“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

30/04/2013

Haicais de Helena Kolody, ou poesia mínima

Helena Kolody, além dos Haicais em que a métrica originalmente é 5/7/5, escrevia também o que chamou de “poesia mínima”. Afinal, “o poeta nasce no poema, inventa-se em palavras”. Ela foi a primeira mulher a escrever haicais... fiz uma colheita destas flores:

um sabiá cantou
longe dançou o arvoredo
choveram saudades

***
em líquidos caules
irisadas flores d'água
cintilam ao sol

***
nas mãos inspiradas
nascem antigas palavras
com novo matiz

***
os olhos do amado
esqueceram-se nos teus
Perdidos em sonho

***
puseste a gaiola
suspensa dum ramo em flor
num dia de sol

***
da estátua de areia
nada restará
depois da maré cheia

***
a morte desgoverna a vida
Hoje sou mais velha
que meu pai

***
depois será sempre agora
viajarei pelas galáxias
universo afora

***
bate breve o gongo
na amplidão do templo ecoa
o som lento e longo

***
a flecha de sol
pinta estrelas na vidraça
despede-se o dia

***
luar nos cabelos
constelações na memória
orvalho no olhar

***
em líquidos caules
irisadas flores d'água
cintilam ao sol

***
nas mãos inspiradas
nascem antigas palavras
com novo matiz

***
tão longa a jornada
e a gente cai de repente
no abismo do nada

***
para quem viaja
ao encontro do sol
é sempre madrugada

***
dormem as papoulas
a lua sonha no céu
vigiam os grilos

***
em seus caramujos
os tristes sonham silêncios
que ausência os habita?

***
festa das lanternas
os ipês se iluminaram
de globos cor de ouro

***
vôo solitário
na fímbria da noite
em busca do pouso distante

***
corrida no parque
o menino inválido
aplaude os atletas

***
trêmula gota de orvalho
presa na teia de aranha
rebrilhando como estrela

***
damos nomes aos astros
qual será nosso nome
nas estrelas distantes?

***
manhã nas flores do cardo
leve poeira de orvalho
manhã no deserto

***
deus dá a todos uma estrela
uns fazem da estrela um sol
outros nem conseguem vê-la

***
pintou estrelas no muro
e teve o céu
ao alcance das mãos

***
às vezes soluço por mim
como se pranteia alguém
que há muito deixou de existir

***
luar nos cabelos
constelações na memória
orvalho no olhar

***
nas flores do cardo
leve poeira de orvalho
manhã no deserto

***
arco-íris no céu
está sorrindo o menino
que há pouco chorou

***
não ando na rua
ando no mundo da lua
falando às estrelas

***
que importa a nuvem no horizonte
chuva de amanhã?
hoje o sol inunda o meu dia

***
quem é essa que
me olha de tão longe
com olhos que foram meus?

(Helena Kolody)

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3 comentários:

Gkolody disse...

Meu nome é Giovanna Kolody Stanjek ,Helena Kolody foi minha tia avó,conheci ela quando era muito pequena,fico feliz por ter tido essa chance ,desde pequena sempre á admirei,então decidi ir atras para conhecer melhor quem ela era é o que fazia.Graças a pessoas como você pude ter essa oportunidade,com blogs e sites como este pude ver melhor quem ela era,sua historia e ter acesso a seus poemas de um jeito muito mais simples e fácil,o que afinal é muito importante pois Helena é mais conhecida por pessoas mais velhas,e com sua divulgação e a de outros pela internet jovens como eu podem descobrir a vida inteira dela com apenas um clique.
Para finalizar,parabéns ,achei muito bom tudo o que falou sobre ela e fico muito feliz em saber que ela ainda tem grandes admiradores.

Gkolody disse...

Meu nome é Giovanna Kolody Stanjek ,Helena Kolody foi minha tia avó,conheci ela quando era muito pequena,fico feliz por ter tido essa chance ,desde pequena sempre á admirei,então decidi ir atras para conhecer melhor quem ela era é o que fazia.Graças a pessoas como você pude ter essa oportunidade,com blogs e sites como este pude ver melhor quem ela era,sua historia e ter acesso a seus poemas de um jeito muito mais simples e fácil,o que afinal é muito importante pois Helena é mais conhecida por pessoas mais velhas,e com sua divulgação e a de outros pela internet jovens como eu podem descobrir a vida inteira dela com apenas um clique.
Para finalizar,parabéns ,achei muito bom tudo o que falou sobre ela e fico muito feliz em saber que ela ainda tem grandes admiradores.

Eliana Ada Gasparini disse...

Giovanna, como diz o nome "jovem". Que bom poder ter uma avó assim, com palavras doces! Seus beijinhos e abraços deveriam também ser doces... aproveite bastante a memória dela, divulgando-a também, você a manterá viva sempre! Vovó eterna é muito bom! Obrigada por deixar seu comentário! Volte sempre! Se quiser escrever sobre ela, pode me contar! Gostaria de publicar e saber... Beijos de uma vovó ainda não descoberta...)