“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

17/06/2011

Teia e tear: a arte de tecer



É quase que inacreditável, mas este tecido dourado, delicado, lindo, uma obra de arte, bordado fio a fio num tear e com motivos utilizados pela antiga nobreza de Madagascar, foi tecido com fios de seda de aranhas!

ATÉ ARANHAS SÃO EXPLORADAS PELO HOMEM
 
Interessei-me imediatamente por esta história porque me incomoda muito a relação de exploração do homem com tudo o que possa lhe trazer lucro, inclusive o próprio homem. Quando li a notícia em 2009, guardei o recorte para futura pesquisa. O delicado tecido dourado estimulou admiração pela aranha que produz o filamento de seda. Achei o cúmulo da exploração extraírem os fios de seu abdome o que obviamente, além do sofrimento imposto às aranhas, devem te-las mortas aos milhares durante o manuseio, desde a sua captura até a extração da seda.

O nome da aranha que produz a teia dourada é Néphila. São 36 espécies de Néphila que vivem pelos trópicos da América, Ásia e África. Aqui no Brasil, muita gente fotografou néphilas em suas teias douradas e pude encontrá-las facilmente nas redes sociais, como o flickr.  












 
Essas aranhas douradas produzem uma matéria-prima que são filamentos de seda muito resistentes. Apenas as fêmeas de Nephila produzem o célebre filamento, tanto por sua bela cor de açafrão, quanto por sua força tensorial que é até seis vezes mais forte que o aço de peso equivalente.

Mas a pobre rica personagem desta história vive em Madagascar e se chama Nephila Madagascariensis.


Néphila Madascariensis
Elas são grandonas e não são venenosas. Chegam a ter 12 cm de patas! Suas teias são tecidas no formato circular, por isso também é classificada como “orbe” provavelmente pelo formato orbital com que tecem suas teias. As teias podem ser vistas entre os fios de telefone e eletricidade e às vezes são grandes o suficiente para atravessar uma estrada de pista única.
Esta foto é no Brasil
A IDEIA DE EXTRAIR A SEDA EM MADAGASCAR NÃO É NOVA

Um cara chamado Simon Peers, inglês, historiador da arte e especialista no ramo têxtil e que vive em Madagascar há mais de 20 anos juntou-se com outro cara, Nicholas Godley, estilista de moda americano que também está vivendo na ilha, e iniciaram uma parceria para fazer o que ninguém tinha tentado havia mais de cem anos: usar aranhas para produzir seda, do mesmo modo como os casulos do bicho-da-seda vêm sendo usados há milhares de anos.

Peers trabalha há anos para reativar as tradições de tecelagem pelas quais Madagascar foi famosa no passado. Esta fama de Madagascar em tecidos, não é recente e no final da década de 1880 e 1890 pescadores já usavam a seda das aranhas para tecer redes e linhas de pesca rudimentares.

Os dois retomaram essa velha idéia e montaram uma operação de extração da seda de aranhas, contratando pessoas locais para vasculhar o campo que com longos bastões de bambu, recolheram aranhas fêmeas vivas. Montaram um sistema pelo qual trabalhadoras mulheres manejavam cada aranha individualmente, suavemente puxando os fios dependurados de suas fiandeiras. Se provocadas, as aranhas mordem, mas suas mordidas não são perigosas.

Em seguida, cada aranha era colocada num arreio. Em fila, 24 aranhas ficavam paradas ali, enquanto uma bobina puxava o resto de sua teia, em fios contínuos que, em alguns casos, chegavam a ter 365 metros de comprimento.

Esses 24 fios foram então torcidos manualmente para formar um só e unidos em feixes de 96 fios cada, que funcionavam como a base do tecido. Nem um único fio jamais se partiu no tear de tão fortes que são. Esse processo durou 4 anos e 1 milhão de aranhas.

E O QUE FOI FEITO COM AS MAIS DE 1 MILHÃO DE ARANHAS?

Dizem que “algumas morreram durante a produção”, o que não é simples de acreditar, pois imaginem a fragilidade delas sendo manuseadas e violadas na extração de sua teia, dispostas num arreio... Disseram também que montaram um sistema pelo qual as aranhas usadas eram soltas diariamente e que planilhas detalhadas registravam o número de aranhas utilizadas, sua produção e o índice de mortalidade. Não encontrei esta planilha detalhada...

A certa altura da reportagem eles afirmam “viramos de certo modo defensores dessas aranhas", e se descreveram como sofredores convictos de aracnofobia. Não é para menos!

Estas aranhas foram coletadas durante a estação chuvosa, o único momento em que eles produzem a seda, em Antananarivo, capital de Madagascar e redondezas da ilha que fica na África e é riquíssima em espécies exóticas. Precisou também de uma hábil equipe de trabalhadores malgaxes (como são denominados os habitantes de Madagascar) que recolheram as aranhas na natureza e outro tanto que lidou com a extração e com os teares.

"ODEIO SOAR PRETENSIOSO, MAS NOSSA INTENÇÃO FOI PRODUZIR UMA OBRA DE ARTE"

Nada pretensiosos, imagina! A obra de arte, o tecido, custou mais de meio milhão de dólares para ser produzido e está em exposição no Museu Americano de História Natural, em Nova York. O tecido é o primeiro exemplar de que sem tem registro de um têxtil tecido à mão e com brocado feito inteiramente com a seda destas aranhas.

Essa intricada tecelagem com estampas características de pássaros e flores estilizadas se baseia em uma tradição de tecelagem conhecido como Lamba Akotifahana das terras altas de Madagascar, uma arte reservada para as classes abastadas e para a realeza do povo Merina e que foi utilizada por um longo período, no entanto, não existe uma tradição de tecelagem de seda de aranha em Madagascar. 

Um dos maiores desafios é a natureza antropofágica de aranhas, o que torna muito difícil criá-las em cativeiro.  Por isso, os cientistas estão tentando produzir este material intrigante artificialmente para possíveis usos no campo de batalha, ou em cirurgia, para a exploração espacial, entre outros. Os pesquisadores estão investigando maneiras de replicar a seda, para evitar a colheita. No entanto, a seda da aranha é difícil de imitar em um laboratório, porque é um tipo de proteína que é produzida na parte de trás do abdome da aranha, por uma glândula que secreta a proteína líquida, mas assim que entra em contato com o ar torna-se este fino fio extremamente forte.
OS NÚMEROS DESTA OBRA DE ARTE
·         1 milhão de aranhas Néphila Madagascariensis "doaram gratuita e voluntariamente" seu fios de seda;
·         Não se sabe quantas aranhas morreram;
·         80 pessoas trabalharam nesse processo;
·         ½  meio milhão de dólares foram investidos no projeto;
·         As aranhas fêmeas são 5 vezes maiores que os machos;
·         As aranhas vivem 1 ano e morrem após o acasalamento no fim do verão;
·         Produzem a seda na época de chuvas;
·         Cada aranha produz 80 metros de fios dourados;
·         As fêmeas são antropofágicas e não podem ser criadas em cativeiro;
·         Somente as fêmeas é que produzem a seda;
·         O tecido que foi para o Museu tem 11 metros x 4 metros demorou 4 anos para ser tecido;
·         o tecido de seda da aranha é delicado ao toque e é muito difícil de ser produzido em grande quantidade;
·         Há 100 anos a técnica de extrair a seda já existia em Madagascar, mas foi abandonada devido à dificuldade de extração;
·         Os fios extraídos são torcidos juntos de 4 em 4 e chegam a ter 365 metros;
·         Os desenhos do tecido são da época da realeza de Madagascar;
·         Os fios podem esticar até 40% do seu comprimento normal;
·         Os fios são 6 vezes mais resistentes que o aço de mesmo peso;
·         O  fio está sendo estudado para decifrar a estrutura molecular que determina sua grande resistência.


Com isso concluo minha pesquisa, que ainda poderia ter desdobramentos, a depender dos diversos aspectos em que o tema pode ser abordado. Pesquisa essa que me deixou extasiada pela beleza da obra de arte que resultou, e estupefata pela ousadia humana em explorar tudo e cada milímetro de possibilidades para realizar algo grandioso. Fica a polêmica: justifica-se sacrificar vidas para atingir a perfeição? 

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