“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

27/12/2011

Do romance Maira: a dualidade dos mairuns

"Vivemos divididos segundo regras do sim e do não. Do frio e do quente, da sorte e do azar, da vida e da morte, da alegria e da dor, do cru e do cozido, da boca e do cu, do pau e da boceta, da cabeça e do umbigo, do sangue e do leite, do sêmen e do cuspe, do nu e do vestido, do silêncio e da fala, da raiz e da fronde, da pele e do osso, do animal e do vegetal, da caça e do peixe, do riso e do choro, do tubi e do goto. Quando falamos de um, aí está o outro, oferecido, como o direito e o esquerdo, a frente e o atrás, exigindo atenção, e se é o caso, pedindo a sua parte."

"Porque nossa gente, tão singela em tudo, tem tanto apego à coerência? Por que tanto empenho em organizar as coisas e tudo dispor numa ordem simétrica? A aldeia exprime no chão do mundo as ideias que levamos na cabeça: a banda do nascente e a do poente, o lado de cima e o de baixo, a rua de fora e a de dentro. Mas não é só na aldeia. Nela como em tudo mais somos assim."

(Darcy Ribeiro, in Maíra)

Cá estou relendo Maíra. Romance que originou o nome para minha filha em 1977. Os Mairuns pertencem a uma tribo curiosa, com lindas explicações para justificar a vida e a morte. E Darcy Ribeiro, antropólogo, tem seu modo especial de escrever sobre os indios.


Maíra, publicado pela primeira vez em 1976, é bastante oportuno para entender o conflito de seres que se separam das suas raízes culturais e buscam recuperar sua identidade. Em Maíra, Darcy Ribeiro revive as emoções dos anos em que conviveu com os índios, seu tema é a dor e o gozo dos índios. 


O livro narra a história do índio Avá que, adotado por um padre e convencido a seguir o sacerdócio, questiona sua verdadeira fé e entra em conflito por ter abandonado seu povo. Os dois personagens principais, o índio e a jovem branca, Alma, são porta-vozes do discurso indignado que perpassa toda a obra, escrita em tempos de censura e perseguição. Nos tempos em que a ditadura assolava o interior do país em busca de “integrar” o índio à sociedade e o próprio Darcy Ribeiro se encontrava no exílio.

O livro tem relatos detalhados da natureza, cenário em que ocorre boa parte da trama. Pássaros, rios e caçadas, o cheiro da morte e dos rituais fúnebres, o sexo, as festas e as lutas, tudo aparece ardente na narrativa, só contida pelo lamento da perda das tradições que o antropólogo insistiu, até o fim da vida, em reconhecer e valorizar como suas também. A busca da felicidade...

Segundo o próprio Darcy Ribeiro, em Maíra ele entra no corpo do índio e olha o mundo com os olhos do índio. Tenta carnalizar a dor de ser índio. Partilha do sistema de valores de uma cultura indígena tão rica, oprimida, e contraditória com os valores hegemônicos da nossa sociedade.

Um romance imperdível, dignamente brasileiro, verdadeiro, real e merece ser lido diversas vezes, com aquele risco de descobrirmos sempre algo novo, mesmo tão antigo,  nas suas entranhas. O trecho sobre a dualidade, acima, me é particularmente interessante. Além de fortalecer nossa decisão em dar esse nome à nossa filhota... Maira é sinônimo de Deus.


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