“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

20/01/2012

Tempo, tempo, tempooo...



Foi oferecida a Einstein, no final de sua vida, uma coletânea de ensaios que incluía uma contribuição do grande matemático GödelEste acreditava provar a equivalência entre passado e futuro imaginando a possibilidade de uma viagem ao passado. Em sua resposta a Gödel, Einstein rejeitou essa idéia: por maior que seja a tentação da eternidade, aceitar a possibilidade de voltar ao passado equivale a uma negação da realidade do mundo. Enquanto físico, Einstein não podia aceitar essa conseqüência, no entanto lógica, de suas próprias idéias.

Jorge Luis Borges exprime a mesma ambivalência. Conclui ele, após ter exposto as doutrinas que transformam o tempo em ilusão:

“E, no entanto, no entanto... 
negar a sucessão do tempo, 
negar o eu, 
negar o universo astronômico 
são desesperos aparentes e consolos secretos... 
O tempo é a substância de que sou feito. 
O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio; 
é um tigre que me destroça, mas eu sou o tigre; 
é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo. 
O mundo, desgraçadamente, é real; 
e eu, desgraçadamente, sou Borges”. 

O tempo e a realidade estão irredutivelmente ligados. Negar o tempo pode parecer um consolo ou aparecer como o triunfo da razão humana, é sempre uma negação da realidade.

A negação do tempo foi uma tentação tanto para Einstein, o físico, quanto para Borges, o poeta. Einstein afirmou muitas vezes que aprendera muito mais com Dostoievski do que com qualquer físico.

Numa carta a Max Born, escrevia ele em 1924 que, se fosse obrigado a abandonar a causalidade estrita, preferia “ser sapateiro ou até empregado numa espelunca a ser físico”. A física, para aspirar a um valor qualquer, devia satisfazer sua necessidade de escapar à tragédia da condição humana. “E, no entanto, no entanto...”, quando Gödel o colocou diante das conseqüências extremas de sua busca, a negação da realidade mesma que o físico procura descrever, Einstein recuou.




3 comentários:

lucia teresa faria disse...

O Senhor Tempo é um dos grandes Orixás do Candomblé e esta é uma linda oração/homenagem que Caetano fez a tão grande senhor. Axé!

Joyce Amaral disse...

Bacana!

Ada disse...

Valeu Lucia, você sempre antenada nos orixás!!! Boas vibrações aqui no Blog!!! Beijão, saudades.