“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

31/07/2011

À velocidade da luz

olhares.com
Uma linha de luz corta o quarto na escuridão. Será a luz do poste, ou do alvorecer? Será a luz da lua, ou a luz da rua? A vigília ilude o tempo, o cansaço turva a realidade insone. Um turbilhão de sentimentos pesa sobre pálpebras semicerradas, inchadas, cortinas de ferro que teimam esconder respostas. O que é essa linha tênue de luz que se desenha no infinito das paredes? 

Bem que podia ser resolução, tratado, manual, explicação. Mas é apenas uma fresta da janela que separa fora e dentro, barreira de vento, traz entrecortadas as coisas mundanas e insanas aqui para o latejante dentro. Bem que pode ser amor, amizade, desafeto. Maldade?

Uma pulsante invasão confusa de fatos, tambores ecoando nesse mundão de meu deus, tão frágil, quebrável. À velocidade dessa luz é tão difícil acompanhar o que penso e o que penso que penso. Linha de luz flutuante, sua navegante sou. Uma linha de luz atravessa o quarto. Lentidão?

Sou estranho ser equilibrando-me sobre essa linha tênue de luz, refletida no mundo misterioso dum quarto escuro, mundo que gira escondido da gente, mundo invisível refletido atrás de caras que sorriem, que ecoam soluços em espasmos e choram sal. Mistura confusa de olhares e gestos. Luz em pó, leitosa, fantasiosa, escorre nos pensamentos, foge aos meus pés. Ilusão?

Desequilibro-me. Despenco-me da corda dessa luz bamba, pairada no ar. Não é fresta, nem nada. Linha de luz complexa, inexplicável, invisível a olho nu. No mundo despido e hipotérmico desse quarto, invento que a luz é tocável e quente e dista centímetros dos dedos espremidos, encolhidos debaixo dos travesseiros. Se esticá-los pudesse! Os braços! Os abraços! Dormentes?

Na letargia de um corpo contraído, dolorido, lá embaixo deitado naquela cama, naquele quarto, nem percebo a origem dessa luz, nem sei se ela existe como a vejo existindo. Insistindo. Não invento, a luz é fria e longe de fato. Tenho certeza. Duvido. Esqueço.

Logo o dia amanhecerá e vou acordar do sono que não veio, do sono que não chegou a tempo de dormir. Já não-linha de luz impregnará essas paredes agora finitas, concretas e cruéis. Novamente, mais um dia turvará meu olho embotado de disputa e mágoas. Vou escancarar a janela e as palavras dúbias, certezas vãs, voarão com o vento frio de julho para bem longe, para muito longe, para a próxima noite escura. 

E se meu sono chegar, vou pedir que apague a luz e me deixe dormir. (Ada, 31/7/2011)

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