“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

18/06/2011

Tarde fria e manhosa de outono



Nessa tarde fria e manhosa caminha lento o outono. Na madorra das horas, constato pela janela que as pipas estão de volta, flanando pelas nuvens, enquanto as paredes do mundo refletem luz amarela. Nas folhas musgo-amarelado [quase todas no chão], nas nuvens, nos meus olhos, tudo rebrilha. A Lua esqueceu-se de sumir e compete sua luz esmaecida com o amarelo morno e cítrico de sol reluzente nas paredes caiadas. Enquanto miniaturas de gente e carro movimentam-se pelas ladeiras, vislumbro da janela os sons do sábado serenarem meu coração adentro, meu céu acima. Risadas e canções ecoam, e ladram os cães cismados com o nada. Há choro de criança e roupas esquecidas no varal enquanto o ar cheira fogão de lenha. Pipas e urubus salpicam movimentos ritmados, e num céu de ventanias azuladas contagiam preguiças. O pássaro de peito amarelo mergulha em zigue-zague e deixa rastros de liberdade pelo céu. Tem bico adocicado de fruta de época, do conde e tangerina, ameixa e carambola. Há malemolência nas nuvens gordas, robustas de lembranças da infância, do tempo em que se fazia a sesta e não se perdia festa. O alto-falante da igrejinha de São José dos Homens Pretos anuncia a quermesse e as guloseimas de milho e amendoim reacendem outras misturas de gengibre e canela, sabores quentes, ultra coloridos, tão junhentos. São vapores invisíveis, que atiçam salivas de pipoca na manteiga. Quando [logo aí] o inverno chegar, mais uma vez, a saudade desse alegre e manhoso outono ficará retida, como fotografia, através dos tempos de minha curta vida, recontada e repetida no infinito das horas, nos livros de cabeceira, nas bocas dos poetas, nas palavras em mutação, nos pensamentos humanos. Perdurem vocês, sensações de outono! Voltem, para deleite dos futuros transeuntes da vida, que como eu, cá estou, de passagem e rapidamente, uma guardiã de memórias.


(Ada 18/06/2011)

3 comentários:

Por que você faz poema? disse...

Caminho pelo outono, já sem esperanças.

Ada disse...

Ouvi dizer que esperança é a última a morrer...

Anônimo disse...

VOCÊ ESTÁ CERTA ADA. A ESPERANÇA DE Q TDO FIQUE MELHOR PERSISTE EM TDAS AS ESTAÇÕES Q SE VIRAM EM VENTOS, CALOR, FRIO, CHUVAS... INSISTE EM ACOMPANHAR O SER HUMANO POR TODA SUA CAMINHADA. AINDA BEM!!

BJK

LÍGIA