“Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” (Gabriel García Márquez, em "O amor nos tempos do cólera")

17/12/2005

Um ponto para a vida

Foi na universidade. Uma dessas cenas maravilhosas que não acontecem todo o dia, mas que têm o poder de mudar o rumo da história. Foi protagonizada por um menino que decidiu salvar a vida de um cachorro. O animalzinho esperava na sala, amarrado a uma mesa, para ser morto em nome da ciência. O garoto, de nome Thales, olhou para o bichinho e o bichinho olhou para o Thales. Não houve vacilação. Thales desamarrou o cachorro, abraçou-o e saiu correndo porta afora. Aquele não morreria. A ação provocou uma confusão no curso de Biologia e no Centro de Ciência Biológicas. Punição, debates, acaloradas discussões e, por fim, o encerramento da prática da morte de animais. Thales Trez, o garoto que salvou o cachorro, ensinou a todos na Universidade Federal de Santa Catarina uma bela lição. Ele dizia que: "um dia, o ser humano vai perceber que o que fazemos hoje com os animais é uma violência absurda, e as coisas vão mudar". O tempo passou, o Thales se formou, foi para fora do país, fez mestrado, doutorado, está aí dando aula, fazendo luta, e as coisas pareciam não mudar. Por isso, me surpreendeu a notícia de que, em Florianópolis, um jovem tenha sido condenado por ter assassinado um cachorro, com requintes de crueldade. A notícia me tocou o coração e logo me fez lembrar do garoto dos olhos clarinhos e cabelos esquisitos que tantas lições nos deu por aqui mesmo, no campus. Talvez, realmente, as coisas tenham começado a mudar. Os bichos passam a ser respeitados como vida e ninguém pode matar um ser vivo assim, impunemente. Alguns podem dizer. Mas "quá"! Temos que nos importar com os garotos e garotas das comunidades de periferia que estão aí sendo assassinados, a cada noite, pela guerra do tráfico. E eu diria. Alto lá, cara pálida. Eu me importo. Quem não se importa é quem segue vivendo a sua vidinha amorfa, cuidando só da farinha do seu pirão. Eu luto por um mundo justo, digno, em que caibam todos. Humanos, animais e vegetais, na harmonia cósmica. A luta pelos humanos fazemos nas ruas, nas instituições, na discussão das políticas públicas. E, nela, contamos com a gente mesmo, as vítimas, os oprimidos e deserdados que, quando não podemos mais agüentar, nos rebelamos das mais diversas formas. Mas os animais, com seus olhos mansos, não sabem falar a língua dos homens. Não podem ainda intervir nas políticas, nos processos, da maneira como nós podemos fazê-lo. Hoje, ainda precisam de nós. Assim como os vegetais que sangram nas florestas decepadas. Daí a importância de uma decisão como a que foi tomada contra o jovem que matou o cachorro a pontapés. A cadeia da vida é inexorável, mas nenhum ser vivo pode ser morto assim, torturado e violentado, sem que nada aconteça. Acredito, assim como Thales, que um dia os humanos vão perceber o tremendo erro que cometeram ao considerar os animais como seres inferiores ou apenas dignos de bilú-bilú. Os bichos - e isso nos inclui - são seres desse grande jardim que é o mundo da vida e como vida merecem respeito e amor. Dia virá, eu sei!
Por Elaine Tavares - jornalista no OLA/UFSC

Nenhum comentário: