“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

02/08/2011

O que realmente importa é ter alguém para pegá-lo, abraçá-lo apertado e dizer que está tudo bem

“Quando eu estava com três anos, papai tinha um trator... Aquela máquina tinha uma roçadeira na frente, uma longa fileira de lâminas que pareciam pás, seis de cada lado. As pás ficavam erguidas alguns centímetros acima da terra e era preciso empurrar a alavanca para frente para colocá-las no chão. Então elas cortavam o solo, jogando terra fresca nos canteiros de milho. Um dia, eu estava brincando na lama em frente à roda daquele trator, quando o irmão da mamãe saiu, depois do almoço, engatou a marcha e começou a dirigir a máquina.

Papai viu o que estava acontecendo e começou a correr. Meu tio não escutava os gritos dele. A roda me jogou no chão e me empurrou para as lâminas. Fui empurrada por elas, passei de uma à outra, até que o irmão de mamãe girou a roda e a lâmina de dentro e me jogou pela calha do meio e me deixou de cara para o chão atrás do trator. Papai me pegou, num só movimento, e correu comigo de volta para a varanda. Ele me examinou com assombro e me manteve no colo o resto do dia, balançando –me para a frente e para trás em nossa velha cadeira de balanço, chorando em meu ombro e me dizendo: “Você está bem, você está bem, está tudo bem...”.

Por fim olhei para ele e disse: “Cortei o dedo”. Mostrei o sangue. Eu estava machucada, mas, fora isso, aquele corte minúsculo foi minha única marca.

A vida é assim. Todos de vez em quando passamos pelas lâminas do trator. Todos ficamos machucados e nos cortamos. Algumas vezes, as lâminas cortam fundo. Os que têm sorte saem com alguns arranhões, um pouco de sangue, contudo isso não é o mais importante. O que realmente importa é ter alguém para pega-lo, abraçá-lo apertado e dizer que está tudo bem.

Durante anos, achei que tinha feito isso com Dewey. Achei que essa era a história que eu tinha de contar. E fiz isso. Quando Dewey estava machucado, com frio e chorando, eu estava lá. Segurei-o. Certifiquei-me de que estava tudo bem.

Mas essa é apenas uma lasca da verdade. Na realidade, por todos aqueles anos, nos dias difíceis, nos dias bons, e durante todos os dias não lembrados que compõem as páginas do verdadeiro livro de nossas vidas, Dewey estava me segurando. E ele continua me segurando. Desse modo, obrigada, Dewey. Obrigada. Sejá lá onde você estiver.”

Trecho final do livro “Dewey, um gato entre livros” história verdadeira de Dewey e Vicki Myron, em que pude extrair sentimentos idênticos em minha vida.

+ Dewey

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