois pegavam suas peles e jogavam ao mar. Mamãe muito ajuizada não fez isso.

Quando chegaram ao porto de Santos, aí sim é que foi terrível! Roubaram parte de sua bagagem e por mais que minha mãe perguntasse ninguém lhe dava ouvidos, e lá ficaram três dias como animais à mostra e vinham fazendeiros escolher quais levariam. Quase a mesma coisa que fizeram aos escravos negros no passado, e quem os escolheu foi um rico fazendeiro, o nome era Schmidit, de descendência alemã. 

E lá foram eles para sua desdita. Para meu pai foi o inferno da vida dele, para minha mãe o purgatório, na chegada à fazenda esse tal fazendeiro nem foi ve-los! Anos mais tarde, quis o destino promover o encontro, minha mãe grande modista, atendeu a esposa do dito. E essa senhora adorava mamãe. Anos mais tarde perderam a neta com 18 anos, ela estava na piscina do clube e abriram a saída da água, não notaram que havia gente, morreu presa sugada pela água. Aqui se faz, aqui se paga. Será verdade ou mito? Essa menina tinha um defeito, era albina. 

Minha querida Eliana, está um dia cinzento, triste, parecido comigo. Agora vou cuidar do meu almoço, meu papagaio está muito calado, é o tempo que o deprime, e a cachorrinha está na sua caminha com frio.Mais tarde lhe enviarei mais coisas, não sei do que falarei.

Quanto ao Felipe já faz uma semana que não me comunico com ele. Eu lhe contei que fomos para Extrema, sul de Minas Gerais? Fica a 25 minutos daqui de Atibaia. Adorei a cidade, é pequenina, montanhosa e lá a Kopenhagem montou uma fábrica de doces e chocolates e a irmã da namorada de Beto, junto com seu marido foram viver e trabalhar lá. Fazem parte de uma comunidade evangélica. Parece que já lhe contei, não?

Tomo licença para passar o seu blog para o Felipe pois ele adora, coisas assim das que você publica.

Até mais tarde, beijos Jenny
19/03/2011

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