“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

10/11/2005

Artigas, um construtor de escolas

Este é um artigo da nossa amiga Lucia. Uma das arquitetas que saiu da turma do Conselheiro Crispiniano. Além de resgatar nossa história, é uma declaração de amor à nossa querida escola. Espero gostem do artigo, tanto quanto eu.
Ada

Artigas, um construtor de escolas
* Por Lucia Tereza Faria

Decidi não falar da arquitetura do Professor João Batista Vilanova Artigas, que não faria analises arquitetônicas, o que seria para alguém com a minha formação uma tarefa bem mais fácil. Não quero falar do arquiteto, este alguns já conhecem, quero falar do homem que fez do seu ofício uma imensa poética. Vivi a arquitetura de Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi numa fase da vida onde a arquitetura não é importante como “obra de arte” e manifestação cultural; é só abrigo, espaço de vivência e convivência.






Falar do Prof. Artigas é falar da minha infância já adolescência, é falar de um pátio iluminado pelo sol que desenhava o piso onde brincávamos com as crianças do Gruber, abraçados por belas colunas azuis. É falar da minha escola, dos amigos e talvez dos melhores anos das nossas vidas. É falar de alguma coisa que faz parte do inconsciente. Amávamos aquela escola – amamos ainda – porque era a nossa escola, porque tinha sido feita para nos receber, essa escola nos dava a sensação de liberdade e vejam não tinha muros nem corredores, as janelas eram enormes e completamente transparentes. 

Bonita, bonita mesmo, muito colorida e diferente de todas as outras escolas da nossa cidade e das outras cidades. Estudar no Conselheiro – é assim que nos, os seus alunos a chamamos – era o grande sonho, o que nos fazia mais populares, privilegiados mesmo. Entrei no colégio em 1968, quando foi construída a nossa não menos querida “fazendinha”, me formei em 1972 no ginasial e fui estudar em São Paulo.

Já formada em arquitetura, surgiu a oportunidade de voltar à escola, agora como professora, outro privilégio, dei aulas de1980 a 1986.

Em 1985 após longas conversas com o Prof. José Roberto Martinatti, um diretor muito apaixonado pela sua escola, ficou decidido que o Conselheiro voltaria a ter seus espaços, suas transparências e suas cores originais, houve muita vontade e empenho para que isso acontecesse, a prefeitura deu as tintas e a mão de obra, o arquiteto Júlio Artigas, filho do já falecido professor, abriu os arquivos do escritório e eu pude fazer as pesquisas e o projeto de restauro. Recuperar as cores me parecia o mais importante, as cores faziam parte das lembranças de todos e sempre que olhava para a escola ela não era mais a mesma, tinha perdido o seu charme, lhe faltava alegria, mas como recuperar seus tons? o vermelho, o azul e o amarelo caipira, as cores do Prof. Artigas? 

A memória não era suficiente, nem a minha nem a de ninguém, cores tem formulas e o sentimento de quem as criou, fui consultar a esposa do professor e artista plástica Virgínia Artigas, sua casa sempre fora pintada dessas mesmas cores e ela nos deu as fórmulas e a autorização para usa-las. Em um texto muito conhecido pelos arquitetos o Prof. Artigas descreve o Colégio de Guarulhos e o belo painel do pátio pintado por Mario Gruber e diz que uma diretora do colégio teria mandado cobrir a pintura mural com uma camada de cal, felizmente isso nunca aconteceu realmente. 

Contudo em 1977 Artigas e o então diretor do Conselheiro se desentenderam durante uma visita que fez à escola, o Prof. Milton Cardoso, muito irritado lhe disse que mandaria passar cal no painel pois não teria a verba necessária para a manutenção e restauro do painel que havia sofrido danos com infiltrações de água. 


Artigas nunca mais quis voltar ao colégio e nem ouvir falar sobre o assunto.

Em uma das muitas oportunidades em que pude conversar com o Prof. Artigas pedi a ele que fosse o paraninfo dos formandos daquele ano, que a criançada o estava convidando e que ficariam felizes se ele aceitasse, mostrei o projeto do convite de formatura que havia feito, a ilustração de fundo foi o painel do pátio, ele perguntou: como você fez isto? 


O painel já não existe há tanto tempo, onde conseguiu esta foto? - eu tirei, o painel esta lá professor, ele nunca foi caiado! Sei que ele ficou feliz com a noticia. E eu mais ainda! Nosso mestre foi um grande “fazedor” de escolas, fez escolas para os olhos, para a liberdade e principalmente para os seus alunos.

Lucia Teresa Faria
Setembro 2005

Um comentário:

celso henrique pires disse...

Lucia. Com grande surpresa li o seu texto e, confesso, com emoção "degustei" cada pedacinho das fotos do antigo colegio que, imaginava, não mais existir. Somos contemporanios : tambem entrei em 1968, apos exame admicional, e fiquei la até 1975, termino do colegial. Fico feliz em saber que ainda existem pessoas como voce preocuadas com a preservação do nosso passado. Muito obrigado.