“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

09/05/2011

Carta de Jenny Scavinsky: Pintei o meu sapato com alvaiade para a primeira comunhão


Querida Ada, me vejo em Ribeirão Preto, morando perto da praça 15 de novembro, era no centro.  Ouvíamos a PRK7, radio de Ribeirão, que falava de hordas de desordeiros, que na realidade eram pobres colonos trabalhadores das fazendas ao redor. Getulio Vargas tinha colocado uma ordem de que todo dono de fazenda devia matricular seus empregados e outras coisas que não me lembro bem.

Saíram das fazendas, aliás foram postos fora, sem direito de nada, só com a roupa do corpo, sem um tostão no bolso, com fome, sede, começaram os saques nos empórios, na venda. Depois do almoço, ouvi um barulho forte na rua, misturado à tropel de cavalos, eram os boinas vermelhas, vindos de madrugada no trem, com intuito de apaziguar, acalmar. Então sai no portão e um rapazinho atirou em  minha direção, para eu apanhar, uma caixa de fósforos que ele pilhou num desses estabelecimentos. Nisso minha mãe chega e me ordena entregar para o menino, ela disse ser um produto de roubo. 

Na rua ficaram chinelos, alpargatas de gente paupérrima, alguns panos e a solidão. Os cavalos já não faziam barulho, era um silêncio total, tudo estava fechado na cidade e no dia seguinte nem as padarias abriram. Minha mãe ansiosa por pão perguntou à Dona Anadéia aonde comprar, qual padaria iria abrir, ela não sabia também. Lá pela 7 horas da noite vieram avisar que uma padaria iria vender, só depois das 9 da noite e lá fui eu morrendo de medo, as ruas cheias de soldados que me olhavam de esguelha, mostrando admiração duma garota andando sozinha àquela, hora, e eu andando, achei a padaria  comprei o pão e voltei para casa correndo, as lágrimas correndo no meu rosto.

Eu me lembro, depois da morte do meu pai, eu tinha que fazer tudo sozinha, por isso adquiri coragem de enfrentar tudo, e os meus entes queridos dizem que sou muito forte.

Quando fiz a primeira comunhão, minha mãe não tinha dinheiro para fazer o vestido. Essa roupa era parecida com vestido de noiva. Então fui à Matriz, lá estavam as damas da sociedade, e ajudavam os pobres, falei com elas e prontamente me atenderam. Só não tinha sapatos, então peguei meu sapato preto e comprei alvaiade, e pintei-os, ficaram lindos!

No domingo, lá fui bem cedinho sem tomar café, engoli as hóstias, me vi sem pecado, e pronta para ir para o paraíso, que beleza! Carregando nas mãos um pacote de bolo, bolachas e biscoitos, qual foi a minha decepção, ao sair, trovoadas, o céu ficou escuro, pingos de água gelados me pegaram na rua, nenhum lugar para me abrigar. Em volta ricas mansões ornadas com jardins. Correndo para casa notei que meus sapatos estavam perdendo o alvaiade e ficando pretos. Chegando em casa chorando, entreguei os doces à minha mãe e o sol voltou à brilhar.

Jenny

(23/3/2011)


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